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SP Escola de Teatro entrevista Danilo Santos de Miranda, conselheiro da ADAAP

Publicado em: 07/08/2023 | por: Guilherme Dearo

Imagem colorida de Danilo Santos de Miranda, em pé

Danilo Santos de Miranda: conselheiro da ADAAP fala sobre importância do teatro. | Foto: Divulgação/Adauto Perina

A SP Escola de Teatro, criada e gerida pela Associação dos Artistas Amigos da Praça (ADAAP), entrevista em 2023 todos os seus 13 conselheiros.

Inaugurada em 2010, a SP Escola de Teatro é uma instituição da Secretaria de Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo.

A associação é uma Organização Social e exemplo do modelo de gestão de Políticas Públicas que vem sendo implantado pelo governo do Estado desde 2004, com base na Lei Complementar n° 846/98 e no Decreto Estadual nº 43.493/98. Através da publicização, ou gestão pública não estatal, serviços e atividades públicas são geridos por meio de parcerias entre o Estado e o terceiro setor.

A ADAAP faz parte da Associação Brasileira das Organizações Sociais de Cultura (Abraosc) e tem por finalidade desenvolver e administrar projetos socioeducacionais, culturais e institucionais, valorizando a arte e a educação no estado de São Paulo.

Danilo Santos de Miranda

O entrevistado de hoje é Danilo Santos de Miranda (1943), diretor do Serviço Social do Comércio (Sesc) no estado de São Paulo desde 1984.

Ele é formado em Filosofia e Ciências Sociais e é especialista em ação cultural, com especialização em gestão empresarial no International Institute for Management Development – IMD, na Suíça. Ele atua como conselheiro em entidades como Fundação Itaú Cultural, Fundação Padre Anchieta, Fundação Bienal, Museu de Arte Moderna de São Paulo e Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, além de ser membro da Art for the World, com sede na Suíça, e conselheiro da ADAAP. Foi presidente do Conselho Diretor do Fórum Cultural Mundial (2004) e presidente da comissão que organizou o Ano da França no Brasil (2009).

Nascido em Campos dos Goytacazes, se mudou na adolescência para Friburgo, onde se matriculou na Escola Apostólica dos Jesuítas. Ali, teve formação religiosa e humanista e aprofundou seus conhecimentos em música, poesia e esportes, além de se envolver com política, no grêmio estudantil. Aos 24 anos, ele abandona as atividades seminaristas e se muda para o bairro da Lapa.

No Sesc, entrou em 1968, após ver no jornal um anúncio para um processo seletivo. Selecionado, começou a trabalhar como orientador social. Em 1973, foi trabalhar na área de recursos humanos do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), mas retornou ao Sesc em 1984 como diretor regional. Hoje, é considerado uma das maiores referências em gestor cultural do país.

Confira a entrevista com Danilo Santos de Miranda

Como se deu sua entrada no conselho da ADAAP? Por que, para você, é importante participar desse conselho e contribuir para a associação?

Conheci o Ivam Cabral, idealizador e diretor da Escola, um bom tempo atrás. E eu sempre estive envolvido com o mundo da cultura. Para além do meu trabalho no Sesc, sempre participei de diversos conselhos, ligados a entidades do mundo das artes visuais, dança etc., como na Bienal de São Paulo. Quando veio o convite do Ivam para eu entrar para o conselho da ADAAP, fiquei muito feliz com a oportunidade, pois era a chance de me envolver mais com o teatro. E a SP Escola de Teatro ainda traz um novo âmbito, o pedagógico, o que me agradou ainda mais.

Amo o teatro porque ele é uma linguagem artística das mais contundentes, diretas, objetivas. No teatro, se tratam de temas de uma maneira que não se faz no dia a dia ou em outros espaços. Com a palavra, os gestos, a luz e outras linguagens, se chega a uma discussão muito profunda. Praticamente toda semana eu estou em alguma peça, seja no Sesc ou em outro lugar.

Para mim, é muito importante prestigiar o trabalho da SPET como conselheiro porque o trabalho da Escola é fundamental. Ela cria oportunidade fantásticas para os jovens, dá oportunidades a muitas pessoas que antes não tinham oportunidades. O espaço do fazer teatral é fundamental. O teatro é uma arte que não existe sem audiência, é parte integrante do ato ali proposto. Não existe teatro que não seja presencial. Claro, na pandemia vimos que foi possível contornar a crise com ferramentas e transmissões digitais, mas sentimos ainda faltava algo. A troca de olhares com o espectador é fundamental.

Para você, qual a importância e o impacto do trabalho da ADAAP e da SP Escola de Teatro?

A importância da Escola vem da sua presença, porque nasce em um lugar marcante, a Praça Roosevelt. Ela nasce em um lugar que tem vida, história, que já teve e tem grandes espaços dedicados ao teatro, ao cinema e à música. E ela transforma esse espaço também, dá uma contribuição ao espaço urbano e social imprescindível.

Assim, fica claro o trabalho fundamental da ADAAP e da Escola para a cidade de São Paulo e para o estado. O Ivam Cabral e o Rodolfo García Vázquez ajudaram a transformar o centro da cidade, com a criação dos Satyros, décadas atrás, depois deram a continuidade dessa transformação ao criarem a ADAAP e, depois, a Escola.

E, falando do conselho, só tenho o prazer de estar ali ao lado de pessoas tão extraordinárias, como a Maria Bonomi. Todos ali são incríveis.

Na sua visão como uma pessoa tão envolvida com cultura, qual a importância das artes cênicas na sociedade? Como você vê papel transformador na vida das pessoas?

O teatro, de modo geral, não é a simples representação da vida. Mais do que representar a vida humana, ele a compõe. Ele problematiza, cria celeuma, cria novas realidades. O teatro precisa ser corajoso. Ele deve ter coragem para tratar de temas de maneiras que, normalmente, outros não tratam. Por isso, ele tem papel fundamental na nossa vida. Quem sobe no palco para apresentar uma peça, mesmo que seja para somente uma pessoa na plateia, já tem muita coragem e está muito bem intencionado.

Creio que a SP Escola de Teatro, atualmente, cumpre esse papel de criar, criticar e refletir. Ela ajuda a promover um movimento teatral que é nacional, para além da cidade. Outras figuras contemporâneas ajudaram a criar esse movimento nacional também, como o querido Zé Celso, o Antunes Filho, o Augusto Boal. Estes, além de serem homens de teatro, eram homens com sólida visão de mundo, com grande compromisso social e político.

Após tantas décadas envolvido com cultura e projetos culturais, seja no Sesc ou em outras instituições, o que mudou no Brasil nesse período ao se falar de cultura? Melhoramos ou pioramos? O que esperar do futuro?

Por um lado, sinto que temos mais consciência da importância da cultura e do seu papel na sociedade. Sinto que ganhamos nessa dimensão. Pois cultura é mais do que o mundo das artes. Manifestações artísticas é cultura, ela faz o ser humano, mas também cultura é tudo o que nos rodeia: como nos comunicamos, como nos vestimos, como nos alimentamos etc. A arte é um espaço elevado da cultura, mas cultura também é a nossas relações na rua, na escola, com a nossa família.

Por outro lado, sinto que essa parte específica da cultura, a arte, está sofrendo mais. Ela está sempre ameaçada: falta de recursos, de perspectivas, de reconhecimento. Muita gente vê arte como coisa de segunda categoria, como uma coisa que não é necessária à vida. Faltam instituições, faltam leis de incentivo, faltam oportunidades. Vemos até, nos últimos anos, artistas sendo perseguidos. Depois de anos de intenso prejuízo, estamos tentando consertar tudo.

Como a nossa sociedade, unida – governo, entidades, cidadãos -, pode pensar em ampliar mais a cultura e as artes na cidade e no estado, aumentando o seu papel imprescindível de educação e transformação?

Um fator importante para que projetos culturais saiam do papel é a pressão social. A sociedade traz algumas pautas urgentes, que precisam ser ouvidas. Dessas pautas que são destacadas, surge o caminho para que novos projetos surjam. Elas mostram o que não pode ser ignorado. A questão racial, por exemplo. A desigualdade social vinda da questão racial, da escravidão. É uma questão muito grave, é a nossa grande questão histórica, e precisa ser trabalhada urgentemente a partir da cultura, além de outras frentes.

Uma questão como o racismo não muda da noite para o dia. É um processo demorado, está mudando, mas é demorado. E a cultura está aí para ajudar a transformar isso. Porque não tem condição efetiva de mudança desse país, e de sociedade nenhuma, sem o papel da cultura. A cultura estabelece os valores das pessoas e são por esses valores que você muda o país. A SP Escola de Teatro, portanto, tem o seu papel no combate às desigualdades e ao racismo.

Qual livro, filme, peça ou outro trabalho artístico você recomendaria para uma pessoa que quer conhecer mais sobre o Brasil atual, entender mais onde vivemos, e criar e agir a partir disso?

Não é fácil indicar apenas um trabalho, a produção brasileira é muito vasta. Mas eu falaria de “Grande Sertão: Veredas”. Primeiro, da peça de Bia Lessa. Depois, do trabalho original, o livro de Guimarães Rosa. Quem mergulhar no universo de Guimarães Rosa vai entender um pouco mais sobre a realidade brasileira. Ele dá uma grande contribuição para o entendimento do que é o país, revela toda a vastidão e complexidade do território interiorano.

E quero indicar uma música também: “Vai Passar”, de Chico Buarque. É uma de nossas músicas mais emblemáticas, é um hino à esperança.

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