Sonoplasta de Primeira Viagem

Publicado em: 03/11/2011

Certo dia, Andréa Fu, aprendiz de Sonoplastia da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, foi indicada por Charly Ho, seu colega do curso de Iluminação, para trabalhar com  o compositor de trilhas sonoras Gregory Slivar. A surpresa foi ainda maior ao saber que a indicação não era apenas para trabalhar em um espetáculo, mas em dois.

 

“Fiquei encantada e extasiada em saber que era para duas peças diferentes. A primeira, “Ivan e os Cachorros”, com direção de Fernando Villar, eu já tinha assistido no Festival de Teatro da Cultura Inglesa; a segunda era “O Rinoceronte”, encenada por Carlos Canhameiro e com trilha sonora de Slivar”, explica Andréa.

 

A aprendiz conta, ainda, que “Ivan e os Cachorros” teve duas apresentações nos últimos dias de agosto, em Brasília, dentro da programação do Festival Internacional de Teatro Contemporâneo. “Para mim, foi uma experiência única estar num festival com uma peça conhecida e bem conceituada já no meu segundo trabalho como sonoplasta. Este festival foi a certeza de que eu poderia fazer muito mais do que imaginava com som”, relata.

 

A estreia de Andréa, porém, ocorreu antes dessas apresentações. Foi em Julho, com a peça “O Rinoceronte”, da Cia de Teatro Acidental, que está em cartaz no Viagem Teatral do Sesi. “Já na minha primeira apresentação, me vi enfrentando um desafio: operar o som de uma peça que eu nunca pude assistir inteira e nem aos ensaios”, declara a aprendiz.

 

“O Rinoceronte” é uma livre adaptação da obra homônima de Eugène Ionesco, mestre do Teatro do Absurdo. Considerado o melhor texto do autor e uma das mais importantes obras da literatura do século XX, o enredo do espetáculo mostra a inexplicável transformação da humanidade em um pelotão de rinocerontes.

 

Concebido em 1959 como alegoria do fascismo, o livro ganhou uma leitura aberta, calcada na investigação da teatralidade latente no texto e não em um discurso político que lhe seja anterior, ação que o coletivo acredita ser mais pertinente em nosso tempo que descrevem como a “época não tanto de grandes inimigos, mas de pequenos absurdos cotidianos, que já tornaram habituais as inversões lógicas e os esvaziamentos da linguagem propostos por Ionesco”.

 

Constituída por atores formados pelo curso de Artes Cênicas da Unicamp, a Cia. de Teatro Acidental desenvolve uma ação artística que aposta no coletivo como poesia e modo de produção, explorando uma linguagem contemporânea, despojada e reflexiva, uma forma ao mesmo tempo crítica, poética e bem-humorada.

 

Assim, em “Os Rinocerontes”, o coletivo levanta questões como: Qual o lugar da individualidade dentro do coletivo? Qual o valor e o sentido do que entendemos como “humano”? E, afinal, o rinoceronte tem um ou dois cornos?

 

Andréa relata que, para ambas as apresentações, sentiu que lhe faltavam conhecimentos de operação do software e entendimento das peças, assim, o suporte dado por Slivar, criador da sonoplastia das duas montagens, foi essencial para toda a sua vivência em menos de um mês de ensaios e apresentações. “Não era só a primeira vez que eu operava uma mesa de som ou mexia no software. Era a primeira vez que eu realmente trabalhava com teatro em um grupo. Isto é impossível de esquecer e não usar como experiência”, observa.

 

O trabalho de Andréa com a Cia. de Teatro Acidental  está rodando por todo o estado de São Paulo até dezembro. Saiba as cidades e horários de apresentações aqui.

 

Texto: Renata Forato