Sinfonia Ambiental

Publicado em: 01/06/2011

Se tornar uma escola verde exige preocupação ambiental e responsabilidade social. Porém, qual o resultado dessas medidas quando somadas à criatividade e espírito de inovação? Uma sinfonia ambiental.

 

Quem ilustra bem essa ideia é Paulo Afonso, que ministra aulas de Instrumentos Temperados, um dos cursos de Difusão Cultural oferecidos pela SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco. O que mais chama a atenção é a maneira como ele faz isso, utilizando instrumentos construídos com objetos descartados.

 

Essa história começou na infância de Afonso, quando ele criava seus próprios instrumentos. “O que me motivou foi justamente a falta de recursos. Isso ocorreu em diversas situações da minha vida. Quando era pequeno, queria ser baterista. Desejo incompatível com a condição financeira e de moradia da minha família, então comecei a procurar um jeito. Usei as panelas da minha mãe, os baldes do meu pai e, depois de destruir esses utensílios, cheguei às latas de sorvete”, explica.

 

No início, essa foi a única solução encontrada pelo hoje instrumentista e compositor para realizar seu sonho musical. Contudo, com o passar do tempo, Afonso voltou a se deparar com situações em que teve que retomar essa prática. “Em lugares em que trabalhei, como arte-educador e professor de música, com situações precárias de recursos sonoros, recomecei a busca por meios de ampliar o instrumental das crianças para a realização de música.”

 

Já formado em música e com alguma experiência, a forma como Afonso enxergava a música sofreu uma alteração decisiva. “De repente, observando o potencial sonoro dos objetos que me rodeavam, de materiais que perdiam sua função e eram descartados, comecei a experimentar e pesquisar com pessoas que já trabalhavam na mesma linha”, afirma.

 

Além de reutilizar objetos que iriam para o lixo e fazer um favor ao meio ambiente, Afonso destaca ainda uma outra função importante de seu trabalho. “A ideia da construção de instrumentos não é banalizá-la, ou banalizar a tecnologia ou a especialização, mas aproximar as pessoas da prática de fazer, sentir e pensar e com isso expressar sua individualidade, sua visão pessoal, e enriquecer o mundo. E, obviamente, ampliar o olhar para com os recursos materiais que passam debaixo dos nossos narizes em direção a uma montanha enorme de descartes.”

 

O músico faz uma dura crítica ao consumo adotado pelas pessoas atualmente, o que faz com que nos limitemos ao que o mercado oferece. A praticidade, segundo ele, faz com que o ato de pensar seja deixado de lado. Para finalizar, desabafa: “Cada vez mais as pessoas ficam alheias ao funcionamento das máquinas, objetos e materiais que usam. Dá para imaginar, hipoteticamente, o dia em que muitas das pessoas não saberão para que serve um objeto sem que haja um rótulo explicando sua função”.

 

Fotos: Rodrigo Meneghello