Silnei Siqueira por Ieda de Abreu

Publicado em: 04/07/2013

*Apresentação do livro “Silnei Siqueira – a palavra em cena”, de Ieda de Abreu, para a Coleção Aplauso da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, lançado em 2009 (leia aqui a obra, na íntegra)

Silnei Siqueira já se achou “o James Dean do Brasil”. É o mesmo que surpreendeu o público europeu em 1965, com a montagem de “Morte e vida severina”, primeiro grande sucesso do moderno teatro brasileiro, vencedor do Festival de Teatro em Nancy, na França.

Para plateias acostumadas aos grandes espetáculos, e que não entendiam nada de português, Silnei mostrou que a América Latina trabalhava com a mesma técnica, o mesmo esforço e a mesma qualidade histriônica da Europa.

Cinco apresentações na França, 11 em Portugal, no Brasil o texto de João Cabral de Melo Neto foi encenado 227 vezes. A divulgação e popularização da poesia cabralina dentro e fora do país foi para Silnei o maior ganho.

Entre outras montagens marcantes figuram “O&A”, que estreou em plena ditadura militar; “Lembrar é resistir”, encenada no prédio do antigo Dops; “Mumu, a vaca metafísica”, peça que ganhou todos os prêmios de direção em 1976 e o Molière.

Na ocasião, Ilka Marinho Zanotto escreveu no jornal O Estado de S.Paulo que “Ao colocar realisticamente em cena personagens que repetem os mesmo atos, as mesmas frases, dominados por indiossincrasias e receios, sempre os mesmos – no caso, um casal pequeno burguês que raciocina por provérbios e sobrevive por ruminação –, Mumu enfatiza a ilogicidade das situações a tal ponto que a passagem para o teatro do absurdo torna-se imperativa. A Silney Siqueira cabe o mérito de ter revelado as potencialidades da peça, à maneira do fotógrafo de ‘Blow-up’ que, ao ampliar o filme tirado no parque, descobre mistérios não percebidos no momento real da fotografia. É esta direção, sem dúvida, seu trabalho mais maduro e fascinante”.

Com o texto inédito de José Eduardo Vendramini, “Sinfonia do Tempo”, Silnei completou sua centésima montagem, em 2004, detendo-se mais uma vez sobre as relações familiares que tanto o atraem: numa sala, centradas na mesa de refeições, três gerações se encontram.

Cinquenta e seis anos de teatro. Ator nos palcos, na tevê, uma atuação no cinema, advogado, procurador do Estado, definitivamente diretor de comédias, tragédias, dramas, óperas, musicais e infantis, espetáculos encenados por grupos profissionais e amadores. Silnei formou-se em interpretação na primeira turma da Escola de Arte Dramática (EAD-USP), e em Direito na Faculdade de Direito Mackenzie.

Aos 74 anos, continua magro, as mãos finas e nervosas. Tenta seguir as recomendações médicas de largar o cigarro que sempre o acompanhou, mas diz que fuma escondido da mulher, a atriz Hedy Siqueira (1935-2012), e das filhas gêmeas também atrizes Maria e Mariana.

Ao falar de si mesmo se cobra, se penitencia, é rigoroso, quase passional na sinceridade. Lamenta não ter encenado Brecht nem Beckett, Nelson Rodrigues ou Tenessee Williams, mas não esquece que montou autores como Thornton Wilder, Molière, Eurípedes, Gorki, Tchecov, Jean Genet, e se orgulha de ser um dos diretores que mais encenou e projetou autores brasileiros. Entre eles, Domingos de Oliveira (“Somos todos do jardim da infância”); Renata Palottini (“Pedro pedreiro”); Lauro César Muniz (“Esse ovo é um galo”); Roberto Freire (“Presépio na vitrina”); todas antes de João Cabral de Melo Neto.

Sempre soube da importância de Silnei Siqueira para o teatro brasileiro e estava ciente da necessidade de sua presença nesta coleção. Fui conhecê-lo pessoalmente uma noite no Teatro de Arena, ao lado de Chico de Assis, Ilo Krugli e Jaime Lerner. Bastou um telefonema para que me abrisse a porta de seu apartamento no Itaim.

Na sala povoada por quadros de Maria Bonomi, Renina Katz e marinas trazidas da Europa pelo bisavô, vários encontros aconteceram, em tardes regadas a café e bolo providenciados por Antonieta, que está com a família quase que ”desde sempre”. Vez ou outra a presença de Hedy, seu bem, companheira também nos palcos, lembrando fatos, nomes, ou da filha Maria, sua assistente, providencial nos nossos contatos por e-mails. Como ele (o pai!), cheguei a me confundir com a incrível semelhança das gêmeas. Nas várias conversas gravadas ou ouvidas no espaço de um ano, lembrança e saudade constantes do filho morto, Manuel, mais atenuada recentemente com a recuperação do mais novo, Gabriel.

Nesse mesmo apartamento, o aglutinador de pessoas que sempre foi recebeu muita gente de teatro. “Era difícil uma noite em que aqui não houvesse cinco pessoas de teatro para conversar, ler peças, ou partirmos daqui para ver alguma estreia, hoje bem menos, vêm mais os amigos dos meus filhos que fazem teatro. E durante anos tive a presença próxima de Paulo Autran e Karin Rodrigues.”

Em uma tarde chuvosa fui encontrar Silnei no Teatro Maria Della Costa ensaiando “Sua excelência, o candidato”, peça de Jandira Martini e Marcos Caruso, para a série “Senta que lá vem comédia”, da TV Cultura. Rimos juntos das peripécias e maracutaias políticas em cena, intensificando a sensação de familiaridade que ele transmite aos que dele se aproximam. Outra vez me levou até o apartamento da irmã, Silene, num prédio vizinho ao seu, ela tem um verdadeiro acervo de fotos da família e cedeu várias para a feitura desse livro. Como disse o pessoal do grupo Pastelão com quem Silnei encenou “O médico à força” (Molière), em 1999, “ele cria um vínculo com a gente”.

Na parte final desse trabalho, enquanto eu preparava a introdução e a ficha técnica, Silnei foi revendo e conferindo o texto. Tirou várias declarações que achou desnecessárias, bobas, acrescentou informações sobre o dramaturgo Abílio Pereira de Almeida, que merecidamente ganhou um capítulo, “O salvador de companhias”. Fez questão de refazer a versão sobre o Tuca, TBC, Teatro de Arena e Oficina, fundindo tudo em “E veio o Tuca”.

A sensação que ficou, de toda essa convivência, primeiro foi a de ter feito um amigo. Silnei marcou presença nos momentos difíceis e importantes do teatro brasileiro, não passou incólume pelo período turvo da nossa história contemporânea, teve sonhos e se desesperançou como muitos, mas mantém acesa dentro de si a chama que o liga ao seu tempo e o faz refletir sobre ele.

Sem a preocupação com sucesso ou fama estruturada, segue trabalhando, amando e fazendo teatro como a um ofício que aprendeu acima de tudo por prazer. Tudo o mais é o que se segue.