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Silêncio, morte e vida Monja Coen

Publicado em: 27/05/2010

No saguão do Teatro Aliança Francesa, na tarde de quarta-feira, 26 de maio, o público chega silencioso, como se já estivesse entrando no clima para assistir a conferência de Monja Coen, missionária oficial da tradição Soto Shu – Zen Budismo, com sede no Japão, dentro do projeto SP Escola de Teatro – Encontros Notáveis.

 

Rosa de Souza, que trabalha na área da saúde, foi ao evento para ver pela primeira vez “ao vivo e em cores” a palestrante. “Acompanho as palavras dela na televisão. Não sou budista, mas admiro a religião”, conta.

 

“Tenho curiosidade de conhecer os princípios do budismo”, afirma a advogada Fernanda Teixeira. E completa. “Fico impressionada com a quantidade de eventos de qualidade e gratuitos que a cidade oferece. Sempre quando acontecem eventos assim, eu aproveito”.

 

A coordenadora do Cineclube Grajaú, Zezé Lima, chegou no horário. “Estava no médico e vim correndo buscar palavras da alma de alguém como ela para poder alimentar a minha própria”, disse entusiasmada.

 

‘Mente Quieta e Coração Tranquilo’

“Hoje falaremos sobre a pausa. A importância do silêncio no teatro. Aquilo que não é dito, que fica subentendido”, alerta o mediador Jefferson Del Rios, jornalista e crítico de teatro, antes de ceder a palavra para Monja Coen.

 

E para começar, a missionária realiza uma meditação coletiva.

 

(Pausa)
Após a reflexão, ela surpreende narrando sua vida conturbada em busca de um Deus, que nunca encontrou, pois, como diz, Deus é um conceito. “Quando existe um conceito, não há encontro”. Narrou sua trajetória cheia de percalços e de luta em busca de uma reflexão maior.

 

“Fui jornalista do Jornal da Tarde aos 19 anos, pensando que sabia escrever. Aprendi depois, com treino, técnica e muito trabalho. Doía muito entrevistar pessoas de classes sociais diferentes, como uma mulher da periferia fazendo arroz com feijão em uma lata de leite e, no dia seguinte, entrevistar a rainha Elizabeth, da Inglaterra (…). Fui me revoltando com algumas convenções sociais. Quando bêbada, saindo de um bar com os colegas da redação, capotamos. Minha orelha estava pendura por um fio. Pedi ajuda para um pedestre, que se afastou. Foi nesse momento que eu pensei o quanto estamos sozinhos em determinados pontos da nossa vida e o quanto temos que agir por nós mesmo”, relembra Coen.

 

Sua trajetória ainda envolveu o uso de LSD e outras drogas legais e ilegais, a prisão na Suécia por comercializar ácido, a caminhada com o grupo Os Mutantes, a decepção com uma amiga do colégio que a dedurou por colar na prova, o nascimento da filha, o relacionamento com um iluminador de show de rock norte-americano, a morada em Hollywood e a caminhada anônima pelas ruas de Londres com chapéu-coco na cabeça e cigarro apagado na boca, se perguntando “quem sou eu?”.

 

“Durante minha caminhada, descobri o Zen Budismo. A principal frase da minha vida é ‘porque querer entrar pela janela, se você tem a porta?’. O Zen, para mim, foi justamente essa porta, pois é a prática de se jogar no vazio e dar um passo a mais na vida e na morte”, conta.

 

Antes de finalizar o evento, Monja Coen contou emocionada que, na última semana, realizou a cremação do corpo do ator paulistano Marcos Cesana, morto recentemente. Os amigos e parentes presentes começaram a cantar, emocionados. Ao final, uma salva de palmas finalizou o ritual. “Não seria bonito se no final da vida todos nós recebêssemos uma salva de palmas como essa? Todo mundo gritando ‘Bravo! Bravo’, afirmando o quanto a nossa vida valeu a pena?”.

 

Texto: Lucas Arantes
Fotos: Lucas Arantes e Renata Forato