Serenata ao luar

Publicado em: 04/11/2013

* por João Branco, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

Cabo Verde, apesar de ser um pequeno arquipélago de nove ilhas habitadas, plantado no imenso Atlântico, tem como uma das suas maiores riquezas a sua espantosa diversidade. Em cada uma das ilhas encontramos particularidades e características próprias que podem ir desde o crioulo, as manifestações culturais, as paisagens, a diferente energia de cada lugar.  Provavelmente, deve ser assim em todos os países, mas dada a pequenez deste fantástico país, quem tem oportunidade de conhecer várias ilhas não deixa de ficar espantando com o que encontra de diferente de uma para a outra. 

 

Desde as ilhas mais planas com belas e extensas praias de areia branca que, por motivos estratégicos e econômicos, foram transformadas em ilhas turísticas por excelência – como as ilhas do Sal, Maio ou da Boavista – passando pela ilha do Fogo com o seu monumental vulcão, a imensa ilha de Santiago, cheia de personalidade, onde está a capital de Cabo Verde, cidade da Praia, passando por Santo Antão, a ilha das montanhas ou S. Vicente, onde temos o Mindelo, a cidade sempre em festa que (praticamente) nunca dorme, tudo é diferente, variado, rico e intenso. Para completar o quadro das ilhas habitadas temos a simpática ilha de S. Nicolau e no extremo, ali, bem no cantinho, a mais pequena das ilhas, a Brava, também conhecida como ilha das flores. 

 

Foi aqui que passei alguns dias no mês de outubro, por ter sido o centro das comemorações oficiais do Dia Nacional da Cultura e das Comunidades, instituído para o dia 18 de Outubro, data de nascimento do poeta Eugénio Tavares, nascido na vila de Nova Sintra, a única (e pequena) cidade da ilha.  Eugénio Tavares foi figura cimeira da vida cultural, política e social de Cabo Verde entre 1890 e 1930. Durante três décadas, teve enorme influência em praticamente todas as áreas da cultura do seu povo, tendo sido um dos seus maiores intérpretes até hoje. A sua extensa obra vai da poesia à música, da retórica à ficção, passando pelos ensaios e também pelo teatro. Foi dos primeiros em Cabo Verde a compor poesia e letras de mornas em crioulo, a língua nacional de todos os cabo-verdianos. 

 

E chegamos ao ponto que interessa na presente crônica, a morna. Perante tanta diversidade, há dois aspectos que unem todo o nosso povo mais do que quaisquer outros: o crioulo (ou língua cabo-verdiana) e a morna, a canção de Cabo Verde por excelência, que se transformou num gênero musical popularizado à escala global graças à carreira e projeção de Cesária Évora. Há quem compare, por exemplo, a morna ao tango argentino, ao samba brasileiro ou ao fado português, mas a sua representatividade e abrangência vai mais longe, porque atinge o coração e a alma de todos e cada um dos cabo-verdianos de forma inapelável. Tradicionalmente tocada com instrumentos acústicos, a morna reflete a realidade insular do nosso povo, o romantismo dos seus trovadores e o amor à terra. É tocada e cantada em todos os cantos e recantos de Cabo Verde, em todas as ilhas, em todos os países onde viva um cabo-verdiano. 

 

E foi assim, que no passado dia 18 de outubro, na distante, simpática e florida ilha da Brava, numa noite iluminada por uma lua cheia plena e desavergonhada, pelas ruas de Nova Sintra, um grupo razoável de amantes da morna corporizaram uma emocionante serenata, com as mornas de Eugénio Tavares, cantadas de forma harmônica e afinada, com destaque para as muitas mulheres do povo ali presentes. Foram horas inesquecíveis. Belas. Tocantes. Algumas mornas belíssimas que eu nunca tinha ouvido e que, segundo me informaram, nunca foram gravadas (para meu espanto!). A alma de Cabo Verde se revela quando a morna é cantada. E não só! Janaina, minha esposa, que vive cá há alguns anos e é brasileira, assistia a tudo, e chorava ao ouvir o coro cantando em êxtase a morna “Força di Cretcheu”. Perguntei-lhe por que chorava ela e disse-me: “não sei explicar o que é. Mas ouvir esta música faz-me sentir saudades de casa”.

 

O Ministro da Cultura, Mário Lúcio Sousa, que por força do seu papel de governante tem que estar nas cerimônias públicas quase sempre com um aspeto grave, compenetrado, racional e cortês, sendo também um grande músico e compositor, não resiste. Avisado da serenata, levanta-se e desafia-nos a todos. “Vamos lá, temos que ir ter com eles!” Junta-se ao grupo, um homem do povo de imediato lhe coloca uma viola nos braços e o rosto sério do político se transforma de imediato numa felicidade radiante e quase de menino, a face do artista que naqueles momentos se entrega à sua grande paixão, rodeado pelos seus, tendo a lua como maior testemunha. A noite terminaria com uma canja de galinha oferecida pelo prefeito local, tendo para isso sido escancaradas as portas da Câmara Municipal para quem lá quisesse entrar. Durante aqueles momentos não houve poderosos, remediados, pobres, ricos, esquerda nem direita. A morna como que lembrou a todos que o que nos unia é muito mais forte e importante do que o que nos possa separar.   

 

No Dia Nacional da Cultura de Cabo Verde a morna se revelou, mais uma vez, o eixo que nos liga a todos, de ponta a ponta, de Sul a Norte, de Este a Oeste, que une todas as diásporas de todos os universos crioulos. Lembrei-me de um dia ter ouvido o Tito Paris a interpretar com aquela sua voz rouca a morna “Mar Azul”, e de ter chorado. Em silêncio, como deve a morna ser chorada. Chorei, sem razão aparente, porque a morna é assim, toca-nos até aos ossos e leva-nos para um outro patamar do que é ser-se humano. Foi uma lágrima crioula num rosto de homem branco, escrevi nesse dia.

 

 

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