Seminário Arte sem Limites – MAM 2013

Publicado em: 08/08/2013

 

Por Marcos Abranches*, durante palestra no MAM-SP, em 8 de agosto de 2013

 

“ É que muita gente, quando vê um quadro não o relaciona com a natureza, com aquilo que existe, e sim com aquilo que já viu noutros quadros. O pé descalço do enxadeiro não pode ser comparado com os pés feitos pelos pintores europeus, porque na Europa os camponeses andam calçados.”

                                                                                                                        Cândido Portinari

Quando vou a um restaurante e, despreparado, esqueci minha colher apropriada, tenho que improvisar uma, fazendo com que a inclinação entre a concha e a haste seja maior para que eu possa pegar a comida. Situações hilárias aconteceram e acontecem comigo. Já tomei bronca de garçons e donos de restaurantes, já tive que pagar pela colher quebrada, já tive ajuda de pessoas que, em solidariedade, ajudaram a entortar, a ponto de aplicarem força demasiada e quebrarem a colher. Já saí com três colheres quebradas no bolso, sem o garçom entender por que eu pedia tanta colher e eu não podia explicar a ele que a liga de aço da colher era muito fraca. Enfim, se me convidarem para comer em suas casas, cuidado, sou o maior “entortador” de colheres do planeta. Espero que os garçons do almoço, que vai acontecer daqui a pouco, não estejam me escutando.

Mas, momentos da minha vida me chamaram a atenção e me levaram à reflexão.

Estive por cinco vezes me apresentando na Alemanha como dançarino. Três vezes em Berlim. É certo que ia a restaurantes. Por questões de prática e tempo, costumava, sempre que possível, repetir o mesmo restaurante, próximo ao Deutsche Open Berlin, onde me apresentava. E vejam. Sem nunca solicitar nada, e nem a mando de ninguém, e nem mesmo saberem o que eu fazia naquele país, quando me sentava à mesa de um restaurante, olhava para os talheres e lá estava a minha colher entortada, sobre um guardanapo de pano, reluzente, exatamente igualzinha a que havia deixado no primeiro dia que lá estive. Ah!, o garfo também estava entortado (pois não sabiam se gostaria de usá-lo ou não), o canudinho no copo e a comida servida já cortada, dada minha dificuldade nos movimentos de pinça. Tudo isso agraciado com um:  Gute nacht tänzer (boa noite, bailarino, em alemão).

Foram além, já sabiam que eu era um dançarino e, pasmem, não se espantaram em nada com isso. No Brasil, ao ser abordado, quase fui preso por um policial achar que estava ironizando quando falei qual era a minha profissão: – Tá me tirando, cara? Conta outra.

Reflexões.

Olhar para a deficiência e olhar para a arte, ou juntas, a arte pelo deficiente, não está no simples olhar de ver. Está na grandeza, sem limites, do respeito e da alma das pessoas.

Em filosofia, discute-se a questão do sistema autopoiético (compreender os sistemas vivos e por decorrência os sistemas de sentido). São os sistemas de sentido que abrangem os sistemas psíquicos, os sistemas comunicativos, enquanto sistemas sociais e suas realidades, cujo centro de interesse é a capacidade interpretativa do ser vivo, que concebe o homem não como um agente que “descobre” o mundo, mas que o constitui.

Entre frustrações e conquistas, nesse sentido, venho, há mais de 10 anos, desde meu primeiro trabalho em “Senhor dos Anjos”, baseado na vida e obra do escritor Augusto dos Anjos, até o meu mais recente trabalho, “Corpo sobre tela”, adaptado das obras do pintor modernista Francis Bacon e no expressionismo alemão, procurando fazer da minha dança um chamamento para a reflexão sobre o modo de agir, pensar e opinar das pessoas. Honestidade e integridade não são somente padrões que os outros enxergam em nós. Danço para que as pessoas possam interiorizar os seus verdadeiros valores de equivalência.

Se estiverem vazias, por Deus, que a Arte e a Cultura as alimentem.

Algumas pessoas podem pensar: Se somos o sopro de Deus, quem nasce com deformações físicas ou mentais são frutos de um sopro defeituoso?

A resposta para este tipo de desigualdade é que não há sofrimento ao redor de nossos passos. O mal supostamente forjado não está naqueles que o carregam, mas naqueles que padecem da aflição de sua própria ansiedade, respeitável, mas inútil, projetando e mentalizando ocorrências menos felizes para a vida dos portadores de deficiência, que, em muitos casos, não são vistos como se supõe e, por vezes, nem chegarão a vê-los assim.

Em meus trabalhos, “Forma de ver”  e “Corpo sobre tela”, uma das nossas propostas (aqui incluo meu grande amigo Rogério Ortiz e toda minha equipe da Cia. Vidança), é imaginar a imagem refletida na alma das pessoas através dos movimentos coréicos voluntários involuntários, implicam o figurativo ilustrativo do objeto. Na narrativa, a crônica informal das formas sensitivas de nos ver e de ver os fatos, denunciando os padrões anestesiados das sensações, vitimados pela pobreza da alma imperfeita que limitam a subjetividade do ver.

Mas esta é a minha missão. Quando Deus colocou a dança em minha vida, não me perguntou se eu a queria ou não. Simplesmente a colocou. Deus não pergunta. Mas de uma coisa estou certo, ele me fez dançarino, para que, entre tantos outros, rogue ao mundo que reflita sobre a ausência do igual.

Tenham a certeza, para os deficientes, as mostras de arte e cultura são inesgotáveis. Sem limites ou fronteiras. Não se surpreendam do que somos capazes.

Todos sabem o quanto se produz arte e cultura nos meios deficientes, o que precisamos é extravasar nossa demanda. Para tanto, precisamos que o universo sistematizado que nos rodeia as compreendam e criem mecanismos políticos de condução.

Se desejarem ter provas da falta de compreensão do sistema político para com nossas causas, entrem com um projeto de arte de deficientes buscando benefícios em uma Lei Rouanet, Incentivos e Seguridade Social e presenciem a vontade política da inclusão.

Apesar das mudanças em curso, o poder público ainda observa a deficiência como uma característica do indivíduo que possui um corpo com uma disfunção ou imperfeição. Sendo assim, o corpo torna-se o instrumento da inclusão social, agora não pela sua beleza ou pela sua habilidade extraordinária, mas em função do seu defeito e da sua inabilidade.

Mas não podemos genelarizar.

Iniciativas como a desse Seminário dão provas de que existem instituições, governamentais e privadas, com alta compreensão do nosso trabalho, e assim encerro com meus agradecimentos aos realizadores desse evento.

Agradeço à Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo,  ao MAM,  à SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, ao British Council, ao Sesc, à Associação Paulista dos Amigos da Arte, aos colegas palestrantes e a todas as pessoas que colaboraram para a realização desse importante Seminário, na certeza de que demos mais um passo para o engrandecimento e condução da arte e cultura de todos nós, artistas deficientes.

Parabéns por esse trabalho.

Meu muito obrigado.

*Marcos Abranches é portador de deficiência física, dançarino e coreógrafo