Sem cair no clichê, “Pérolas” surpreende com crônica dilacerante sobre travestis no mundo da prostituição 

Publicado em: 07/12/2020

Por Isaque Sousa, especial para a SP Escola de Teatro

 

Simples sem ser simplista, trama retrata de forma contundente a vida de duas travestis e suas reflexões acerca do mundo

 

“A gente é travesti. A gente nunca vai ter oportunidade nesse país de merda”. Esta frase, dita por uma das personagens do espetáculo “Pérolas”, sintetiza o tom melancólico presente na trama. Na história, acompanhamos duas componentes, as travestis e prostitutas Nicole e Baby, que moram juntas em São Paulo.

 

Logo de início é apresentado que ambas estão frustradas com a vida que levam. Não tarda muito e fica evidente de que a peça é muito mais do que sobre prostituição, e sim sobre sonhos – ou a falta deles. A esperança de ascensão social e financeira é inexistente para ambas por conta do preconceito e da marginalização sofridas por suas identidades de gênero. Entretanto, a história dá uma guinada para outro rumo quando na metade do espetáculo, uma situação muda para sempre o destino das duas. Imprevisível, o texto mostra sua maestria ao subverter as expectativas do público.

 

Interpretadas pelos atores Maycon Turell e Hebert Freitas, Nicole e Baby são personagens complexas. Desbocadas e cômicas – e ainda assim tristes – ambas sempre têm muito a dizer. Temas como sexo, relacionamento amoroso, dinheiro, família e, principalmente, desconfiança, são abordados nas entrelinhas de diálogos desalentados.

 

Na parte técnica, também não há decepções. Com transmissão via YouTube, a peça não é ao vivo. A edição da obra gravada foi realizada com esmero, principalmente nas cenas externas. Ambientada quase que inteiramente dentro de um quarto, quando a peça vai para as ruas de São Paulo, temos um mundo soturno exibido.O público é agraciado com um outro olhar a partir do acertado uso da câmera subjetiva nesses momentos. Na trilha sonora, canções das duplas Everybody Loves an Outlaw e REYKO tornam-se parte fundamental da dramaturgia de Pérolas.

 

Chegamos ao fim da peça – que dura cerca de 25 minutos – de modo extasiado. E quando pensamos ser o final, somos surpreendidos novamente com um discurso declamado enquanto vemos imagens reais de violência contra a comunidade trans, assim como manchetes de jornais, evidenciando o quanto a letra T da sigla LGBTQIA+ sofre uma grave marginalização perante as demais.

 

Difícil, importante, grave e socialmente impecável, Pérolas é uma triste e incrível crônica sobre viver em um mundo que vai lhe atirar pedras sempre que possível.

 

* Isaque Sousa é participante da oficina olhares: poéticas críticas digitais, oferecida pela SP Escola de Teatro e ministrada pelo crítico Amilton de Azevedo, que supervisiona a produção e edita o material resultante.




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