Santa Simone Weil

Publicado em: 31/07/2013

Filósofa ainda pouco estudada no meio acadêmico, à exceção da Itália e do Japão, a francesa Simone Weil (1909-1943) dá o norte para a mostra “Metaxu em oito”, que segue até esta sexta-feira (2), na Sede Roosevelt da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco.

Idealizado pela atriz Helena Magon, pela figurinista ítalo-lusitana Silvana Ivaldi e pela atriz, roteirista e produtora Thais Simi, o evento reuniu oito diretores para criarem curtas-metragens inspirados no pensamento de Simone Weil. Foram eles: Alex Sernambi, a dupla Alvise Camozzi e William Zarella Jr., Kapel Furman, Luciano Maciel, Matheus Parizi, Marcio Mehiel, Maurício Paroni de Castro e Thiago Parizi. A direção de arte e sound design da instalação são de Patricio Salgado. E os textos de introdução poético-concretistas, projetados nas paredes da sala onde está a mostra, ao início de cada sessão, “O DNA de Simone Weil” e “Sou Simone Weil”, são da poeta Débora Aligieri.

Mas, afinal de contas, fazia-se necessária uma explanação sobre a persona Simone Weil, para que o público pudesse conhecer mais da biografia da filósofa. Assim, na noite de ontem (30), a professora e teóloga Maria Clara Bingemer, autora de livros como “Simone Weil – a força e a fraqueza do amor” e “Simone Weil e a filosofia”, este último, escrito a quatro mãos com Fernando Rey Puente, veio até a Escola falar sobre a francesa.

Nascida em uma família judia nada religiosa, Simone Weil era encantada pelo rito religioso, sem se prender a nenhuma doutrina. Além disso, desde jovem, demonstrava uma compaixão e solidariedade pelo próximo difíceis de serem encontradas em outras pessoas. Para se ter uma ideia, a filósofa foi contemporânea da ultrafeminista Simone de Beauvoir, na universidade de Sorbonne, em Paris. A convivência levou Beauvoir a questionar a colega: “Você não acha que deveria lutar por causas mais próximas a você, como a liberdade da mulher, por exemplo?”. Weil respondeu, olhando Beauvoir de alto a baixo: “Bem se vê que você nunca passou fome”.

O engajamento de Simone Weil às causas humanitárias era tamanho, que durante a invasão da França, na Segunda Guerra Mundial, ela vivia em Londres, sob as mesmas condições dos franceses da época: sem calefação e comendo apenas a quantidade a que as pessoas tinham direito, devido ao racionamento. “O resultado é que, um dia, ela foi encontrada desmaiada em seu quarto. Levada ao hospital, recebeu o diagnóstico de pneumonia e desnutrição. Transferida para outro hospital, morreu meses depois, prematuramente, aos 36 anos”, contou Maria Clara Bingemer.

Outros fatos curiosos, citados pela palestrante, indicam a personalidade forte e repleta de compaixão de Simone Weil:

– Depois de se formar em Filosofia, na Sorbonne, ela foi dar aulas, mas acabou desistindo e resolveu realizar o sonho de trabalhar em uma fábrica automotiva, para sentir, na pele, as reais condições dos operários daquele tempo. Após um ano, durante o qual viveu apenas com o que ganhava, sem a ajuda dos pais, ela escreveu: “Se eu não deixasse a fábrica, nunca mais seria capaz de coordenar um pensamento. O cansaço é tamanho, que não deixa espaço para a reflexão. Os trabalhadores são tratados como coisas e as coisas (o que é produzido pela indústria) são mais importantes do que os seres humanos”;

– Durante a Segunda Guerra Mundial, ela desenvolveu um projeto chamado Enfermeiras da 1ª Linha, que recrutaria enfermeiras, dispostas a pularem de pára-quedas no front e tratar os doentes e feridos de ambos os lados. O programa, obviamente, foi vetado pelos generais;

– Militante do comunismo, ela se decepcionou com a Rússia bolchevique ao visitar o país. “A política é uma palhaçada, pois não tem raiz na realidade”, escreveu;

– Durante seu trabalho na linha de montagem da Renault, de onde foi demitida duas vezes pela inabilidade com o pesado trabalho braçal, ela relatou ter experimentado momentos fantásticos de solidariedade, ao ser auxiliada por um colega, por exemplo, quando não conseguia carregar peças mais pesadas. “São ações solidárias fortes, luminosas, que nunca havia experimentado antes”, disse;

“Devota de S. Francisco de Assis, ela teve um encontro místico com o cristianismo durante uma visita à basílica de Santa Maria degli Angeli, em Assis, na Itália, onde viveu o santo. Segundo ela, um sentimento arrebatador a tomou e ela caiu de joelhos ali mesmo”, descreve Maria Clara Bingemer, que continua: “Para mim, Simone Weil foi aquilo que a religião católica descreve como ‘santa’. Já que ela teve uma vida voltada ao compadecimento e ajuda aos outros. O que é um ícone de santidade, sem esquecer que ela fez tudo isso prezando a liberdade de pensamento e religião”, encerrou Maria Clara.

A mostra “Metaxu em oito” segue até esta sexta-feira (2). A entrada é gratuita e aberta ao público.

Serviço
Instalação audiovisual: “Metaxu em oito”
Quando: De segunda a sexta, das 18h às 21h. Até 2 de agosto
Onde: SP Escola de Teatro – Sede Roosevelt – 8º andar
Praça Roosevelt, 210 – Consolação
Tel. (11) 3775-8600
Entrada gratuita
 

Texto: Esther Chaya Levenstein