Ruth de Souza por
Maria Angela de Jesus

Publicado em: 13/09/2012

Ruth de Souza nasceu no Rio de Janeiro, em 12 de maio de 1921. E sempre foi uma pioneira. Numa época em que não havia atores negros, ela fez parte do primeiro grupo teatral importante do Brasil, o Teatro Experimental do Negro.

Depois, na Atlântida, e principalmente na Vera Cruz, tornou-se a primeira estrela negra do cinema brasileiro, autora de uma lendária façanha no Festival de Veneza, quando foi apresentado o filme Sinhá Moça.

Sua classe, elegância, sua luta contra o racismo, a paixão pelo cinema e os trabalhos inesquecíveis na televisão, seus sonhos, seu árduo trabalho por melhores papéis para as minorias foram retratados num livro-depoimento da jornalista Maria Angela de Jesus, que faz parte da Coleção Aplauso da Imprensa Oficial do Estado (para ler a obra, na íntegra, clique aqui).

A seguir, um trecho da obra:

“Ruth de Souza costuma dizer que em sua carreira aconteceram vários milagres. De origem simples, ela quebrou preceitos e preconceitos para seguir a carreira artística. Contrariando aqueles que diziam que não havia futuro para uma menina negra que sonhava ser artista, soube conduzir sua carreira para o sucesso, com a firmeza e a obstinação que são sua marca registrada. ‘Muitos riram de mim, se divertiram às minhas custas, dizendo que não havia artistas negros’, conta, emocionada, a atriz, cujo talento é comprovado por seus mais de 50 anos de carreira e uma coleção de prêmios, que ela expõe com orgulho em uma ampla estante de madeira, junto com seus filmes e livros prediletos.

Quando fala de milagres, Ruth se recorda dos amigos e das oportunidades que teve em sua sólida trajetória pessoal e profissional. Foram pessoas que a ajudaram a seguir adiante, apesar de todos os problemas de percurso. Amigos como o escritor Jorge Amado, que sempre a admirou e a indicou para o primeiro filme que fez  – ‘Terra Violenta’, baseado no livro ‘Terras do Sem Fim’. O diretor Alberto Cavalcanti, que ela carinhosamente chama de seu padrinho cinematográfico e que a escolheu para ser uma das primeiras contratadas dos estúdios da Vera Cruz. Outra presença marcante é a de Paschoal Carlos Magno, que deu grande incentivo à sua carreira teatral e a recomendou para uma bolsa de estudos nos Estados Unidos, na Rockfeller Foundation.

Ela relembra, emocionada e orgulhosa, o período de um ano que passou nos Estados Unidos, nos anos 50. Lá, estudou teatro e realizou um sonho de infância. ‘Quando menina, li uma matéria sobre a Harvard University, em Washington, na revista Life. Tinha uma foto belíssima, que mostrava estudantes negros, muito elegantes, na frente da universidade. Durante anos alimentei o sonho de um dia poder frequentar um lugar como aquele. Anos mais tarde, quando fui estudar nos Estados Unidos, me senti entrando naquela foto da Life, naquele recorte de revista que vinha guardando fazia anos’.

Mas nenhuma dessas conquistas foi ‘milagre’, como ela diz. Toda a ajuda que recebeu foi apenas uma recompensa à sua garra e talento, demonstrado já em suas primeiras incursões pelo teatro, quando esteve à frente do inovador Teatro Experimental do Negro (TEN). Numa época em que o negro ainda lutava por seus direitos mais básicos e primários, a criação do TEN, em 1945, era um passo muito à frente de seu tempo. Junto com Abdias do Nascimento, Ruth deu início a esse projeto, que é um marco em sua bem sucedida carreira. Essas e outras ousadias foram, pouco a pouco, moldando a jovem Ruth para o estrelato, que ela, modestamente, diz ter conquistado com muito planejamento e determinação. ‘Eu não tinha dinheiro, não tinha nada, somente a certeza de que ia ser artista’. É impossível também não se deixar seduzir por sua voz tranquila, mas firme, de boa contadora de histórias.”