Ruído é Música!

Publicado em: 31/10/2011

Fisicalidade e não-controle foram as pautas da palestra do Zbigniew Karkowski, compositor polonês radicado em Tóquio, para os aprendizes de Sonoplastia da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, no último sábado (29).

 

Com o formador do curso, Wilson Sukorski,  traduzindo a conversa, o compositor, que se utiliza de softwares, entre outros meios, para compor suas músicas, começou revelando que, em sua opinião, o controle é ruim, tanto na arte como em todos os aspectos da vida e, por isso, procura sempre estar fora do eixo para produzir seu som.

 

Em meio a fortes músicas ruidosas, Karkowski tirava os aprendizes da cadeira com o volume excessivo de som que utilizava para rodar sua música, a chamada Noise Music. Para o compositor, o som é a arte mais física que pode existir. “O livro só pode matar alguém pelo seu conteúdo ou se arremessado com força na cabeça de alguém. Já a música, pode matar qualquer um. Certas frequências, por exemplo, são tão poderosas quanto um soco forte na barriga”, revela.

 

Karkowski explica, ainda, que sempre foi fascinado por esse poder da música. “Sou mesmo muito encantado com o impacto que a música causa no corpo, aspecto que muitos músicos não levam em consideração. Quando você produz um som muito forte ele te pega pelo estômago. É uma relação física.”

 

Nascido na Polônia, Karkowski conta que estudou na Europa, mas, devido à sua queda por Noise Music, aterrissou no Japão, país onde a música física é muito presente, e de lá nunca mais saiu, a não ser para viajar por mais de 30 países, nos quais apresentou seu trabalho, passando por quase todos os continentes. 

 

Karkowski é convencido de que uma responsabilidade do artista atual é viajar, mover-se e trabalhar em todo o mundo, a fim de aprender e compreender as diferentes culturas e tradições, descobrindo a “verdade” sobre a sociedade. 

 

Hoje, Karkowski é conhecido como um dos maiores compositores contemporâneos e tem um interesse particular na música como algo gregário, ou seja, que tem como função unir as pessoas.

 

Durante a palestra para os aprendizes da SP Escola de Teatro, Karkowski contou que trabalha com geradores e todas suas músicas são feitas a base do improviso. “99% dos músicos contemporâneos trabalham com algo que tem mais a ver com teoria, com escrita, com estudos anteriores e pensamentos teóricos profundos. Para mim, a postura é importante para o som e é na fisicalidade que consigo encontrar um sentido emocional para aquilo que faço e para aquele que escuta. Por isso, descarto esse modo tradicional de fazer música”, observa.

 

“Muito mais me interessa a arte que chuta, que mexe, aquele que você vivencia, sem muita teoria. Já trabalhei com músicos que, por incrível que pareça, nem conversei. Fizemos um som lá, na hora, e pronto”, comenta Karkowski.

 

Por essa razão o compositor acredita que a Noise Music é uma música pura, pois ela é o som que acontece num momento determinado e com base em sistemas que provocam e o corpo responde. “Quero este troço sujo, não limpo”, declara Karkowski.

 

Para escutar um pouco do trabalho deste compositor, acesse aqui e aumente o volume no máximo possível. Mas, antes, dispa-se de qualquer preconceito e vá sem medo. Karkowski explica que para ouvir a Noise Music a pessoa não pode ter receio nenhum e deve receber a música de coração aberto, assim, ela não te machuca e, “você pode até passar por uma espécie de purificação”, comenta enfaticamente.

 

“E o silêncio?” pergunta Raul Teixeira, coordenador do curso de Sonoplastia para o palestrante. “O silêncio não existe. Isso é um conceito. Além do mais, ser músico é minha profissão. Estou aqui para encher o ‘silêncio’ de som”, finaliza.

 

 

Texto: Renata Forato