Roberto Alvim por Dione Carlos

Publicado em: 29/03/2012

Dia Mundial do Teatro. Dia de homenagear quem faz teatro.  Dia a dia de quem escolheu, foi escolhido para fazer parte dele. Tenho como missão dissertar sobre um dos maiores artistas em atividade no País: Roberto Alvim. Diretor, dramaturgo, professor, coordenador do Núcleo de Dramaturgia do Sesi – Paraná e fundador da Cia. Club Noir, ao lado de Juliana 

 

Conheci o professor em 2010. Aulas de dramaturgia contemporânea. Quatro décadas em três meses. Dramaturgos evocados e invocados pelas palavras/corpo de Alvim.  A cada dia um autor diferente. Textos e trajetórias. Aprendi a respeitar as obras daqueles que nos antecederam no teatro. Retornou em 2011. Manipulações do tempo/espaço em práticas da performatividade. A fé nas palavras, no poder de construção e destruição delas.

 

Se Sarah Kane havia se sentado diante de nós enquanto dedicava sua obra aos novos dramaturgos, agora éramos nós diante dela, escrevendo nossas peças sob as provocações de Artaud, Van Gogh, Lacan, Wittgenstein, Deleuze, Alvim. 

 

O espetáculo “Casa”, do projeto Tríptico – junto às peças “Burguer King” e “Fim da Realidade” – de Richard Maxwell, encenada no Club Noir, me apresentou o diretor. A luminosidade reduzida, atuações perfeitas, texto desestabilizador. Não havia mais chão (o chão reconhecível). A família estava lá, mas não era mais uma família. Nem mesmo a casa era uma casa. A casa era o que restou de uma grande ilusão cultivada ao longo de muitos e muitos anos: o homem como um ser constituído, reconhecível, mapeado. O humano como resultado de uma grande invenção. Uma invenção que virou coisa.

 

O professor e o diretor me instigaram a conhecer o dramaturgo. Vi “Pinókio”. O breu. Pupilas dilatadas, sentidos aguçados como um animal. As palavras manipulavam o tempo e construíam o espaço. A peça acontecia principalmente no espaço mental. Não era mais uma observação ou uma emoção pelo cognoscível. Como explicar uma identificação pelo desconhecido? Ele liberta ou amedronta. Cresce em direções distintas no interior de alguém. Abre portais para que algo além daquilo que lhe foi ensinado ser, enfim habite. 

 

As Dramáticas do Transumano, poética desenvolvida por ele por meio da própria experiência como artista e professor, além de seus estudos em outras áreas, é um salto para outros mundos, outra visão de humano que não pretende solucionar, decidir, denunciar, julgar ou doutrinar. Promove autonomia em quem as escreve, lê, faz e assiste.  

 

Pediram-me um depoimento. Como depor para a História. Uma testemunha ocular. Um bom momento para se estar vivo: fazer teatro sem precisar se esconder. Há espaço para a audácia. Alvim e sua companhia são provas disso.

 

“A vida é a imitação de algo essencial, com o qual a arte nos põe em contato” (Antonin Artaud).  Roberto Alvim me pôs em contato com esta parte essencial. 

 

 

Dione Carlos é dramaturga e ex-aprendiz do curso de Dramaturgia da SP Escola de Teatro

 

Veja o verbete de Roberto Alvim na Teatropédia.

 

Para ver os outros depoimentos que compõem a semana em homenagem ao Dia Mundial do Teatro, clique aqui.