Regina Braga por Drauzio Varella

Publicado em: 30/03/2012

Regina e eu nos conhecemos há trinta anos. Foi num curso de teatro no Museu de Arte Moderna, em que os professores eram ela, Fernando Peixoto e Celso Nunes.

 

Por absoluta falta de talento, minha carreira teatral naufragou naqueles dias, antes mesmo de haver começado. Em compensação, pude realizar a fantasia do estudante que se apaixona pela professora: convidei-a para jantar e nunca mais nos separamos.

 

Era diferente de todas as mulheres que eu havia conhecido: linda, culta, rápida nas respostas, aguda nas observações, bem-humorada e sabia de cor poesias inteiras e textos de peças sobre as quais eu não tinha ouvido falar. Além de tudo, fazia parte de um grupo que seguia os ensinamentos de Rajneesh – espécie de guru indiano que encantava os jovens no início dos anos 80. Só vestia roupas de tons vermelhos e alaranjados e usava um colar de contas de madeira com a foto de Rajneesh sorridente.

 

Como muitos atores de sua geração, havia sido aluna da Escola de Arte Dramática, a EAD, criada e dirigida pelo Doutor Alfredo Mesquita. Depois, passou três anos estudando teatro em Paris.

 

Quando voltou, ganhou o prêmio de atriz revelação, pelas atuações em “A Cantora Careca”, “A Longa Noite de Cristal” e “O Interrogatório”.

 

A primeira vez que a vi em cena, depois de nos conhecermos, foi no papel de Chiquinha Gonzaga, de Maria Adelaide Amaral. Fiquei tão fascinado pela sua naturalidade no papel da compositora, o tempo todo em movimento pelo palco, pela música, pelas reações do público, que lotava o teatro do Sesi, e pelos cenários do Flávio Império, que assisti ao espetáculo doze vezes. Quando me dei conta, sabia de cor várias falas.

 

Naquele ano, ela recebeu o primeiro Prêmio Molière, como melhor atriz.

 

Desde então, acompanho de perto sua carreira. Não vou falar da qualidade de seus trabalhos no teatro e na televisão, nem dos prêmios recebidos, para não correr o risco de parecer exagerado; prefiro ater-me à convivência diária com uma atriz completamente envolvida com a profissão.

 

Atores e atrizes são como certos religiosos do passado, para quem a vida perdia o sentido se não estivessem a serviço da missão à qual haviam entregado o corpo e a alma. Não é que não sobrevivam longe do palco, mas sem ele a vida lhes é insípida, sem mistérios, razão pela qual fazem qualquer sacrifício para estar em cena. Tire deles a possibilidade de atuar e o mundo lhes parecerá raso, restrito às atividades repetitivas incapazes de lhes fazer o coração bater em descompasso.

 

Em Regina admiro, sobretudo, a seriedade com que se dedica ao trabalho. Se o espetáculo começar às 21h, às 15h já estará trancada no quarto para os exercícios de voz e de relaxamento. Nesse horário, nem tento falar com ela, quer dizer, posso até tentar, mas quem escutaria? Às 18h, já está de saída, porque se chegar ao teatro cinco minutos depois das sete, corre perigo de morrer de agonia no trânsito.

 

Regina é artista não por ser atriz, a ordem é ao contrário. Interpretar personagens foi a forma que encontrou para exprimir uma cosmovisão pessoal, dominada pela harmonia que faz a beleza do mundo. Diante dos mesmos quadros, leituras, paisagens ou ouvindo as mesmas músicas, ela percebe nuances estéticas que o comum dos mortais jamais notaria. Arte não é, para ela, uma abstração intelectual que adquire contornos apenas em momentos de devaneio; está incorporada à existência diária. Ela se manifesta no texto lido na cama, no filme que acabamos de assistir, no olhar para as flores, no carinho com a horta recém-semeada, nas cores da toalha que será estendida sobre a mesa preta para o almoço com a família.

 

 

Drauzio Varella é médico, cientista e escritor.

 

 

Veja o verbete de Regina Braga na Teatropédia.

 

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