Raul Barretto por Rodolfo García Vázquez

Publicado em: 30/03/2012

Você chega no Parlapatões e lá está aquele cara alto, de olhos brilhantes e atentos, destacado no meio da muvuca. Um farol de olhos azuis na Praça Roosevelt. Esse era o Raul para mim, até conhecê-lo melhor. 

 

Nos anos em que sonhamos a formação da SP Escola de Teatro e, depois, quando esse sonho se transformou na maior escola de teatro do Brasil, o Raul me espantou e se mostrou um cara de habilidades raras e de um companheirismo único.

 

Nos momentos de delírio, trouxe equilíbrio ao grupo. Nos devaneios dos números e da estruturação do sonho, ele era fundamental para nos indicar as dificuldades e os caminhos.

 

Então, conheci melhor seu trabalho no palco: um palhaço de humor versátil e cheio de recursos, uma percepção bastante crítica do mundo ao redor, um artista do qual posso me orgulhar de ser companheiro.

 

O Raul foge de todos os clichês que se possa imaginar: é um palhaço formado em engenharia, espalhafatosamente alto, com gestos delicados, ácido no humor e de uma gentileza espantosa no trato. E, especialmente, disciplinado no caos do ser palhaço. Acima de tudo, o que mais me impressiona nele é justamente a radicalidade da vocação para as artes do palco. 

 

As estatísticas do IBGE diriam que ele não nasceu para ser palhaço. Nasceu para ser qualquer outra coisa que se possa imaginar: um playboy do Jardins, circulando de carrão, um executivo careta de terno cinza e gravata azul, um empreiteiro de obras pentelho e pervertido. Até mesmo um monge budista no Tibet seria uma possibilidade estatística.

 

Mas, felizmente, para nós, o Deus do teatro nunca se interessou em ler as tabelas do IBGE. Um dia, saindo bêbado de um boteco lá no céu do teatro, ele ouviu um bebezão chorando, num berço gigante no Hemisfério Sul, apontou para ele e vaticinou: “Esse aí vai sofrer pra entender que é um anjo torto, que nasceu pra ser palhaço. Mas vale a pena apostar nele”.

 

E o Deus do teatro não se engana. Jamais. Principalmente, quando enche o caneco. Ele escolheu muito bem o anjo torto que está ajudando a trazer dignidade para uma arte que sempre foi maltratada nesse País de palhaçadas mil.

 

Obrigado, Raul!

 

 

Veja os verbetes de Raul Barretto e Rodolfo García Vázquez na Teatropédia.

 

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