Quando o autor é فلان

Publicado em: 15/07/2013

Por Mauricio Paroni de Castro*, especial para o portal da SP Escola de Teatro

A tradição literária árabe tem a peculiaridade de prezar radicalmente o anonimato quanto à narrativa; o Alcorão, diz-se, foi assoprado diretamente por Allah aos ouvidos do profeta Maomé.

 
O filosofo árabe medieval Averrois negava a possibilidade de uma narração isolada formalmente  da vida. A distinção aristotélica entre vida e mimese seria impossível: o fluir da existência não pode ser reproduzido pela arte se a primeira for entendida como Deus em si (visão comum na teologia árabe).
 
No Ocidente, as obras anônimas são mais usuais na cultura popular. A alta literatura é preferencialmente creditada à individualidade dos autores. Por mais que seja popular, é impossível cindir “Romeu e Julieta” de Shakespeare, por exemplo. Já Pirandello, o precursor da dramaturgia contemporânea, vinha da Sicília, talvez o pedaço do Ocidente mais influenciado pela cultura sarracena. Não foi acaso o desenvolvimento de sua poética de união, oposição e, por fim, fusão da arte com a vida.
 
O que conta numa boa estória do deserto é a trama  e sua capacidade de prender o narratário, aquele que ouve. Não tanto o estilo do autor, mas o corpo da estória. Trata-se de uma questão cultural milenar; nada a ver com o boulevard de fulanização descolada em que se transformam os palcos que não enfrentam a vida de frente.
 
Em tempo: a palavra fulano vem do Fulan (فلان, que em português quer dizer “alguém”). Para provocar corretamente: Fulanah ( فلانة)

* Mauricio Paroni de Castro é coordenador projeto “Chá e Cadernos”, na SP Escola de Teatro