Quadrienal de Praga: Transformações e Transgressões

Publicado em: 04/07/2011

Depois de acompanhar pela sétima vez a Quadrienal de Praga, J.C. Serroni, coordenador dos cursos de Cenografia e Figurino e Técnicas de Palco da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, nos apresenta suas impressões sobre a mais recente edição do evento. 


 

Quadrienal de Praga: Transformações e Transgressões

 

A Quadrienal de Praga, na República Tcheca, chega à sua 12ª versão, em 44 anos de existência. Dessas edições, pude acompanhar, ao vivo, sete delas e outras cinco pelos dois volumes que registram as edições de 1967 a 1983. Já participei como artista, como arquiteto das seções, como curador, comissário geral do Brasil e júri, na versão anterior de 2007. Posso dizer que entendo um pouco dessa incrível mostra de alguns dos importantes segmentos do teatro: a cenografia, o figurino e a arquitetura teatral.

 

Talvez muitos não saibam, mas o Brasil sempre foi destaque nessa mostra, liderando, se assim podemos dizer, um “ranking” dos melhores, juntamente com o Reino Unido. São já duas Trigas  (o prêmio máximo concedido a um país) – um em 1995 e outro agora em 2011–, duas medalhas de ouro em seção nacional, duas medalhas de ouro na seção de arquitetura teatral, uma menção honrosa na Quadrienal de 1987 e 11 participações nas 12 versões, só ficando de fora na de 1983.

 

Poucos sabem, também, que o Brasil, através de sua Bienal de Arte de São Paulo, foi o elemento propulsor para a criação dessa mostra, um Oscar do Teatro Mundial.

 

Até meados dos anos 90 ela era dirigida, ainda, por vários de seus fundadores e em todo esse tempo a cenografia era mostrada apenas na sua forma mais autêntica e visceral, através de desenhos, maquetes e material fotográfico.

 

Aos poucos, uma nova geração foi chegando e introduzindo modificações. O que se vê hoje, e é natural, com a computação, a internet, a internacionalização, as novas tecnologias e os novos rumos do teatro, não é nem sombra mais do que se fazia nas primeiras edições: cenografia pura, sem distorções.

 

O que vi nessa última versão, foi uma representação da linguagem, já empobrecida, distorcida até pelas novas visões da cenografia, do teatro, das inter-relações das linguagens. Talvez tenha, também, contribuído para essa minha impressão, a mudança de local: saímos de um “palácio exótico” do séc. XIX, estilo art-nouveau, carregado de histórias, e fomos para um grande museu, de arquitetura brutalista, sem relação nenhuma com a história do teatro.

 

Se a mostra, a meu ver, deixou muito a desejar do ponto de vista artístico, isso não empana, de forma alguma, o grande feito do Brasil ao conquistar novamente a Golden Triga e mais uma medalha de ouro pela melhor produção teatral dos últimos quatro anos com o “BR-3”, do Grupo Teatro da Vertigem.

 

Confesso que, ao ver de fora o estande do Brasil, com imagem da baiana na fachada e um colorido tropical dentro dele, com bandeirinhas de São João e flores de crepon, fiquei com receio de que iria ver, mais uma vez, o “folclore” brasileiro e uma mostra de teatro regional, mostrando apenas o norte e o nordeste do Brasil.

 

Qual não foi a minha surpresa, ao olhar mais atentamente, acompanhado das informações contidas no rico catálogo elaborado para a mostra. Vi que havia ali um projeto muito coerente, muito estudado, que traduzia um intenso trabalho, visível aos olhos de quem se atinha com mais rigor à mostra. Já havia me chamado a atenção a mostra do México, dos EUA e do Reino Unido, mas de longe, a mostra brasileira era a mais bem produzida, tanto em termos de conteúdo como em termos técnicos. Há de haver contribuído muito os recursos financeiros conseguidos pelo curador geral e também presidente da Funarte, Antonio Grassi. E não se pode deixar de destacar, também, a forte atuação no plano das ideias, dos curadores adjuntos da seção nacional Aby Cohen e Ronald Teixeira.

 

Lamento que a localização dessa mostra brasileira tenha sido tão desprestigiada. Não fosse a premiação, talvez  muitos visitantes não chegariam até ela, isolada num mezanino de difícil acesso e sem indicações.

 

A seção de escolas, que a meu ver não deveria conceder premiações, ficou de certa forma dispersa, dividida em dois andares diferentes. Como processo, ela é fundamental. Como resultado, confesso que deixa a desejar. Muitas instalações querem mostrar esses resultados, como se os aprendizes já fossem cenógrafos consagrados, e imagino não ser esse o intuito dessa seção. Nesse sentido, a participação brasileira se mostrou coerente, não deixando de retratar a heterogeneidade no ensino da cenografia em nosso País com aquilo que chamou a curadoria da mostra, tão bem conduzida por Fausto Viana, “um balaio de gatos” traduzido num armazém, quase naif, de beira de estrada, onde se comia até bolo de fubá assado na hora.

 

A seção de arquitetura, muito bem instalada num espaço deslumbrante, onde parte de uma velha igreja restaurada, se transformou em espaço teatral, sob a curadoria de Dorita Hannah, retomou os caminhos da boa arquitetura teatral, não vista na versão de 2007, ao mostrar com clareza diversos e bons projetos na área da arquitetura teatral. Discutiria, com mais profundidade, se o projeto escolhido para representar o Brasil – o “Teatro Estádio”, anexo ao Oficina – seria o mais representativo da arquitetura teatral brasileira, que já por duas vezes anteriores conseguiu nessa seção a medalha de ouro.

 

Finalizando, não poderia deixar de destacar a “Scenofest”, a seção mais viva e rica da PQ, capitaneada por centenas de estudantes. Uma feira livre de experimentos, workshops, performances, intercâmbios e encontros.

 

Talvez seja esse o caminho a ser buscado para as futuras edições. Transformar a Quadrienal de Cenografia num grande festival de teatro voltado para as novas experiências, liderado pelos já milhares de estudantes e profissionais de teatro de todo o mundo, que, ao vivo, poderiam expor a suas ideias, os caminhos percorridos, buscados e os resultados para que se possa pensar teatro e cenografia como uma coisa viva e transformadora.

 
                                                                                                       J. C. Serroni