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Protegidos de quem?

Em Gente de Classe, novo espetáculo do Grupo Carmin com direção de Quitéria Kelly, apresentado no Sesc Paulista, a visualidade funciona como uma sofisticada engrenagem crítica que expõe as contradições de uma classe média brasileira cercada por seus próprios muros. Ambientada em um condomínio de luxo no ano de 2040, a encenação projeta um futuro reconhecível justamente porque amplia traços já visíveis no presente. O resultado é uma sátira política cuja potência nasce da forma como cenário, luz, projeções, figurinos, sonoridade e movimento constroem um universo artificialmente perfeito, prestes a desmoronar.

A cenografia de Manar Zind aposta numa composição minimalista e modular que remete aos ambientes padronizados dos empreendimentos de alto padrão e à estética asséptica das plataformas digitais. O espaço cênico parece desenhado para eliminar qualquer vestígio de espontaneidade ou imperfeição. Cada elemento sugere controle, organização e eficiência, produzindo uma sensação de conforto visual que, paradoxalmente, se transforma em inquietação. A limpeza excessiva da cena revela uma sociedade que substituiu a experiência humana pela gestão da imagem. O condomínio Nova Canaã surge como um simulacro de paraíso contemporâneo, uma espécie de vitrine onde felicidade, sucesso e pertencimento são continuamente performados.

As projeções mapeadas desempenham papel fundamental nessa construção imagética. Elas ampliam a percepção de que os personagens habitam um mundo mediado por interfaces, algoritmos e sistemas de avaliação permanente. A visualidade aproxima-se da linguagem dos aplicativos e das redes sociais, convertendo a vida cotidiana em um grande painel de monitoramento. Nesse contexto, a crítica à gamificação das relações humanas encontra uma tradução visual precisa e eficiente.

O desenho de luz de David Costa reforça essa atmosfera de vigilância e artificialidade. A iluminação parece recusar zonas de sombra, expondo personagens e ambientes sob uma claridade constante que remete tanto aos estúdios televisivos quanto aos espaços monitorados por câmeras de segurança. A luz cria um ambiente de transparência compulsória, onde tudo deve estar visível e controlado. Essa opção dramatúrgica dialoga diretamente com a ideia de uma sociedade obcecada por exposição e desempenho, em que a privacidade se torna cada vez mais residual.

Os figurinos de Virginia Borges aprofundam essa leitura ao compor personagens que parecem ter sido moldados para caber em uma narrativa de sucesso e respeitabilidade. Há uma uniformização simbólica que aproxima os corpos da lógica dos anúncios publicitários e dos influenciadores digitais. A aparência torna-se discurso político. Cada escolha visual evidencia a tentativa desesperada de sustentar uma identidade social baseada em consumo, status e validação externa.

A trilha sonora de Ian Medeiros funciona como extensão dessa arquitetura visual. Os beats eletrônicos e as referências ao trap produzem uma pulsação constante que atravessa a cena como uma corrente invisível. Em diversos momentos, a música interrompe a identificação emocional imediata e cria uma camada de distanciamento crítico. O humor característico do Grupo Carmin emerge justamente desse contraste entre o ritmo sedutor da encenação e a brutalidade dos temas abordados. A leveza aparente da forma escancara a violência simbólica das estruturas sociais retratadas.

A direção de movimento de Ana Cláudia Viana talvez seja um dos aspectos mais reveladores da proposta estética. Os corpos reproduzem gestos mecanizados, poses ensaiadas de felicidade e comportamentos rigidamente codificados. Os personagens parecem existir dentro de uma coreografia social permanente, como se estivessem sempre sendo observados. Essa dimensão performativa transforma a cena em uma vitrine humana, onde até os afetos são regulados por expectativas externas.

As atuações de Rafa Guedes, Thuyza Fagundes e Carol Cantídio, ainda que hesitantes na noite de estreia, encontram justamente nessa estilização um terreno fértil para desenvolver a sátira. O elenco compreende que a artificialidade não é um obstáculo à humanidade dos personagens, mas a própria expressão de suas fragilidades. A interpretação explora as fissuras que surgem quando a máscara da normalidade começa a rachar, revelando medos, preconceitos e contradições que o discurso da prosperidade tenta esconder.

O aspecto mais interessante da narrativa visual reside na maneira como ela transforma o condomínio em metáfora expandida do Brasil contemporâneo. Os muros de Nova Canaã não delimitam apenas um espaço físico; materializam divisões de classe, crenças religiosas instrumentalizadas politicamente e mecanismos de exclusão social. Quando essas fronteiras começam a ruir, a encenação revela a fragilidade de uma estrutura sustentada pela ilusão de segurança e pelo desejo de separação.

O pensamento de Jessé Souza atravessa a obra não apenas como referência teórica da dramaturgia, mas como fundamento estrutural da encenação. Ao transformar um condomínio de luxo em microcosmo social, o espetáculo materializa em cena algumas das principais reflexões do sociólogo sobre a classe média brasileira, especialmente sua relação com privilégios, distinção social e reprodução das desigualdades.

Para Jessé Souza, a classe média não se sustenta apenas pelo capital econômico, mas por um capital simbólico construído através da educação, do discurso meritocrático e da crença de que seu lugar social é resultado exclusivo do esforço individual. Em Gente de Classe, essa lógica aparece encarnada na arquitetura visual do condomínio Nova Canaã. O ambiente clean, organizado e excessivamente controlado traduz cenicamente a fantasia de superioridade moral e racional que sustenta essa camada social. A cenografia asséptica funciona como uma imagem concreta daquilo que Souza identifica como a necessidade permanente de diferenciação em relação aos grupos considerados inferiores.

A própria ideia do condomínio fechado dialoga diretamente com a noção de segregação social presente na obra do sociólogo. Os muros de Nova Canaã não servem apenas para proteger seus moradores, mas para preservar um imaginário de exclusividade. A encenação evidencia como o medo do outro se converte em projeto urbanístico, comportamento cotidiano e identidade política. O espaço cênico transforma-se, assim, em representação visual de uma sociedade que naturalizou a distância entre privilégios e precariedades.

Outro aspecto fundamental do pensamento de Jessé Souza presente na montagem é a crítica à moralização das desigualdades. Em vez de enxergar as diferenças sociais como resultado de estruturas históricas, a classe média frequentemente atribui sucesso ou fracasso a méritos individuais. A peça ironiza esse mecanismo ao apresentar personagens cercados por discursos de empreendedorismo, produtividade e autorresponsabilização, mesmo quando o mundo ao redor caminha para o colapso. A visualidade inspirada na lógica das redes sociais reforça essa crítica: todos parecem permanentemente empenhados em exibir eficiência, felicidade e controle, como se a imagem correta pudesse esconder a crise.

A escolha do nome Nova Canaã também encontra ressonância nas análises de Souza sobre a instrumentalização da religião no Brasil contemporâneo. O condomínio surge como uma espécie de terra prometida privatizada, onde fé, prosperidade e consumo aparecem misturados em uma narrativa de legitimação dos privilégios. A encenação expõe como determinados discursos religiosos podem ser apropriados para justificar hierarquias sociais e reforçar mecanismos de exclusão, convertendo a promessa de salvação em ferramenta de distinção.

A presença da inteligência artificial doméstica e a mecanização dos corpos ampliam ainda mais essa leitura. Em cena, os personagens parecem reproduzir comportamentos programados, incapazes de perceber as estruturas que os constituem. Essa automatização dialoga com a crítica de Jessé Souza à reprodução inconsciente das ideologias dominantes. Os corpos coreografados revelam indivíduos que acreditam agir livremente, mas que seguem padrões sociais profundamente internalizados.

O aspecto mais potente da encenação talvez seja justamente tornar visível aquilo que Jessé Souza frequentemente busca revelar em seus estudos: os privilégios que se escondem sob discursos de normalidade. Quando os muros começam a ruir e a revolta social invade o espaço protegido do condomínio, a peça desmonta a fantasia meritocrática que sustenta seus personagens. O colapso visual do ambiente corresponde ao colapso simbólico de uma classe que insiste em não reconhecer sua participação na produção das desigualdades que pretende combater apenas à distância.

Quitéria Kelly constrói uma encenação visualmente sedutora e conceitualmente rigorosa. Ao invés de imaginar um futuro distante, a peça utiliza a estética do amanhã para iluminar as patologias do presente. Nova Canaã é o monumento de uma classe social que ergueu muros tão altos para se proteger do mundo que acabou aprisionada dentro deles. A grande tragédia está na descoberta de que o inimigo nunca esteve do lado de fora. Os personagens tentam defender-se daquilo que mais os assombra: suas próprias contradições. A visualidade de Gente de Classe opera como um espelho distorcido que amplifica nossas obsessões coletivas até que elas se tornem impossíveis de ignorar. O resultado é um espetáculo que transforma a aparência de ordem em sintoma de colapso e faz da cena um campo de disputa entre imagem, poder e pertencimento.

Bob Sousa é fotógrafo, pesquisador e doutorando em Artes Cênicas no Instituto de Artes da Unesp (com orientação da Profª Drª Simone Carleto Fontes), onde também obteve o título de mestre em Artes. É jurado de Teatro da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes – e de Artes Visuais do Prêmio Arcanjo de Cultura. Autor do livro Retratos do teatro (Editora Unesp).  

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