Por Amor a Palavra

Publicado em: 11/04/2011

A princípio, um boêmio beatnik e um intelectual que escreve comédias parecem não ter nada em comum. Porém, durante a palestra promovida, no último sábado (09/04), pela SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, os dramaturgos paulistas Mário Bortolotto e Mário Viana mostraram o contrário, têm sim muita coisa em comum.

Logo pela manhã, no teatro Anhembi Morumbi, local do encontro, esses opostos se encontraram para falar de suas trajetórias como dramaturgos e revelaram enfrentar dificuldades semelhantes na hora de passar do papel e do sonho de escrever para teatro à difícil arte de sobreviver desse ofício.

Antes de Marici Salomão, coordenadora do curso de Dramaturgia da SP Escola de Teatro, abrir o espaço para a conversa informal entre esses dois representantes da dramaturgia dos anos 90, a banda Socorro Freud!  apresentou seu show.

Composta por Vinicius Guarilha e Sergio Ponti, aprendizes de Atuação, e Fabricio Cardial, de Sonoplastia, a banda performática tocou suas músicas críticas, divertidas e criativas, quase que anunciando o tom da conversa que se seguiria.

Mário Viana, autor, entre outros, de três espetáculos estão em cartaz no momento (“Cheiro de Céu”, “Carro de Paulista” e “Vamos?”), deu início ao bate-papo contando detalhes de sua trajetória e explicando que conciliou, durante muitos anos, a carreira de jornalista com seu sonho de escrever para teatro. Após deixar seu cargo de repórter em um jornal paulista de grande circulação, teve que aprender a equilibrar seu orçamento, mas pode, finalmente, se dedicar à carreira de dramaturgo.

Na época, Viana trabalhava com o grupo Parlapatões e já tinha projetos  em andamento. “Nunca me esqueci da emoção que senti ao ouvir a primeira risada de uma piada que havia escrito para um espetáculo. Isso está gravado em minha memória até hoje”, revela ao falar sobre a primeira montagem de um texto de sua autoria.

A fala doce de Viana foi substituída pela voz grave de Bortolotto, que vestido com seu coturno mal amarrado e sem abrir mão de seus óculos escuros, se antecede a qualquer possível gafe e pede desculpas pelo fato de não ter um raciocínio rápido pela manhã.

Bortolotto, que enveredou pela cultura beatnik e matura suas criações inspirado em seu cotidiano boêmio, trabalha há mais de duas décadas como dramaturgo. Começou sua carreira como ator e revela que só passou a escrever porque não tinha verba para pagar os direitos autorais das peças que queria montar com o seu grupo. “Meu jogo com o teatro é limpo. Comecei a escrever quase por obrigação. Hoje tenho uns 50 espetáculos escritos e quatro livros publicados, mas, sinceramente, sempre quis só ter uma banda de rock. Música é que é a minha praia”, diz.

Após falar sobre  sua trajetória, Bortolotto foi convidado por Marici a fazer uma pergunta para Viana. Sagaz, o dramaturgo provoca: “Você acha que é bom mesmo escrever para TV?”

Sem titubear, Viana responde que sim e que talvez por seu histórico como jornalista ache legal ser lido e visto pelo maior número de pessoas possíveis. Revela ainda que quando trabalhou para a TV, teve a oportunidade de fazer isso ao lado de artistas que admirava e nos quais confiava muito, fatores que só agregaram valor ao seu trabalho. “Não estávamos lá para fazer pastel de feira, com todo respeito aos pasteleiros”, brinca.

“Tenho muita fidelidade ao meu universo. Acho bonito ver uma personagem que revive em outras peças. Não tenho medo, esse é o meu mundo”, explica Bortolotto ao ser indagado por Viana sobre o medo de se tornar um dramaturgo repetitivo. Em meio a alguns palavrões, Bortolotto acrescenta que “ser repetitivo não é ser clichê. Eu não suporto clichê no teatro. Quando alguém me deseja ‘merda’ antes de um espetáculo sempre penso que deveria ouvir um ‘boa sorte’”.

Na sequencia, a plateia integrou o debate sobre teatro, dramaturgia e processos criativos com suas perguntas e a conversa se estendeu até o fim da manhã. “A gente sempre leva nossas características para os textos. Gostei da conversa e da escolha dos dois dramaturgos porque ela mostrou visões diferentes do teatro. São dois artistas com trajetórias bem distintas, mas que se encontram em algum momento”, conta Luana Oppermann, aprendiz de Dramaturgia.

“Eu me interesso muito por dramaturgia”, conta Caique Oliveira, aprendiz de Humor, que também esteve presente ao encontro. “Ver como foi complicado o início da vida profissional de artistas que têm um grande reconhecimento hoje é inspirador. Assim, a gente se motiva e reconhece que começar a escrever para o teatro e sobreviver disso é difícil para todo mundo”, conclui.