Pirandello, político até a medula

Publicado em: 08/07/2013

Por Mauricio Paroni de Castro*, especial para o portal da SP Escola de Teatro
 
Pirandello é um emblema do século 20: depois de publicar novelas e romances recebidos discretamente, cria peças idênticas e vira um dos dramaturgos mais famosos do século. Nestas, declarou que aos mortais não é concedida qualquer identidade, além da verdade resultante da convenção de alguns documentos. Se estes documentos faltam, a realidade é incognoscível, todos podem reduzi-la ao que se quiser.
 
Pequena parte de sua extensa obra teatral foi traduzida no Brasil – há o clichê de que teria inaugurado o teatro apolítico que cita a si próprio. Na Itália, foi muito pior: criaram clichês no pântano de décadas de montagens controladas por seus herdeiros.
 
Pirandello incendiou o teatro por decênios além de sua morte, em 1936. Desarmou a ideologia estética do drama burguês ao evidenciar que nenhuma identidade pessoal nasce da própria personalidade, seja real, seja fictícia; para tal, depende da aparência que tem frente ao próximo. Pior: frente a si mesmo. Tudo, então, é fictício. Qualquer material fictício tem a vantagem de poder ser reinventado, mas as consequências disso no mundo real são trágicas: o esvaziamento das relações humanas. Sejam estas pessoais, sentimentais, sociais, partidárias, futebolísticas, gastronômicas, sexuais… enfim,  políticas. Não é isso o que vivemos exacerbadamente em nossos dias? Ou: o que pode ser mais eminentemente político, hoje?
 
* Mauricio Paroni de Castro é coordenador projeto “Chá e Cadernos”, na SP Escola de Teatro