Para Além do Muro Amarelo

Publicado em: 27/06/2012

Os aprendizes do Módulo Azul da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco compartilharam com o público, no último sábado (23), suas investigações cênicas decorrentes do Experimento. Dentre os que vieram acompanhar o trabalho, estava Vithor Torres, que visitou a Escola a convite da aprendiz de Atuação Maria Eugenia Pacheco.

Após a experiência, o estudante de Ciências Sociais, natural de Mato Grosso do Sul, escreveu um texto em seu blog, o “Paulicênios – A visão paulista de um não-paulistano”, contando suas impressões do evento. E não para por aí: amante da escrita, ele ficou tão empolgado, que pensa em se inscrever para o curso de Dramaturgia da Instituição.


Leia abaixo o texto:

Me encosto num muro amarelo que guarda uma casa antiga, mas é o lar de criações contemporâneas. Sábado. Quinze pras nove da manhã. Faz frio e o dia está nublado. Não deveria haver ninguém longe de suas camas e cobertas. Mas o Brás não liga pra isso. Passa boi, passa boiada, atravessam o sinal correndo, empurram carrinho, cospem no chão. O espaço agrega muitos bolivianos, sacoleiros, vendedores de rua, vagabundos e atores. Sim, atores. A arte não escolhe sair somente da casinha cor de rosa. Não, longe disso. Ela brota do concreto, do tijolo quebrado, do calo na mão.

A casa antiga protegida pelo muro amarelo é a sede da SP Escola de Teatro. Lá dentro, o artista se experimenta. Pintados ou não, descalços ou não, compreensíveis ou não, eles erguem a voz, agitam o corpo, sentem, vibram, sofrem e descobrem-se. “Você me ouve?”, pergunta um deles. A melhor questão seria “Você se ouve?”.

De fora, continua o burburinho de passos e passantes. Um homem desdentado, de bigode espesso e cabelos ralos, parou ao meu lado no muro. Com seus chinelos de dedo, ignorava o frio; com as mãos mostrava suas camisetas; com a voz, fazia o anúncio:

– É dé, é dé, é dé, é dé real! Dé real, dé real! Camiseta de marca! É só dé real!

Na verdade, ele dizia aos passantes: Vocês me ouvem?

Entre o ambulante e o ator não há diferenças. Ambos são crus, mas se expõem. Ambos interpretam-se de múltiplas formas, mas, no fim do dia, vestem-se com a própria vida. Ambos só querem ser ouvidos.

 

 

Texto publicado no blog http://paulicenios.tumblr.com/, em 24 de junho