Para Além da Arte

Publicado em: 17/05/2011

Em uma das primeiras ações dos nove dias de trabalho de Hassane Kouyaté no Brasil, este contador de histórias, griot, diretor e ator, realizou uma conversa com os aprendizes da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, no último sábado (14,05), a convite de Juliana Jardim, formadora do curso de Humor e artista com uma aliança de nove anos com a família Kouyaté.

 

Ninguém sabia ao certo de que modo o griot iria traçar uma conversa com os aprendizes, e, ainda um pouco sonolentos, todos entraram no teatro que, por pouco, não excede sua capacidade. No palco, Kouyaté já estava sentado e, ao lado de dois tradutores, testava os microfones e demonstrava um sorriso sincero.

 

O griot agradeceu a possibilidade de compartilhar as tradições e conhecimentos que recebeu durante seus anos de vida e revelou que aquilo que ele, eventualmente, dissesse não devia ser considerado a ‘verdade’, mas, a verdade dele. “Obrigado, se vocês não estivessem aqui, eu falaria sozinho e pensariam que sou um louco. Gosto mesmo de ver loucuras em outros lugares”, brincou.

 

“Não sei falar sentado.” Explicando sua ação, o griot se levantou e, o que seria apenas uma conversa sobre tradições e cultura, se transformou em um emocionante encontro de seres humanos, na concepção mais primitiva e sensível da palavra. Kouyaté é, acima de tudo, um orador e, durante a conversa, não quis transmitir seus conhecimentos sobre a arte. Ele mostrou a cada pessoa que estava ali o seu papel como indivíduo em sua sociedade e de que modo ele pode contribuir com o outro por meio de sua fala, sua sensibilidade, sua história e sua arte.

 

“Um griot fala em seu nome e em nome de seus ancestrais. Ele deve ser um mediador da sociedade, fazer uma ponte entre os indivíduos e sua história, por meio de contos, provérbios, música, jogos de adivinhação”, revelou Kouyaté, que contou que os griots organizam cerimônias segundo o que eles chamam de Triângulo da Existência, uma metáfora baseada nas três fases da vida do homem: iniciação, morte e renascimento.

 

Para o contador de histórias, nenhuma cerimônia deve ser triste, mesmo as que estão relacionadas com a morte. “A diversão não mata a morte. Diversão demais não é diversão. A seriedade e a diversão andam juntas”, explicou.

 

Considerado mestre da palavra em Burquina Faso, sua terra natal, Kouyaté revelou que o poder da oralidade é maior do que se imagina. “Quando seu braço se estica para pegar algo, ele pode voltar ao seu lugar em apenas um movimento. Quando você empresta sua perna para algo, logo ela retorna a sua posição, entretanto, quando sua boca se compromete com algo, você vai sair dessa com dificuldade, afinal, uma palavra que sai da sua boca não se engole de volta”, revelou.

 

O griot comentou ainda que todos são mestres da palavra. “As palavras que saem da boca atingem os ouvidos, as palavras que saem do coração atingem o coração e o silêncio é o mais belo jardim do homem, mas ele não vai passear lá com muita frequência”, disse.

 

Entre suas contações de histórias, brincadeiras e parábolas emocionantes, Kouyaté abriu um espaço para perguntas dos aprendizes e, de cara, foi surpreendido por Alessandra Siqueira, aprendiz de Cenografia e Figurino que pediu, emocionada, para dar um abraço no griot. No momento, só se ouvia a plateia comovida com o pedido e, de pronto, Kouyaté se levantou e desceu do palco ao encontro da aprendiz. “Me senti muito emocionada. O mundo é tão frio… Achei desnecessário fazer uma pergunta. Queria mesmo sentir a vibração e energia dele’, explicou.

 

Sua colega, Paloma Cassiano, também se sentiu muito emocionada com as palavras do griot. “Foi um incentivo a continuar na busca por um trabalho coletivo e comunitário. Quero me voltar para esses estudos e vivenciar, absorver e trocar”, comentou.

 

Na segunda parte da conversa, Kouyaté contou como levou suas tradições de griot e seus estudos na ‘escola de brancos’ para sua arte teatral. “Meu único gênero é o gênero humano. Tento me focar em alguns momentos e aspectos da sociedade nas minhas direções. O que me motiva é minha equipe. Tenho medo dos profissionais ‘estrelas’. Gosto de trabalhar com pessoas boas”, revelou.

 

Kouyaté explicou ainda que o teatro na África é designado por um termo que significa ‘Conhecer-se’. “Foi nele que aprendi a me conhecer. Ele me fez retirar os véus e limpar minha visão. Nunca enceno uma peça sem abrir o processo para o público e utilizo muito pouco a Quarta Parede (https://www.spescoladeteatro.org.br/curiosidades/17.php). O teatro é para todos nós, se faço algo fechado, não consigo atingir as pessoas, os jovens, as crianças, os adultos e as mulheres como eu gostaria de atingir”, afirma.

 

Ainda reverberando sobre a filosofia de trabalho e de vida do diretor, Vivian Martins, arte-educadora e atriz, revelou que essa relação cultural, esses valores e a proximidade que Kouyaté faz entre a cultura e o ser humano mostram o poder da oralidade.

 

O ator Jadilson Vieira, que também esteve presente no encontro, explicou que conhecer o método de trabalho de Kouyaté o fez repensar o seu papel como ator. “Enxerguei que existe um modo de contar uma história para o meu País, olhando para dentro de mim, para minha história, para a história do meu povo. É muito importante para um ator tentar dar conta de eternizar as tradições de seu povo por meio da arte”, concluiu.

 

Ao final da conversa, ovacionado, Kouyaté recebeu muitos aprendizes no palco para um abraço. E, após a saída de todos, confessou: “Tive que me segurar, por muitas vezes, para não começar a chorar. Fiquei muito feliz e honrado com o convite”, relatou o griot emocionado.