Papo de Teatro com Sérgio Ferrara

Publicado em: 13/09/2010

Sérgio Ferrara é diretor. Nascido em 25 de julho de 1967 na cidade de Nanuque, em Minas Gerais.

 

Como surgiu o seu amor pelo teatro?
Eu fui educado em colégio de padres no interior de Minas Gerais, onde nasci. Eram padres holandeses do colégio Santo Antônio. Desde cedo tínhamos uma formação que incluía o estudo de algumas obras do teatro universal e a representação dos autos católicos nas festas da escola. Como fui criado no norte de Minas e Sul da Bahia, paralelamente à minha formação educacional, durante as férias no sul da Bahia, presenciava as festas religiosas sagradas dos descendentes africanos que habitavam a nossa fazenda. Dessa mistura de cultura e raízes da minha infância e adolescência nasce meu interesse e amor pelo teatro, que vai acontecer vinculado ao universo da nossa identidade cultural.

 

Lembra da primeira peça a que assistiu? Como foi?
A primeira peça de teatro que assisti no palco italiano foi aqui em São Paulo, quando me mudei do interior para concluir meus estudos na Capital. Foi “Romeu e Julieta”, de Shakespeare, com o grupo de teatro Macunaíma e direção de Antunes Filho, no Sesc Consolação. Tinha 16anos e nem imaginava que mais tarde trabalharia com alguns daqueles atores e que o Antunes seria meu mestre numa estada de quase 10 anos no CPT. Mudou a minha vida e revolucionou a minha cabeça, jamais seria o mesmo depois daquele dia. Agradeço até hoje por esse momento.

 

Qual foi a última montagem que você viu?
Recentemente assisti à peça “Casting”, com direção de Marco Antônio Rodrigues. Interessei-me pela possibilidade de conhecer um dramaturgo russo contemporâneo. Sou fascinado por dramaturgia.

 

 Um espetáculo que mudou o seu modo de ver o teatro.
“Macunaíma”, com direção do Antunes Filho. Era um teatro pleno de teatralidade e vida. O jogo teatral transcendia a realidade e nos convidava a trabalhar outros estados alterados de consciência para a percepção do conteúdo da obra. Lembro-me muito da sensação de liberdade que senti assistindo à peça, sensação essa que até hoje procuro buscar na minha vida como condição essencial para exercer minha sensibilidade como artista.

 

Um espetáculo que mudou a sua vida.
É muito difícil dizer que um espetáculo mudou a minha vida. Procuro pensar que cada peça a que assisto contribui para a minha evolução como ser humano e acredito que é a somatória desse conjunto de experiências que me levará à mudança e à percepção mais sensível do mundo em que vivo. Não crescemos só naquilo que mudou nossa vida, às vezes até o ritmo repetitivo e devorador do cotidiano nos transformam de forma reveladora. Acredito em tudo que assisti e, independentemente do resultado dessas obras, procurei encontrar ali um respiro de vida, uma necessidade de existir.

 

Você teve algum padrinho no teatro? Se sim, quem?
Não entendo qual é o sentido da palavra padrinho nessa pergunta. Mas se for o de alguém que nos ajuda no percurso do nosso caminho, então eu penso que temos muitos e principalmente aqueles que respeitamos por afinidades e idéias. Quem? Na maioria das vezes nossos colegas e companheiros de trabalho que sabem da labuta que é realizar teatro no Brasil. Nesse sentido somos muitos e irmanados.

 

Já saiu no meio de um espetáculo? Por quê?
Não. Assistir a uma peça é como viver a vida: deve-se ter paciência. Nem sempre devemos buscar aquilo que queremos ver. Às vezes deve-se ficar aberto e baixar a guarda. Muitas vezes você não precisa gostar, mas pode respeitar, isso também é uma forma de amar.

Teatro ou cinema? Por quê?
Ambos. Se complementam, se namoram. Caminhos diferentes que levam a lugares parecidos. Percepções de mundo, adoro!
 


Cite um espetáculo do qual você gostaria de ter participado. E por quê?
“Os Sete Afluentes do Rio Ota”. Quando assisti me senti um ser humano de lugar nenhum, apenas um ser humano cheio de deficiências. Acho rico um processo e uma peça que nos propõe a possibilidade de crescimento na fragilidade (não na fraqueza), para mim é quase que uma forma de tocar no sagrado. Essa peça tinha algo de sagrado.
 


Já assistiu mais de uma vez a um mesmo espetáculo? E Por quê?
Não, quando algo me emociona procuro não assistir novamente, é como se quisesse preservar na minha imaginação a sensação da primeira vez e todas as imagens que aquele momento me proporcionou. Elas serão revividas novamente, mas na minha mente e não no ato em si que gerou aquilo. E depois nunca será como a primeira vez, é sempre diferente. É como o teatro, por isso me fascina.
 


Qual dramaturgo brasileiro você mais gosta? E estrangeiro? Explique.
Gosto do Mário Bortolotto, Samir Yazbek, Zen Salles, Newton Moreno, Marici Salomão, Evaldo Mocarzel, Jorge Andrade, Plínio Marcos, Nelson Rodrigues, Qorpo Santo, Sérgio Roveri, Alberto Guzik, a lista seria interminável.  Eles não só expuseram suas idéias como dramaturgos, mas ajudaram no árduo trabalho de expansão e estudo da dramaturgia brasileira. É nítida a proliferação de novos autores e de projetos que fomentem essa arte. O texto teatral é o documento, é o numero da identidade, é o verbo que se torna carne, é real. No final de tudo, é o que fica para a história mais vivo que todos nós. É um testemunho universal de todos os tempos, é a torre de Babel.
Dos estrangeiros sou apaixonado por Henrik Ibsen, minha grande e eterna paixão. É o dramaturgo da argumentação e do ser humano em constante processo de evolução. É o meu Darwin do teatro.

Qual companhia brasileira você mais admira?
Não é assim que funciona comigo (o que admiro mais ou menos, em arte não existe essa regra e mesmo se existisse ela não seria tão exata), eu acompanho o trabalho de acordo com minha sensibilidade e necessidade de criação como artista e como ser humano.

Existe um grupo ou companhia de teatro que  você acompanhe todos os trabalhos?
Acompanho muito o trabalho do Grupo de Teatro Macunaíma , por causa da minha formação no CPT com o Antunes Filho. É uma forma de retornar às minhas origens e reverenciar o talento do homem que me fez olhar para o teatro com a alegria de uma criança feliz e travessa.

 

Qual gênero teatral você mais aprecia?
Identifico-me mais como diretor com os dramas e as tragédias e como espectador tudo me satisfaz, desde que me crie interesse.
 

Qual lugar da platéia você costuma sentar? Por quê? Qual o pior lugar que você já sentou na platéia?
Costumo sentar no fundo do teatro, porque é onde eu tenho a visão distanciada da caixa teatral. É como eu evoco a possibilidade de sonhar olhando o mundo que passa naquele ponto que contém o universo. Lá é o meu Aleph como o definiu Jorge Luis Borges. O pior lugar para mim é sempre a primeira fila, principalmente quando o olhar dos nossos colegas trabalhando cruza com o meu assistindo. Sinto que é um momento sagrado que eu não deveria olhar e se o fizer que seja de longe e com muito respeito, apesar da curiosidade. É magia em movimento e se deve ter muito cuidado com mágica.

Fale sobre o melhor e o pior espaço teatral que você já foi ou já trabalhou?
Nunca passei por isso, sempre para mim os espaços foram estímulos para a criação, portanto ricos em desafios.
 


Já assistiu a alguma peça documentada em vídeo? O que acha do formato?
Peça documentada em vídeo só serve como estudo e documento histórico, fora isso não tem nenhuma função para nossa arte. É um rico e precioso registro para gerações futuras.

 

Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou?
Não existe peça ruim ou peça boa. Existe peça viva ou peça morta e, se estiver viva, independente do gosto das pessoas, não existe equivoco. Não se trabalha nesse ramo procurando acertos, isso é um erro, se busca a vida e só.


Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos?
Essa pergunta lida muito com a idéia de futuro e isso me incomoda. Minha relação com o teatro é sempre no presente, porque penso que só existo aqui e agora. Portanto esse excesso de como seria  tira até a minha possibilidade de pensar. Não existe, sinceramente, falando nenhuma antipatia minha nessa reposta, é só que procuro lidar com o teatro com um senso muito grande de realidade. E essa realidade exige de mim muita consciência e percepção do oficio que escolhi para colocar minha vocação.
 


Cite um cenário  surpreendente.
Tenho grande admiração pelo cenógrafo Flávio Império. Não assisti, mas vi fotos de cenário de duas peças que me impressionaram:
“Depois da Queda”, de Arthur Miller, realizado no Teatro Maria Della Costa, com direção do Flávio Rangel e “Pano de Boca”, texto de Fauzi Arap.

 

Cite uma iluminação surpreendente.
Prefiro citar um profissional que encanta com sua criação e didática na luz: mestre Davi de Brito. Cresci vendo-o trabalhar no CPT e nos ensinar a arte de amar aquilo que se faz.


Cite um ator que surpreendeu suas expectativas.
Dirigi atores espetaculares e, com eles, mais aprendi do que ensinei: Luis Damasceno, Raul Cortez, Paulo Autran, Francarlos Reis, Olayr Coan, Caco Ciocler, Marco Antônio Pâmio, José Rubens Chachá, Luciano Chirolli,  Paulo Hesse, Antônio Petrin, Sérgio Rufino, Jairo Mattos, Renato Borghi ,enfim….Todos me surpreenderam e me mostraram a diversidade do teatro que não se constrói em um ou outro em especial, mas em todos que juntos criam a heterogeneidade da vida.

 

O que não é teatro?
A falta de vida! A morte do desejo, que são nossas lembranças vindas do futuro.


Que texto você foi ler depois de ter assistido a sua encenação?
Gosto de reler as peças que dirigi depois de um longo tempo que a temporada acabou. É uma forma que encontrei de reatar laços com alguns momentos da minha vida.

 

A ideia de que tudo é válido na arte cabe no teatro?
Depende do que se entende por tudo ser válido. Nosso trabalho requer uma objetividade muito apurada. Nesse sentido (esse cabe tudo), me cheira a subjetividade que só confunde a cabeça do artista. Penso que é fácil ser complicado, o difícil é ser simples. Mas se esse tudo que é valido for vivo, que venha a tempestade!!!

 

Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro?
O teatro tem o poder de eternidade da fênix mitológica. Ele também é tecnologia. Ele também é transformação e movimento. É o infinito em suas eternas possibilidades. 

 

O teatro é uma ação política? Por quê?
Sim. Existe uma responsabilidade com o coletivo, com o social. Com a ideia de socialização de conceitos e ideias. Não é panfletário, como certos partidos políticos fazem no intuito de angariar votos e perpetuar-se no poder, mas tem que ser uma ação viva e transgressora, um elemento de reflexão da sociedade que deve buscar a evolução do ser humano e das condições necessárias e dignas de vida.

 

Quando a estética se destaca mais do que o texto e os atores?
Toda a pesquisa é bem-vinda. Deve-se ter bem claro quais são os objetivos do projeto. É uma pesquisa puramente estética ou um trabalho voltado para o naturalismo? O que é ruim não é o que se pesquisa ou o resultado, mas a falta de uma clareza maior de onde se  quer chegar . O que percebo na maioria das vezes é uma dificuldade muito grande de se estabelecer metas e trabalhar por isso de forma séria e disciplinada, às vezes tudo acaba em modismos, transformando a pesquisa em evento social para revista e jornal.

 

Qual encenação lhe vem à memória agora? Alguma cena específica?

Nenhuma.


Em sua biblioteca não podem faltar quais peças de teatro?
As peças do dramaturgo Henrik Ibsen, me fazem lembrar sempre que preciso estudar. E nunca esquecer que é sempre bom aprender. É o dramaturgo da argumentação, isso me fascina!

 

Cite um diretor (a), um autor (a) e um ator/atriz que você admira.
Diretores: Antunes Filho e Fauzi Arap, meus professores, meus colegas! Trabalhei com tantas atrizes maravilhosas que seria injusto falar de uma sem citar as outras. O Brasil é um grande celeiro de atrizes de ponta, são melhores que os atores. São mulheres!

 

Uma pergunta para William Shakespeare, Nelson Rodrigues, Bertolt Brecht ou algum outro autor ou personalidade teatral que você admire.

Prefiro fazer essas perguntas quando estiver trabalhando diretamente com a obra de cada um deles. Garanto-lhe que são infindáveis, porque é isso que constrói a alma de uma peça: perguntas!

 

O teatro está vivo?

Enquanto nós estivermos vivos sim! Mas o grande desafio do nosso século é resgatar o humano da humanidade.