Papo de Teatro com Rosa Magalhães

Publicado em: 11/02/2013

A cenógrafa, figurinista e premiada carnavalesca Rosa Magalhães foi a convidada do Bate-Papo Online promovido pela SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco em agosto de 2011.

A conversa com os internautas teve como tema central “As Artes Visuais no Teatro e na Escola de Samba”. A artista compartilhou com os participantes sua experiência com teatro e carnaval. Hoje (11), em saudação a este tradicional período de festas, publicamos, abaixo, a reprodução do bate-papo:

 

 

MEDIADORA: Boa tarde a todos! O nosso Bate-Papo Online de hoje recebe a artista plástica, figurinista, cenógrafa e carnavalesca Rosa Magalhães, que vai conversar conosco sobre  as artes visuais no teatro e na escola de samba. Boa tarde, Rosa! Bem-vinda. É com muita alegria que a recebemos no Bate-Papo da SP Escola de Teatro!

WALLY: Rosa, gostaria de saber quando você começou seus trabalhos com o teatro e depois de quanto tempo foi para o Carnaval?

ROSA MAGALHÃES: Comecei desenhando para a Escola de Samba do Salgueiro, quando ainda era aluna da Escola de Belas Artes da UFRJ. Depois fui para a Escola de Teatro da UniRio, que então era Fefierj, onde fiz o curso de Cenografia e Indumentária. Depois que me formei, fui dar aula na Escola de Belas Artes. Antes, dava aula na Faculdade de Letras da UFRJ, enquanto estudava na EBA.  

WALLY: Qual a principal diferença de linguagem entre desenhar um figurino para um palco ou para a avenida?

ROSA MAGALHÃES: Muitas diferenças. O de Carnaval vai ser usado, no máximo, duas vezes. Então, ele tem de ser prático e não pode custar um preço exagerado, às vezes, o tamanho é regulável, porque não dá tempo de tirar medidas. A algumas roupas de carnaval, as especiais, você dedica mais tempo. O efeito tem de ser de leitura imediata, a audiência fica muito longe e a luz… Bem, essa é um horror. 

WALLY: Já houve tentativas de ajustar ou criar uma luz diferenciada para o desfile, né? Lembro que no desfile das campeãs, de 2002, eu presenciei alguns testes. O que você acha que poderia ser feito para melhorar?

ROSA MAGALHÃES: Acho que fica muito caro, porque o trajeto é longo. Tentaram diminuir a intensidade da luz, mas ficou muito escuro. As pessoas querem ler a letra das músicas ou conversar ou comer, tudo ao mesmo tempo, e no escuro fica difícil. Acho que ainda vão penar um pouco. As câmeras de TV já são bem sensíveis, mas tem de ver o que é melhor para o público presente. Só um grande especialista de luz pode resolver este problema. Acredito que os materiais utilizados para iluminação possam baixar de custo. Para você ter uma ideia, quando se apaga a luz do sambódromo, ela leva uma meia hora para acender de novo.

MEDIADORA: Com quanto tempo de antecedência as roupas e adereços são pensados e confeccionados para a apresentação no Carnaval? 

ROSA MAGALHÃES: Para o ano que vem, devo começar na próxima semana. Antigamente, você entregava o desenho e cada um fazia a interpretação que achasse melhor. Hoje, a gente faz um traje, modifica o que precisar ser modificado e entrega um traje pronto. Na Vila Isabel, onde estou trabalhando agora, o processo só é diferente porque todas as 4.500 roupas são feitas na zona portuária e entregues gratuitamente aos participantes da escola, na condição que devolvam depois de usar. 

MEDIADORA: No teatro, qual foi o espetáculo que você mais gostou de cenografar e fazer o figurino?

ROSA MAGALHÃES: O primeiro a gente nunca esquece, mas o primeiro que nunca esqueci, o publico não viu, porque foi censurado. A polícia cercou o teatro e… babau. Acabou com tudo. Um cenário que gostei de fazer foi o do “Circo Místico”, porque foi um grande desafio, uma produção que já havia feito muito sucesso anteriormente, do Chico (Buarque) e do Edu (Lobo). De figurino, gostei muito de fazer “A Irresistível Aventura”, com a Dina Sfat.

MEDIADORA: E qual era o espetáculo censurado? Do que se tratava o espetáculo? 

ROSA MAGALHÃES: Foi “Calabar – Um Musical”, dirigido pelo Fernando Peixoto, com músicas do Chico. 

MEDIADORA: Em que escolas você já atuou como carnavalesca? E quem foram seus grandes mestres?

ROSA MAGALHÃES: Comecei no Salgueiro, depois Portela, depois o primeiro ano da Beija Flor, depois Estácio, Imperatriz , Ilha e, agora, Vila Isabel. Comecei desenhando no Salgueiro, mas não sabia nada de carnaval, foi em substituição a uma outra pessoa que não pode desenhar. Aí, aceitei e fui em frente. Depois, na hora do desfile, fui assistir de uma arquibancada para ver como era. Estudei com Marie Luise Nery, figurino, Anisio Medeiros, cenários, e com (Fernando) Pamplona, o que era escola de samba.

PLUMA: A cada ano as escolas produzem uma quantidade absurda de material que se perde. Já não cabe mais tanto desperdício na concepção de um projeto. É preciso mudar o enfoque e o reaproveitamento tem de ser uma regra. Você não acha? Seus projetos preveem reutilização de material?

ROSA MAGALHÃES: Na Vila, as roupas são recolhidas e desmontadas. Há uma sala só com plumas, que são recicladas ou tingidas etc. O mesmo vale para  bordados. A Vila tem uma escola-mirim,  e o que é retirado vai naturalmente sendo aproveitado na outra escola-mirim. As esculturas são vendidas ou dadas para escolas menores ou do interior e para a própria escola mirim. O que sobra é muito pouco – a luz também é guardada para ser reutilizada. 

ABEL: Você acredita que tradição é uma coisa que se inventa, ou seja, não está ligada ao tempo, mas à questão de ser sólida ou não? 
   
ROSA MAGALHÃES: Tradição é muito importante para que se continue um processo. Acho que as escolas-mirins são importantes para continuar com as escolas de samba. Mas a escola, como desfile, vai mudando, é claro, é uma coisa viva. A gente observa a mudança não em um curto período, mas se você olhar o que era há dez anos, dá pra ver a diferença.

SISSY: As fantasias e alegorias do carnaval de São Paulo estão evoluindo? Você acredita que, um dia, as escolas paulistanas chegarão ao nível das escolas cariocas? 

ROSA MAGALHÃES: Cada uma tem suas características – paulista é paulista, carioca é carioca. Foram os cariocas que inventaram isso, mas existem escolas de samba em mais de cem países, cada qual com suas características. A do Japão, por exemplo, vem todo ano estudar percussão no Rio e depois volta para melhorar o ritmo. A da França queria comprar uns instrumentos usados, mas como não tem exportação, não foi possível. 

ABEL: Hoje, o grande destaque para o público, principalmente o da TV, são as novidades espetaculares nos desfiles. Você acha que essa tendência pode fazer com que os carnavalescos mudem sua forma de fazer carnaval? 

ROSA MAGALHÃES: Sempre que me perguntam qual a novidade eu digo que tudo – madeira é nova, os tecidos são novos até os pregos são novos, tudo novidade… É uma procura por notícias, mas se você analisar, não tem tanta novidade assim…

WALLY: Como foi o seu processo de trabalho com a escola Barroca Zona Sul, aqui em SP, em 2003?

ROSA MAGALHÃES: Desenhei, mas não podia ficar. Então, havia um carnavalesco que realizou o trabalho e, eu soube, teve muitas dificuldades financeiras e até assumiu dívidas da escola. Foi muito difícil. 

PLUMA:  Como você vê as tendências minimalistas ou a dispensa da cenografia do teatro contemporâneo? 

ROSA MAGALHÃES: Minimalista nada. Falta dinheiro mesmo. Tudo é muito caro.