Papo de Teatro com Ricardo Inhan

Publicado em: 04/03/2013

Ricardo Inhan é dramaturgo e roteirista

Como surgiu o seu amor pelo teatro?
Depois dos 15 anos, após os meus primeiros contatos com as obras de Tchekhov.  Primeiro veio o interesse pelo texto dramático, antes de todo o resto.

Lembra da primeira peça a que assistiu?
Não me lembro. Deve ter sido alguma dessas obras ingratas baseadas em algum conto infantil.

Um espetáculo que mudou a sua vida foi…
Todos aqueles que, de uma forma ou de outra, me oferecem a perspectiva da desuniformidade.  Que tratam o teatro como santidade única – aqueles que não se esfarelam com o tempo. Espetáculos como “Isso te Interessa?”, da Companhia Brasileira de Teatro; “As Troianas – Vozes da Guerra”, do Núcleo Experimental; “Amores Surdos”, do Grupo Espanca!, os trabalhos do Luiz Päetow. Todos esses se encontram na ideia da não razão. Do desprendimento do método. E surtem efeito!

Um espetáculo que mudou o seu modo de ver teatro foi…
“Pinokio”, do Club Noir. Destruiu tudo o que tinha “carregado” e “absorvido” durante anos de pesquisa. É uma obra de incrível domínio linguístico, posto a serviço da reinvenção, que me comoveu pela profunda ideia de transformação. Uma epifania.

Cite um espetáculo do qual você gostaria de ter participado. E por quê?
As obras de Carmelo Bene (dramaturgo, ator e encenador Italiano), meu contato com sua pesquisa é de efeito teórico, mas suficiente para movimentar o meu imaginário.

Você teve algum padrinho no teatro? Se sim, quem?
Sim. Pessoas que acreditaram na minha dramaturgia e estão sempre abertas às minhas propostas e textos:  Marici Salomão, Zé Henrique de Paula, Jaqueline Vargas, Yara de Novaes… são alguns desses artistas –fundamentais –, que potencializaram  a minha formação.

Já saiu no meio de um espetáculo? Por quê?
Sim. Já. Mesmo me sentindo “estranho” por isso. Espetáculos que caem no didatismo frouxo, na ideia de mensagem e instrução me tiram do sério.

Teatro ou cinema? Por quê?
Não há escolha. Tanto no teatro quanto no cinema já tive experiências pesadas, verdadeiras, contundentes…

Já assistiu mais de uma vez a um mesmo espetáculo? E por quê?
Muitas vezes. Se causar impacto, se mostrar inovação, se for sincero, revejo.

Qual dramaturgo brasileiro você mais admira? E estrangeiro?
São tantos, mas vou citar aqueles que contribuem para a ampliação de conceitos e merecem ser lidos e relidos como exemplos de radicalidade e atenção a novas possibilidades linguisticas, Harol Pinter, Sarah Kane, Edward Bond, Mark Havenhill e Tracy Lettis são os maiores. Dos brasileiros, Marco Catalão, Grace Passô, Silvia Gomez e Rafael Primot se destacam na construção de ambientes absurdos com efeito cortante, sem a necessidade de eletrizar vulgaridades e disparates corretinhos do décor naturalista.

Qual companhia brasileira você mais admira?
Cia. Brasileira de Teatro, Núcleo Experimental, Club Noir, Espanca!, Razões Inversas

Existe um artista ou grupo de teatro, o qual você acompanhe todos os trabalhos?
Não sei se ‘porque sou mineiro’, mas reconheço uma alteridade e um rigor nas escolhas em todos os espetáculos do Grupo Galpão. Acompanho tudo.

Qual gênero teatral você mais aprecia?
Sem essa de gênero. Um artista ‘de verdade’ opera o inominável. Nas variações de ritmo, na manipulação genuína de tempo, espaço e linguagem.  Teatro é substância de sonho.

Em qual lugar da plateia você gosta de sentar? Por quê? Qual o pior lugar em que você já se sentou em um teatro?
Gosto de ver peças em teatros para poucas pessoas. Onde qualquer lugar escolhido o faz ‘perceber’ tudo.

Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou?
Existe peça ruim quando a mesma se manifesta no poder da identificação, da emoção forçada na base do didatismo, do policiamento, da denúncia furada.

Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos?
Começo a ter vontade de dirigir um espetáculo. Não sei. Talvez quando a coragem chegar, esse será o espetáculo dos sonhos…

Cite um cenário surpreendente.
O de “Memória da Cana”, do Marcelo Andrade e do Newton Moreno

Cite uma iluminação surpreendente.
A de Fran Barros para “Mormaço”, espetáculo de minha autoria e que Zé Henrique de Paula dirigiu. Pela destreza e compreensão.

Cite um ator que surpreendeu suas expectativas.
Julio Adrião em “A Descoberta das Américas” e a atriz Inês Aranha em “As Troianas – Vozes da Guerra”.

O que não é teatro?
O gratuito. O motivacional. O identificável sem desvios.

A ideia de que tudo é válido na arte cabe no teatro?
Desde que seja verdadeiro. Que se imponha como confronto.

Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro?
Teatro é experiência.  Vive cada vez melhor e continuará.

Em sua biblioteca não podem faltar quais peças de teatro?
Os textos de H. Pinter, Sarah Kane, Beckett, Tchekhov, Nelson Rodrigues… os textos dos meus colegas/amigos/artistas do Núcleo de Dramaturgia Sesi/British Council… E sempre recorro ao Buchner.

Cite um diretor (a), um autor (a) e um ator/atriz que você admira.
Muitos.  Marcio Abreu, Zé Henrique de Paula, Roberto Alvim, Pedro Stempniewski, Eric Lenate, Luiz Paetow, Denise Weinberg, Noemi Marinho, Sandra Corveloni

Qual o papel da sua vida?
Não sou ator. Mas Woyzeck vive aqui.

Uma pergunta para William Shakespeare, Nelson Rodrigues, Bertolt Brecht ou algum outro autor ou personalidade teatral que você admire.
Para Harold Pinter: “Como chegar a uma dramaturgia que quebra com um martelo qualquer razão?”.

O teatro está vivo?
Ontem, hoje e sempre. Amém!