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Papo de Teatro com Newton Moreno

Publicado em: 06/12/2010

Newton Moreno é Autor, diretor e ator.

 

Como surgiu o seu amor pelo teatro?

 

 

 

 

 

Quando vi os artistas populares em Pernambuco.

 

Lembra da primeira peça a que assistiu? Como foi?

Circo mambembe, interior de Pernambuco, repleto de números musicais e ‘gags’; não me recordo o título, foi puro encanto. No teatro profissional, não me lembro da primeira peça. Com certeza, foi em Recife, creio que “O Balcão”.

 

Qual foi a última montagem que você viu?

“Donka”, uma belíssima homenagem à delicadeza.

 

Um espetáculo que mudou o seu modo de ver o teatro.

“A Trilogia Tebana”, do Andrei Serban e “Primeiras Estórias”, de João das Neves.

 

Um espetáculo que mudou a sua vida.

“Primeiras Estórias”; eu mudei a chave das minhas questões artísticas nesse trabalho.

 

Você teve algum padrinho no teatro? Se sim, quem?

Várias pessoas importantes. Mas o meu padrinho foi o dramaturgo e diretor Luiz Felipe Botelho, de Recife, que foi meu primeiro diretor no teatro amador da cidade. Depois, vários mestres na Unicamp, Marcio Aurélio, Maria Thais, Sílvia Fernandes, Verônica Fabrini…

 

Já saiu no meio de um espetáculo? Por quê?

Nunca.

 

Teatro ou cinema? Por quê?

Teatro. Porque quero sentir a respiração do ator e da plateia tentando se harmonizar, dividir a experiência, partilhar o risco. 

 

Cite um espetáculo do qual você gostaria de ter participado. E por quê?

“Besouro Cordão de Ouro”. Para trabalhar de novo com o João das Neves… Adoro o modo como o espetáculo está no trabalho corporal daqueles atores.

 

Já assistiu mais de uma vez a um mesmo espetáculo? E por quê?

Sim, porque o espetáculo era generoso e sempre me permitia novos canais de leitura. “Vem Buscar-me que ainda Sou Teu” é um deles. Amava o texto, a encenação, os atores, foi uma das primeiras experiências de um conjunto tão harmônico…

 

Qual dramaturgo brasileiro você mais admira? E estrangeiro? Explique.

Há vários. Vou falar dos desencarnados. Nelson pela coerência e singularidade de sua obra.

Estrangeiro, Bernard-Marie Koltès, pela radicalidade.

 

Qual companhia brasileira você mais admira?

O Galpão, porque sabem se manter fiel à pesquisa de um teatro popular, de rua e, ao mesmo tempo, sabem a hora de se arriscar em outras esferas.

 

Existe um grupo ou companhia de teatro que você acompanhe todos os trabalhos?

O Galpão e a Cia. dos Atores. São grupos que estão juntos há um bom tempo. Gosto de ver o que os mantém em sintonia artística e como se redescobrem.

 

Qual gênero teatral você mais aprecia?

Todos. Mas tenho admiração especial pelos comediógrafos.

 

Qual lugar da plateia você costuma sentar? Por quê? Qual o pior lugar em que você já se sentou em um teatro?

Adoro ficar bem ao fundo, para ter uma visão do todo, da plasticidade, da pintura em movimento e ver a reação da plateia também.

 

Fale sobre o melhor e o pior espaço teatral que você já foi ou já trabalhou?

O melhor cenário para uma peça em que estava envolvido foi o casarão abandonado onde fizemos “Assombrações do Recife Velho”, em São José do Rio Preto. Quem o descobriu foi o Jorge Vermelho.

 

Já assistiu a alguma peça documentada em vídeo? O que acha do formato?

Muitas da Ariane Mnouchkine. Gosto quando ela consegue preservar a teatralidade, mas organiza uma filmagem, pensando a linguagem do cinema. Difícil, mas quando funciona…

 

Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou?

O encenador se equivocou se escolheu uma peça ruim. Se alguém escolhe um texto deve saber bem e sentir bem onde aquele texto o mobiliza.

 

Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos?

Na Floresta Amazônica, “Rei Lear”, com Cacá Carvalho e alguma tribo indígena…

 

Cite um cenário  surpreendente.

Márcio Medina em “Sacromaquia”.

 

Cite uma iluminação  surpreendente.

Alessandra Domingues em “Assombrações do Recife Velho”.

 

Cite um ator que surpreendeu suas expectativas.

Paulo Autran em “O Avarento”. Obviamente, admirava toda a trajetória do Paulo Autran, mas naquela época, ele parecia de uma fragilidade fora de cena e dominava a todos nós quando entrava no palco.  Minha admiração por ele quintuplicou.

 

O que não é teatro?

Aquilo que desconsidera o público.

 

Que texto você foi ler depois de ter assistido a sua encenação?

“Na Solidão dos Campos de Algodão” e tudo a que tive acesso do Koltès.

 

A ideia de que tudo é válido na arte cabe no teatro?

Para mim, não.

 

Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro?

Usar a tecnologia para falar da experiência humana.

 

O teatro é uma ação política? Por quê?

Sim, o bom teatro muda nossa visão do mundo, mostra o invisível, nos faz querer ser melhores, nos impulsiona a agir e tomar atitudes.

 

Quando a estética se destaca mais do que o texto e os atores?

Para mim, o teatro começa na ideia-provocação de um autor-texto e em como esta ideia habita um ator e seu imaginário. O resto acompanha esse casamento. Quando esse casamento não acontece, uma vestimenta estética pode tentar mascarar, mas já perdemos a possibilidade da grande descoberta…

 

Qual encenação lhe vem à memória agora? Alguma cena específica?

“Melodrama”,  da Cia. dos Atores.

 

Em sua biblioteca não podem faltar quais peças de teatro?

“Medeia”, “Hamlet”, “A Gaivota”, “Quartett”, “O Inspetor Geral”, “Álbum de Família”, “Vereda da Salvação”…

 

Cite um diretor (a), um autor (a) e um ator/atriz que você admira.

Diretor, Ariane Mnouchkine; autor, Alcides Nogueira e Naum Alves de Souza; atriz, Denise Weinberg.

 

Qual o papel da sua vida?

Próspero e Elizabeth I (Mary Stuart).

 

Uma pergunta para William Shakespeare, Nelson Rodrigues, Bertold Brecht ou algum outro autor ou personalidade teatral que você admire.

Nelson querido, você já teve febre escrevendo um texto?

 

O teatro está vivo?

Quando eu penso que toda noite, em vários lugares do mundo, algum ator está se preparando para entrar em cena, eu me sinto vivo.