Papo de Teatro com Mateus Solano

Publicado em: 27/09/2010

Mateus Solano ator, nascido em Brasília em 20 de março de 1981.

 

Como surgiu o seu amor pelo teatro?

 

Foi aos poucos. Quanto mais eu ia entendendo o teatro (como arte e como espaço cênico), mais apaixonado ficava. A cada peça que assistia, cada coxia que visitava, cada aula que fazia na escola, mais interessado.

 

 Lembra da primeira peça a que assistiu? Como foi?

 

Não tenho certeza, mas acho que foi em 1984, nos Estados Unidos. Era uma peça sobre um homem que morava na floresta, o Harry Man (tipo um Pé Grande). Lembro que meu pai me contava essa história à noite e eu levava vários sustos. Nunca esqueci… Acho que essa é a intenção do
teatro: um momento efêmero que fica na cabeça pra sempre.

 

Qual foi a última montagem que você viu?

 

“Savana Glacial”, texto de Jô Bilac e direção de Renato Carrera (dois grandes amigos). Interessante, porque foi no Glaucio Gill, teatro onde estreei, em 1996.

 

Um espetáculo que mudou o seu modo de ver o teatro.

 

São muitos. Acho que esse é um dos objetivos de um espetáculo de teatro: surpreender o espectador. Uma peça que me surpreende muda não só meu modo de ver teatro, mas de olhar para mim mesmo e para o mundo em que vivo. Grandes encenadores têm essa capacidade de surpreender e se reinventar constantemente. Peças do Zé Celso, do Paulo de Morais, do Kike Dias, do Felipe Hirsch, da Ariane Mnouchkine, do Peter Brook ou do Jefferson Miranda já me fizeram mudar algumas vezes meu modo de ver o teatro.

 

Um espetáculo que mudou a sua vida.

 

“Cacilda!”,do Zé Celso, com o Grupo Oficina Uzyna Uzona.

 

Você teve algum padrinho no teatro? Se sim, quem?

 

Não tive padrinhos não. Minha paixão pelo ofício foi meu maior incentivo sempre.

 

Já saiu no meio de um espetáculo? Por quê?

 

Nunca. Já senti muita vontade, mas acho desrespeitoso com quem está no palco ao vivo. Por mais que o espetáculo seja ruim, acho que o ator sempre se esforça. Afinal é ele quem aparece diante do público, não o diretor.

 

Teatro ou cinema? Por quê?

 

Ambos! Cada um no seu quadrado. São meios diferentes onde posso fazer o que realmente prefiro: representar.

 

Cite um espetáculo do qual você gostaria de ter participado. E por quê?

 

Gostaria de ter participado da montagem de “Hoje É Dia de Rock” (José Vicente), em 1970, no Teatro Ipanema. Foi um verdadeiro “espetáculo-comunhão”. As pessoas se vestiam de branco, levavam incensos, eram recepcionadas pelos atores com flores na porta do teatro e viviam uma verdadeira experiência de reflexão e liberdade, numa época em que a arte tinha uma função bem mais contundente do que hoje.

 

Já assistiu mais de uma vez a um mesmo espetáculo? E por quê?

 

Já, várias vezes e por motivos diversos. Normalmente assisto duas vezes quando acho que o espetáculo ainda tem mais a me dizer, ou então me disse tanto que preciso rever para organizar o que vivi. Quando era adolescente e gostava de um espetáculo, assistia inúmeras vezes. Meu recorde foi quando assisti 13 vezes à montagem do Domingos de Olivera de “A Alma Boa de Setsuan”, de Brecht.

 

Qual dramaturgo brasileiro você mais admira? E estrangeiro? Explique.

 

Acho que o Nelson Rodrigues é um autor teatral inigualável, pela radiografia social que fez do homem brasileiro. Vianinha também era incrível ao misturar tão bem poesia com política e os ideais de um homem insatisfeito. Trabalhei com muitos autores contemporâneos e poucos textos clássicos. Mas, como adoro o teatro do absurdo, cito aqui o Eugène Ionesco.

 

Qual companhia brasileira você mais admira?

 

Atualmente o Grupo Espanca!, de Belo Horizonte, faz um trabalho contemporâneo muito sensível que me toca como espectador e artista.

 

Existe um grupo ou companhia de teatro que você acompanhe todos os trabalhos?

 

Não, mas gostaria. Gostaria de acompanhar o trabalho de muitas companhias como a dos Atores, o Galpão e o Armazém, por exemplo.

 

Qual gênero teatral você mais aprecia?

 

Gosto do teatro que faz pensar sem ser chato. Por isso pode ser um dramalhão ou um besteirol, não importa. Contanto que eu saia dali querendo falar, discutir a peça com outras pessoas.

 

Qual lugar da plateia você costuma sentar? Por quê? Qual o pior lugar em que você já se sentou em um teatro?

 

Não tenho preferência, depende de como estou no dia. Já assisti de todos lugares possíveis (inclusive da coxia ou da cabine de luz e som), mas o pior lugar foi atrás de uma pilastra!

 

Fale sobre o melhor e o pior espaço teatral que você já foi ou já trabalhou?

 

O melhor teatro em que já trabalhei foi na FAAP, em São Paulo. Não só as instalações eram impecáveis como também toda a equipe técnica. Acho que o teatro tem que virar uma família da qual todos os integrantes são importantes, do faxineiro ao diretor. E isso eu vi na FAAP, com “Hamlet”.

O pior espaço em que já trabalhei foi numa sala da UNI-Rio (antes da reforma feita no início da década). A peça era feita literalmente entre escombros (que nada tinha a ver com o cenário). A Universidade de teatro no Rio merece mais atenção, respeito e incentivo.

 

Já assistiu a alguma peça documentada em vídeo? O que acha do formato?

 

Teatro filmado costuma ser muito ruim, salvo quando é feito para o formato. Quando um diretor de documentário, por exemplo, resolve filmar o processo de uma peça, ele tem a liberdade de passear com a câmera entre os atores dentro do palco. Ele acaba fazendo uma obra de arte em cima de outra obra. Aí o resultado costuma ser muito bom.
Outras vezes o próprio diretor do espetáculo quer transformá-lo para o formato cinematográfico, como é o caso de alguns espetáculos do Théâtre Du Soleil. Mas filmar um espetáculo em plano sequência, da plateia e todo em geral, é muito chato!

 

Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou?

 

Existe peça ruim sim. Mas, nesse caso, é dever do encenador transformá-la numa peça boa, através de seu ponto de vista.

 

Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos?

 

O espetáculo teria de tudo: comédia, drama, tragédia, realidade, ficção… Singelo e catártico ao mesmo tempo! Seria absolutamente surpreendente e faria o espectador sair de lá com necessidade genuína de rever seus conceitos sobre si e sobre o mundo em que vive. Se passaria na cabeça de cada um. E no elenco só ia entrar gente boa!

 

Cite um cenário surpreendente.

 

“O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo”, peça que fiz, com direção de Jefferson Miranda, em 2006. O cenário eram ilhas suspensas no meio da sala, por onde os atores passeavam. Entre as ilhas ficavam os espectadores. No meio da sala surgia uma enorme cerejeira cuja copa alcançava todos os cantos do teatro. Era lindíssimo.

 

Cite uma iluminação surpreendente.

 

“Tudo é Permitido”, peça que fiz, com direção de Tato Consorti, em 2005.
Fios com luzes desciam do teto e mergulhavam em baldes com água e um  espelho no fundo que refletia as cores.

 

Cite um ator que surpreendeu suas expectativas.

 

Julio Adrião, em “Descoberta das Américas”.

 

O que não é teatro?

 

Alguma coisa que nenhuma pessoa nunca viu nem experienciou. O resto é teatro.

 

Que texto você foi ler depois de ter assistido a sua encenação?

 

Não me lembro agora… mas é uma experiência muito legal quando isso acontece.

 

A ideia de que tudo é válido na arte cabe no teatro?

 

Acho complicado afirmar isso. Quando você pinta um quadro ofensivo, por exemplo, eu não sou obrigado a ficar olhando para ele por uma hora e meia. Acho que o encenador deve pensar no público em primeiro lugar. Até porque não adianta nada dizer o que a gente quer numa peça se ninguém quis ouvir nem pensar nem experienciar. Há de se saber comunicar através do palco.

 

Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro?

 

Interação. Se a tecnologia hoje faz parte da vida, ela também faz parte do teatro. Nada jamais pode substituir a interação real, presente, que é feita entre o ator e o espectador de teatro.

 

O teatro é uma ação política? Por quê?

 

Teatro é opinião sobre o mundo em que vivemos. Neste, e em vários outros sentidos, ele é político sim, necessariamente.

 

Quando a estética se destaca mais do que o texto e os atores?

 

Quando o espectador sai do teatro falando mais dela do que destes.
Quando a intenção do encenador é essa, ótimo. Quando não é… é bem ruim.

 

Qual encenação lhe vem à memória agora? Alguma cena específica?

 

Uma das cenas mais emocionantes que fiz até hoje volta sempre na minha cabeça. Como Horácio, assistindo à morte de Hamlet nos meus braços, no fim da peça. “Agora, arrebenta um nobre coração. Boa noite, doce príncipe. E que revoadas de anjos cantem pra ti em teu descanso…”

 

Em sua biblioteca não podem faltar quais peças de teatro?

 

Todas do Nelson (Rodrigues)!

 

Cite um diretor (a), um autor (a) e um ator/atriz que você admira.

 

Jefferson Miranda, Caio Fernando Abreu, Otávio Müller.

 

Qual o papel da sua vida?

 

O de Mateus Solano.

 

Uma pergunta para William Shakespeare, Nelson Rodrigues, Bertolt Brecht ou algum outro autor ou personalidade teatral que você admire.

 

Seu William Shakespeare, será que o senhor não podia explicar a certas pessoas que seu teatro era popular em sua época? É que tem muita gente aí complicando e tornando seus textos cada vez mais difíceis de serem entendidos pelo povo…

 

O teatro está vivo?

 

O teatro está vivíssimo. Cada vez que a gente sente vontade de dizer alguma coisa e diz, o teatro está lá. Quando queremos fazer algo e não fazemos com medo de alguém não gostar, é do teatro que somos vítimas.

E quando cumprimos cada uma das nossas obrigações sociais diárias também estamos cumprindo convenções teatrais. Portanto o teatro só morre quando morremos nós.