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Papo de Teatro com Mário Viana

Publicado em: 23/05/2011

Mário Viana é dramaturgo

 

Como surgiu o seu amor pelo teatro?

Difícil dizer. Gosto desde a adolescência, quando fazíamos peças no colégio do Estado… ou até mesmo à sombra da Igreja Católica, nos anos 70. Havia vários grupos na Zona Norte de São Paulo, que faziam autos de Natal e peças de temática política (vivíamos o período da ditadura e a Teologia da Libertação compensava). O teatro virou, para mim, uma forma de fincar pé na liberdade. Acho que é assim até hoje.

 

Lembra da primeira peça a que assistiu? Como foi?

Tem várias primeiras peças. Na igreja, vi uma adaptação livre e pirata de “Liberdade, Liberdade”, Flávio Rangel e Millôr Fernandes. Com o colégio do Estado fomos ver uma montagem do drama português “O Duelo”, de Bernardo Santareno, onde uma atriz morena chamada Denise Stocklos roubava a cena como feiticeira. E a primeira peça para a qual comprei ingresso com meu próprio dinheiro foi “Os Efeitos do Raio Gama nas Margaridas do Campo”, estrelada pela Nicette Bruno e filhas, no Teatro Municipal. Arrasador. Foram espetáculos que deixaram forte impressão no meu espírito.

 

Um espetáculo que mudou o seu modo de ver o teatro.

“O Livro de Jó”, do Luís Alberto de Abreu, montado pelo Vertigem. Foi um espetáculo que mexeu comigo, me fez chorar muito e, ao mesmo tempo, saborear cada sílaba. A beleza e a dor convivem juntas, ensinou-me o Antônio Araújo.

 

Um espetáculo que mudou a sua vida.

“Pano de Boca”, do Fauzi Arap. Foi a peça que vi, em 1977, e que me deixou apaixonado de vez pelo teatro. Era um espetáculo mágico, Célia Helena flutuava em cena, Nuno Leal Maia arrasava como um palhaço imaginário. Essa peça e o show “Falso Brilhante”, da Elis Regina, em 1976, foram fundamentais para mudar a minha cabeça adolescente. Eu entrei um e saí outro desses espetáculos. Não sei explicar racionalmente, foi assim. 

 

Você teve algum padrinho no teatro? Se sim, quem?

Luís Alberto de Abreu foi meu professor de dramaturgia numa oficina iniciada no CPT, do Sesc, em 1986. Desde então, considero o Abreu mais que um padrinho ou um guru. Ele me ensinou a encarar o teatro, a enfrentar a fera, a lidar com isso de criar. Me deu asas.

 

Já saiu no meio de um espetáculo? Por quê?

Já, no Festival de Curitiba. No Fringe entra muita porcaria. E eu detesto teatro mal feito. Acho uma ofensa pessoal.

 

Teatro ou cinema? Por quê?

Teatro “e” cinema! Não consigo separar as artes, nem desvinculá-las. Gosto de bom teatro e de bom cinema. Gosto de boa teledramaturgia. Gosto de arte que emociona, pelo choro ou pelo riso.

 

Cite um espetáculo do qual você gostaria de ter participado. E por quê?

Talvez a estreia de “Vestido de Noiva”, nos anos 40, dirigido pelo Ziembinski. Não sei.

 

Já assistiu mais de uma vez a um mesmo espetáculo? E por quê?

Além dos meus? Já, sim. Porque gostei, primeiramente. Ninguém aguenta ver várias vezes uma coisa chata. “Amor do Não”, do Fauzi Arap, nos anos 70, vi umas três vezes, adorava. ppp@wlh.shkpr.com.br, dos Parlapatões, eu amava, vi diversas vezes. Tantas outras…

 

Qual dramaturgo brasileiro você mais admira? E estrangeiro? Explique.

Dos idos, tenho paixão por Nelson Rodrigues e Martins Pena. Pelos diálogos afiados, que fingem reproduzir o naturalismo, mas são de um requinte absurdo. Dos novos, há vários que sigo o trabalho, mas prefiro não falar, para não ferir os não-citados. E dos gringos… Dürrenmatt, mestre absoluto. Gosto de coisas da Yasmine Reza, do Rafael Spregelburd, do Jean-Luc Lagarce e de alguns ingleses.

 

Qual companhia brasileira você mais admira?

Não tem uma ou outra, admiro várias. Galpão, Parlapas, Armazém, Satyros, Tapa, Vertigem. Cada uma faz seu trabalho e arrebanha público para as nossas peças. Digo “nossas”, porque o teatro é de todo mundo que faz.

 

Existe um artista ou grupo de teatro do qual você acompanhe todos os trabalhos?

Parlapatões, claro. Amigos, companheiros de vários trabalhos, são bons até quando não gosto totalmente do resultado. Fazem, dão a cara a tapa. Isso é que conta. Eles avançam a linha do que é considerado comédia, injetam inteligência e crítica, ensinam muito a quem quer trabalhar com comédia. 

 

Qual gênero teatral você mais aprecia?

O bem feito, apresentado com paixão, respeito pela inteligência do espectador. Tanto faz ser comédia, drama ou musical, comercial ou alternativo. Tem de ter tesão e respeito por si e por quem vê.

 

Em qual lugar da plateia você gosta de sentar? Por quê? Qual o pior lugar em que você já se sentou em um teatro?

Primeiramente, eu gosto de me sentar – essa coisa de espetáculo itinerante é bacaninha, mas me cansa. Gosto das quintas fileiras, dá para ter noção do todo. E o pior lugar foi uma arquibancada no Sesc, para ver “Ensaio sobre a Gaivota”, aquele passo em falso da normalmente excelente Cia. dos Atores. O lugar era tão desconfortável (havia uma mina gorda, folgada, que se sentou à índia e ocupou dois lugares) que me tirou o poder de concentração. Contei cada minuto para acabar aquela tortura.

 

Fale sobre o melhor e o pior espaço teatral que você já foi ou já trabalhou?

O Sesc Anchieta é bom de assistir espetáculo e de fazer, também. O Satyros 2 desperta todos as minhas paranóias incendiárias.

 

Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou? 

Existem as duas coisas, peça ruim e diretor equivocado. Quando se juntam, é uma tristeza. Mas há direções que não entendem um texto, não sabem conduzir os atores. E há textos que não deveriam ter saído do cérebro de seus autores… 

 

Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos?

O espetáculo dos meus sonhos é sempre o próximo. Com plateia satisfeita e placa na bilheteria: Esgotado.

 

Cite um cenário surpreendente.

Os locais que o Tó Araújo descobre para as suas montagens. O Hospital Matarazzo era um soco. O presídio, outro. Em palco italiano, era inesquecível o cenário transparente que o J. C. Serroni criou para “Paraíso Zona Norte”, o Nelson Rodrigues que o Antunes Filho dirigiu.

 

Cite uma iluminação surpreendente.

Não saberia citar agora… Tem tantas coisas tão lindas feitas por mestres como Wagner, Domingos, etc.

 

Cite um ator que surpreendeu suas expectativas.

Eu acho meio ofensivo dizer que um ator surpreende… quer dizer que a gente não esperava nada dele. Mas, sendo menos chato, eu diria que a Karin Rodrigues quebrou minhas pernas quando fez “Vestir o Pai”, em 2003. Ela se despojou dos ares de mulher elegante, que tem, e surgiu em cena largada, puxando o elástico da calcinha, arrastando os pés. Era uma composição primorosa e considero uma das maiores injustiças das “comissões” dos prêmios não ter sequer citado a atriz em suas listas. Prova apenas a birra que esses especialistas têm com comédia.

 

O que não é teatro?

Terapia de grupo não é. Neguinho vir pro palco apenas para contar dos probleminhas dele… Teatro é sagrado, exige dedicação, atenção. Você pode lavar sua roupa suja em cena – mas faça uma belíssima cena, diálogos ricos, atuações soberbas. Não use o palco para se vingar, isso diminui.

 

A ideia de que tudo é válido na arte cabe no teatro?

Cabe em qualquer arte. O que não pode é obrigar todo mundo a gostar de suas teorias.

 

Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro?

Enquanto lidar com seres humanos, o teatro tem futuro. Muda a mídia, o teatro se adapta. E continua.

 

Em sua biblioteca não podem faltar quais peças de teatro?

As do Nelson Rodrigues, algumas do Dürrenmatt, do Martins Pena, do Shakespeare, “Édipo Rei”, as peças do Abreu, do Jorge Andrade, do Tennessee Williams, do Arthur Miller… é um mundo.

 

Cite um diretor (a), um autor (a) e um ator/atriz que você admira.

Gosto de muitos trabalhos do diretor Enrique Diaz. 

Gostei de várias coisas que assisti do Jô Bilac e do João Fábio Cabral.

Gosto de ver o Pedro Guilherme em cena, me dá sempre a impressão de ter uma força que nem ele mesmo faz ideia. Gosto de Denise Weinberg, muito, muito. 

 

Qual o papel da sua vida?

Sulfite. Em alguns momentos, o Neve.

 

Uma pergunta para William Shakespeare, Nelson Rodrigues, Bertold Brecht ou algum outro autor ou personalidade teatral que você admire. 

Seu William, o senhor escrevia de olho e ouvido atentos à plateia, fez sucesso com risos e lágrimas. Mas até hoje é lembrado mais pelas tragédias do que pelas ótimas comédias. Alguma mágoa por isso?

 

O teatro está vivo?

Alguém disse o contrário? Se disser, interna.