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Papo de Teatro com Luiz Valcazaras

Publicado em: 11/04/2011

Luiz Valcazaras é diretor e dramaturgo.

 

Como surgiu o seu amor pelo teatro?
Ainda em Itapeva, interior de São Paulo, meu pai tinha um cinema, cresci assistindo e interpretando no quintal de casa. Depois entrei para um grupo e pela primeira vez me senti “pleno” em algum lugar.

 

Lembra da primeira peça a que assistiu? Como foi?
Como disse, além das imagens do cinema, eu cresci com a cultura circense muito presente na infância. Depois, em São Paulo, “Macunaíma” foi a primeira peça que vi, no Teatro Municipal. O encontro com o trabalho vertical de Antunes Filho foi determinante na minha profissão.

 

Qual foi a última montagem que você viu?
“O Amor e Outros Estranhos Rumores”, adaptação de textos de Murilo Rubião. Com a excelente direção de Yara de Novaes e o brilhantismo dos atores Rodolfo Vaz, Maurício de Barros, Priscila Jorge e, definitivamente, Débora Falabella.  Uma atriz de teatro!

 

Um espetáculo que mudou o seu modo de ver o teatro.
“Meu Tio, O Iauaretê”, com Cacá Carvalho.

 

Um espetáculo que mudou a sua vida.
Desculpem-me, mas em se tratando de mudança de vida, ter conhecido Dra. Nise da Silveira, para a montagem de  “Anjo Duro”, com Berta Zemel,  não poderia por mim deixar de ser citado.

 

Você teve algum padrinho no teatro? Se sim, quem?
Não. Mas devo muito pelas conversas intermináveis com Rubens Rusche.

 

Já saiu no meio de um espetáculo? Por quê?
Sim. Pela má qualidade do trabalho.

 

Teatro ou cinema? Por quê?
Duas Linguagens e a certeza onírica de que duas paralelas se cruzam.

 

Cite um espetáculo do qual você gostaria de ter participado. E por quê?
“Concerto de Ispinho e Fulô”. Pela pesquisa de linguagem e por ser um dos espetáculos mais interessantes que já vi.

 

Já assistiu mais de uma vez a um mesmo espetáculo? E por quê?
 “Artaud”, com Rubens Corrêa. Porque além de ser um espetáculo ímpar era também uma aula para nós artistas.

 

Qual dramaturgo brasileiro você mais admira? E estrangeiro? Explique.
Nelson Rodrigues pela complexidade de sua obra.
Arístides Vargas, do grupo equatoriano “Malayerba”, por trabalhar com signos relacionado à memória.

 

Qual companhia brasileira você mais admira?
Cia. do Atores.

 

Existe um grupo ou companhia de teatro que você acompanhe todos os trabalhos?
Cia. Livre, Cia. dos Atores, CPT, Cia.São Jorge de Variedades, Cia. do Latão, Teatro da Vertigem, Lume, Espanca, Companhia de Teatro Os Satyros.

 

Qual gênero teatral você mais aprecia?
Drama.

 

Qual lugar da plateia você costuma sentar? Por quê? Qual o pior lugar em que você já se sentou em um teatro?
No Italiano, prefiro estar mais afastado para ter uma visão do quadro preenchido na boca de cena. No arena…. perto da saída.
Tive dificuldades em alguns lugares do Municipal e alguns da Faap por não ter uma boa visão da platéia. E o pior lugar?  Todos do Teatro Oficina.

 

Fale sobre o melhor e o pior espaço teatral que você já foi ou já trabalhou?
Os melhores foram Teatro Municipal e Sesc Consolação. Os piores foram os da Prefeitura antes de algumas reformas.

 

Já assistiu a alguma peça documentada em vídeo? O que acha do formato?
Sim. Como documentação há novas experiências de transposição de linguagens que estão sendo bem-vindas.  Depois de Lars von Trier, acho que a transferência de linguagens achou o caminho.

 

Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou?
As duas alternativas, mas também existe peça ruim com diretor equivocado.

 

Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos?
Isso esta parecendo aquelas perguntas sobre uma ilha deserta. Então ficaria lendo “Além das Ilhas Flutuantes”, do Eugenio Barba.

 

Cite um cenário  surpreendente.
Toda criação do Josef Svoboda.

 

Cite uma iluminação surpreendente.
Todas do Guilherme Bonfanti.

 

Cite um ator que surpreendeu suas expectativas.
Marcello Antony no palco com direção do Gabriel Villela.

 

O que não é teatro?
Comédia stand-up.
 
 

A idéia de que tudo é válido na arte cabe no teatro?
Olha, para quem faz, sim. Agora, para quem assiste, não.

 

Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro?
A comunhão.

 

O teatro é uma ação política? Por quê?
Sim. Segundo a filosofia aristotélica a política é a ciência que tem por objeto a felicidade humana.  Não. Se considerar o que esta aí como política.

 

Quando a estética se destaca mais do que o texto e os atores?
Se os atores e o texto são bons, não vejo problema tendo a estética como destaque do sublime. Agora, quando se usa a supervalorização de elementos cênicos diante de um elenco sem competência e um texto medíocre, acho catastrófico. Já vi muito isso sendo usado para justificar prêmios e patrocínios de valores exorbitantes.

 

Qual encenação lhe vem à memória agora? Alguma cena específica?
 “Corpo de Baile”, inspirado em Guimarães Rosa, direção de Ulysses Cruz.

 

Em sua biblioteca não podem faltar quais peças de teatro?
Todas as tragédias gregas.
Cite um diretor (a), um autor (a) e um ator/atriz que você admira.
Diretor, Enrique Diaz. Autor, August Strindberg. Ator, Matheus Nachtergaele. Atriz,  Georgette Fadel.

 

Qual o papel da sua vida?
Fausto.

 

Uma pergunta para William Shakespeare, Nelson Rodrigues, Bertold Brecht ou algum outro autor ou personalidade teatral que você admire.

• Bardo, você vai dar algum workshop???
• Nelson, você ainda acha que o brasileiro só é solidário no câncer?
• Brecht, o que você achou de “Dogville”?

 

O teatro está vivo?
Ele morre a cada encenação e renasce a todo terceiro sinal.