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Papo de Teatro com Lucianno Maza

Publicado em: 31/01/2011

Lucianno Maza é dramaturgo, ator e diretor.

 

Como surgiu o seu amor pelo teatro?

Quando eu era criança, no Rio de Janeiro, minha mãe tinha como hábito me levar para assistir a espetáculos infantis ao menos uma vez por mês. Da minha turma de escola, eu era um dos poucos que tinha essa rotina de frequentar o teatro desde muito cedo e preferia sentar numa plateia a ir a parques de diversões ou ao cinema. O fato dos atores estarem ali, vivos e convivendo comigo, me fascinava. Este hábito da minha mãe fez o teatro desde cedo pertencer ao meu mundo e comecei a amá-lo assim, de pequeno, de sempre. Por isso, apesar de nunca ter trabalhado diretamente com ele, acho que o teatro infantil talvez seja o mais importante de todos e admiro quem se dedica a pesquisar essa linguagem. O teatro sempre foi muito natural pra mim e minha escolha profissional por ele me parece uma consequência disso.

Lembra da primeira peça a que assistiu? Como foi?

Dos vários espetáculos que assisti quando era criança, muito provavelmente a primeira peça foi uma montagem de Natal, voltada para o público infantil, dirigida por um mestre apaixonado nesta área, Carlos Henrique Casanova, amigo da minha madrinha e primeiro homem de teatro que conheci.

Qual foi a última montagem que você viu?

A montagem que assisti mais recentemente foi o interessante “Adiós Ayacucho”, do ótimo grupo peruano Yuyachkani, no Festival Latino-Americano de Teatro da Bahia 2010.

Um espetáculo que mudou o seu modo de ver o teatro.

Felizmente vários espetáculos me fizeram sair deles encarando o teatro de um modo diferente. Cada vez que isso acontece é algo surpreendente, que de certa forma aterroriza, fazendo repensar as crenças que temos, mas, principalmente, instiga com as novas possibilidades que se apresentam à nossa frente. Por exemplo, os primeiros trabalhos que assisti da Cia. Teatral do Movimento, do Rio de Janeiro, quando conheci a diretora Ana Kfouri.

Um espetáculo que mudou a sua vida.

Assim como vários espetáculos mudaram a forma de entender alguma coisa dentro do teatro, outros tantos me fizeram repensar alguns pontos da minha vida. Não sei se algo mudou nela a partir disso, mas certamente muitas vezes inicia-se uma reflexão neste sentido.

Você teve algum padrinho no teatro? Se sim, quem?

Não exatamente. Tive alguns “anti-padrinhos”, isso sim (risos). Pessoas que atrapalharam meu início no teatro. Mas apesar delas e pela colaboração de outras maravilhosas que cruzaram meu caminho, ao longo desses 10 anos de carreira, estou aqui. Então, agradeço muito a estas pessoas que lá atrás acreditaram e apostaram na minha vocação. Os professores e diretores que me ajudaram nos espetáculos em que atuei, os atores que se entregaram com paciência à minha direção, quando eu ainda estava aprendendo este ofício, aos outros que falaram com paixão os meus primeiros textos.

 

Já saiu no meio de um espetáculo? Por quê?

Essa é uma pergunta polêmica, até pelo trabalho de crítica teatral que faço em paralelo à dramaturgia e direção. Por um lado existe uma necessidade de respeitar os artistas que apresentam uma peça, mesmo que ela te dê vontade de levantar e ir embora, por outro é extremamente angustiante ficar num lugar que você já gostaria de ter saído e acredito que isso até atrapalhe a fruição do espetáculo. Então, sim, algumas raras vezes em que absolutamente nada me prendia a uma montagem e não conseguia mais suportá-la, me retirei da forma mais discreta possível – enquanto em outras tantas, para não atrapalhar os atores, me mantive.

Teatro ou cinema? Por quê?

O cinema tem um poder imbatível: é o mais distante, existe uma tela, efeitos, cortes e o tempo entre nós e, ainda assim, é nele que mais acreditamos (basta ver a força e sucesso do realismo no cinema). Adoro assistir a filmes e ainda espero fazê-los. Entretanto, a resposta será o teatro, porque ele faz parte de mim de uma maneira inseparável.

Cite um espetáculo do qual você gostaria de ter participado. E por quê?

Como ator, eu gostaria de ter participado de um espetáculo revolucionário e anárquico como foi “Roda Viva”, dirigida pelo Zé Celso, por exemplo. Como autor e diretor, não consigo responder porque apesar de ter alguns textos que gostaria muito de ter escrito ou encenado, se as montagens a que assisti deles me deram vontade de fazê-los, foi muito justamente pelo trabalho dos autores e diretores que de fato os fizeram.

Já assistiu mais de uma vez a um mesmo espetáculo? E Por quê?

Geralmente algo que gostamos muito quando vimos pela primeira vez perde parte de seu encanto quando revemos. Até porque, na segunda vez, como sabemos o que nos aguarda, não temos mais a surpresa e sendo profissional da área acaba-se percebendo os detalhes técnicos e encontrando problemas. No entanto, alguns espetáculos especiais nos causam um efeito inverso nos fornecendo ainda mais subsídios para gostarmos deles. É como o livro querido que nos faz retornar a ele. Esse é o caso de “Pessoas Invisíveis”, da Armazém Cia. de Teatro, dirigida pelo Paulo de Moraes, que assisti algumas vezes no Rio de Janeiro e outras tantas em DVD; e mais recentemente do acalentador “A Alma Imoral”, com Clarice Niskier, e “A Mulher Que Ri”, encabeçada pela Eloísa Elena, com direção da Yara de Novaes, que me provoca grande comoção cada vez que assisto.

Qual dramaturgo brasileiro você mais gosta? E estrangeiro? Explique.

Gosto dos dramaturgos que têm personalidade em suas escritas. Sejam aqueles que esmiúçam uma pesquisa temática ou formal, um desejo comum que acima dos bons e maus textos produzidos mantêm-se num caminho, ou ainda os outros que se arriscam em reinvenções sinceras de si mesmo. Dentre os autores do teatro brasileiro que admiro estão Caesar Moura, Fernando Ceylão, Ivam Cabral, Mário Bortolotto, Marcos Gomes, Newton Moreno, Roberto Alvim, Rui Xavier, Ruy Jobim Neto, Sergio Roveri e tantos outros. É claro que existe um especial, costumo dizer que cada um tem seu autor da vida, aquele que não só consideramos um dos melhores, mas que acompanhamos nos inspirando e emocionando. E esse autor da minha vida é o Alcides Nogueira. Adoro a dramaturgia brasileira e se, por um lado, quando penso nela me vêm à mente meus contemporâneos, por outro quando se trata dos estrangeiros minha cabeça acaba sempre destacando um trio genial de diferentes épocas e muito peculiares, todos mortos: Anton Tchekhov (por uma então nova construção), Samuel Beckett (pela desconstrução) e Sarah Kane (pela reconstrução a partir da destruição).

Qual companhia brasileira você mais admira?

Admiro Os Satyros, de São Paulo, pela força que tem hoje, capaz de mudar não apenas a realidade de uma praça no centro de São Paulo, mas de uma população de artistas, mostrando o poder que o teatro pode ter se aliado a boas ideias e organização política e provocando reações inspiradas neles e em outras direções. Artisticamente também acho que têm uma proposta estética criativa e muito viva. Outros grupos que acompanho sempre muito atenciosamente são a Cia. Razões Inversas e Club Noir, também de São Paulo, e a Cia. dos Atores e a Cia. Teatro Autônomo, do Rio de Janeiro.

Existe um grupo ou companhia de teatro que você acompanhe todos os trabalhos?

A Armazém Companhia de Teatro, até pela quantidade de produção. Acredito que tenha visto pelo menos os últimos dez espetáculos dela. Também a recente Club Noir, da qual tenho o prazer de ter assistido a todos os espetáculos.

Qual gênero teatral você mais aprecia?

Não tem um gênero, sou mais voltado ao drama e às experimentações, então tenho maior relação com estes estilos e uma tendência a eles, mas já assisti a espetáculos que apreciei muito de outras linhas, como a comédia, e também aprendi a gostar do teatro musical.

Qual lugar da plateia você costuma sentar? Por quê? Qual o pior lugar que você já sentou na plateia?

Se é uma encenação frontal, gosto de sentar bem centralizado, assim meu campo de visão é mais equilibrado e vejo o quadro da cena inteiro sem angulação. Quanto à fileira, não gosto de sentar na frente porque diminui o campo de visão e nem muito no fundo porque não enxergo, o ideal é a quinta ou sexta fileira, acredito. Em teatros maiores até um pouco mais atrás. O pior lugar é aquele que me faz perder algum detalhe, seja de uma marcação ou de um pedaço do cenário. Detesto camarotes em teatros, sempre têm uma visibilidade lateral e superior que me incomoda. Uma vez, uma grande produção fez questão que eu me sentasse no camarote onde estavam algumas personalidades e foi aflitivo. No intervalo para o segundo ato, tratei de descer e procurar um lugar na plateia.

Fale sobre o melhor e o pior espaço teatral que você já foi ou já trabalhou?

Como artista, acho que existem espaços que são inadequado para determinado espetáculo e vice-versa. É preciso ter objetividade e bom senso ao se escolher um teatro para encenar um trabalho, sendo aquele que melhor comporta e dá o ambiente necessário para a montagem. Como público, acho que o grande problema são os teatros com cadeiras desconfortáveis que fazem o ato de assistir a uma peça algo incômodo fisicamente.

Já assistiu a alguma peça documentada em vídeo? O que acha do formato?

São linguagens diferentes e acho que um espetáculo pode funcionar em vídeo desde que tratado como uma nova linguagem audiovisual, com as adaptações necessárias e uma equipe e estrutura adequadas para tal, gerando então, um novo produto. Não basta ligar uma câmera e filmar bem uma apresentação, neste caso o valor é basicamente de documentação histórica. Por isso, acompanho atento a projetos como Teatro Para Alguém e Cennarium que trabalham de maneiras diferentes essas possibilidades do teatro em vídeo na Internet.

Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou?

Toda peça tem alguém que gosta, sempre para alguém ela será boa, mesmo que seja só para o encenador. O que existe são peças que eu não gosto e que necessariamente não são as mesmas peças que fulano desgosta. No caso do que eu não gosto, sim, às vezes é por uma escolha no percurso que considero equivocada e outras porque acho a peça ruim desde sua gênese.

Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos?

O espetáculo dos meus sonhos é o próximo, sempre. Ele se passará aonde minha imaginação chegar. E será feito por quem as personagens queiram (acredito que muitas vezes as personagens encontram seus atores, mostrando que aquela é a pessoa certa e não quem imaginávamos antes). O espetáculo dos meus sonhos será aquele em que artistas e público comungaram algo especial, particular e efêmero por uma hora ou pouco mais, mas carregaram um pedaço disso por muito, muito mais tempo.

Cite um cenário surpreendente.

Citarei alguns artistas que muitas vezes me surpreendem: o professor Hélio Eichbauer entende o cenário como uma arte simbolista e potente; a Daniela Thomas alcança resultados muito sofisticados; a Carla Berri, com o Paulo de Moraes, propõe um quase realismo grandioso; o Fernando Alexim sempre me empolga com sua criatividade e o André Cortez e o Jean-Pierre Tortil têm me chamado muito a atenção nos últimos tempos.

Cite uma iluminação surpreendente.

Eu gosto muito do trabalho do Renato Machado com objetos iluminados, usando em seus projetos materiais que não são holofotes; da engenharia técnica do Guilherme Bonfanti na pesquisa do Teatro da Vertigem; da funcionalidade do Maneco Quinderé com iluminações mais objetivas. Esses são três que já me surpreenderam muito positivamente.

Cite um ator que surpreendeu suas expectativas.

Muitas vezes atores que a classe teatral tem enorme preconceito por virem de outros formatos como a televisão surpreendem muito positivamente ao estrear no teatro. É certo que nem de longe é a maioria dos casos, mas gosto quando esses atores subvertem as expectativas da arrogância intelectual.

O que não é teatro?

Tudo é teatro, ou pode ser. A tentativa é teatro. Se colocar no mundo é, de certa forma, teatral. O que não quer dizer que tudo seja bom teatro…

Que texto você foi ler depois de ter assistido a sua encenação?

Vários. Muitas vezes gosto tanto de um texto ao assistir uma montagem que vou atrás para ler. Um dos últimos que fiz isso foi o “H.A.M.L.E.T.” do Roberto Alvim.

A ideia de que tudo é válido na arte cabe no teatro?

Tudo é válido. Mas tudo não são as mesmas coisas para todos.

Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro?

A Internet é o futuro que já é agora e o teatro cada vez mais vai se aproximar dela. Eu mesmo mantenho um site de reflexão crítica, o Caderno Teatral, outros críticos também possuem espaços similares na rede que chamam atenção como poderosa mídia alternativa. Dramaturgos, atores e diretores têm blogs pessoais, Twitter, Facebook, travando contato direto com seu público. Algumas destas ferramentas têm sido usadas não apenas como divulgação, mas também como pesquisa e até dentro dos próprios espetáculos. Há a iniciativa de levar o teatro para a Internet por meio de vídeos, transmissão ao vivo ou mesmo de usá-la para integrar virtualmente artistas que estão em diferentes partes do mundo. Muitas possibilidades têm surgido da rede.

O teatro é uma ação política? Por quê?

Sempre. Mesmo quando se pretende apolítica. Escolher um texto, apostar numa linguagem para encená-lo, um jeito de dizê-lo ou de construir um espetáculo, estas escolhas já definem uma opção de como se colocar no mundo e mostrar isso para um público. Fazer teatro é um ato cívico.

Quando a estética se destaca mais do que o texto e os atores?

Alguns grupos ou diretores privilegiam a estética como principal interesse e foco de seus trabalhos, enquanto outros têm no texto sua atenção. Acho muito bom ter estas diferentes possibilidades de olhares para o teatro. Alguns trabalhos mais focados na estética como os mais antigos de Gerald Thomas são plasticamente verdadeiras obras de arte e muito interessantes também do ponto de vista intelectual (texto) e físico (atores). O que me incomoda são trabalhos que dão conta da estética, mas pra isso esvaziam o conteúdo.

Qual encenação lhe vem à memória agora? Alguma cena específica?

“Rainhas” com a Georgette Fadel e a Isabel Teixeira em estado de graça, dirigidas pela Cibele Forjaz. A cena final quando Elizabeth I (Georgette) era sentenciada pela escolha do público, mas se vira contra Mary Stuart (Isabel) cumprindo, assim, o destino fatal da personagem histórica no clássico de Friedrich Schiller no qual se baseia a encenação.

Em sua biblioteca não podem faltar quais peças de teatro?

“A Gaivota”, de Tchecov; “Esperando Godot”, de Beckett; “Medeia”, de Eurípides; “Macbeth”, de Shakespeare; “4.48 Psicose”, de Sarah Kane; alguns outros clássicos e muitos, muitos textos contemporâneos brasileiros.

Cite um diretor (a), um autor (a) e um ator/atriz que você admira.

Márcio Aurélio, Alcides Nogueira, Marco Nanini e Cleyde Yáconis.

Qual o papel da sua vida?

Hoje o de autor de uma boa história ou de diretor de um belo espetáculo.

Uma pergunta para William Shakespeare, Nelson Rodrigues, Bertold Brecht ou algum outro autor ou personalidade teatral que você admire.
 

“Caro William Shakesperare, diga-me: o senhor que está entre o passado e o futuro, que inventaste o Humano, como alega Harold Bloom, quem o irá ‘desinventar’?”

O teatro está vivo?

Às vezes ele agoniza, dá sinais de melhora, tem alta médica, retorna ao leito, é internado em uma clínica psiquiátrica, euforicamente é liberto e volta ao chão… São muitas idas e vindas, bons e maus momentos, mas mesmo enfermo, sua doença é prova de que está vivo. O teatro ainda pulsa.