Papo de Teatro com Joca Andreazza

Publicado em: 14/03/2011

Joca Andreazza é ator.

 

Como surgiu o seu amor pelo teatro?
Eu era engenheiro quando um grande, estimado e saudoso amigo partiu deste mundo, ainda jovem, e abriu uma questão muito séria com relação ao sentido da vida e ao desejo de viver vidas, fome insaciável. Minha maneira de ver o teatro, até então, como espectador, me levou a pensar na possibilidade de os atores serem capazes de viver muitas possibilidades em uma única vida e criar realidades além da realidade.

 

Lembra da primeira peça a que assistiu? Como foi?
A primeira peça a que assisti foi “Pato com Laranja”, em cena estavam Paulo Autran, Irene Ravache, Otávio Augusto e outra jovem atriz de quem não me recordo o nome. Foi na cidade de Bauru. Uma noite muito especial, pois a iniciativa foi toda minha. Comprei o ingresso, deixei de treinar (estava em Bauru para fazer treinos de judô), vesti minha melhor roupa. E recordo ser a minha primeira atitude madura até então. Resoluta e sem dúvidas.

 

Qual foi a última montagem que você viu?
Foi “Anatomia Frozen”, com a Cristina Cavalcanti e o Nelson Baskerville, cujo temática (pedofilia) me interessa sobremaneira, porém fiquei chocado com a visão do autor (Brian Lavery) sobre o assunto. Eu não absolvi Roman Polanski. Sei admirar, mas sei criticar.

 

Um espetáculo que mudou o seu modo de ver o teatro.
A mudança é sempre um processo em minha vida, assim, vários espetáculos foram muito importantes, mas vou citar apenas alguns: “Bella Ciao”; “Corra Enquanto é Tempo”, do Galpão; “Antígona”, do Oi Nóis Aqui Traveis; “Na Carreira do Divino”, do Pessoal do Victor; os espetáculo do La Fura del Baus; “Nora”, que vi recentemente na Alemanha , e “Agreste”, que tive a oportunidade de ver com um ator me substituindo…

 

Um espetáculo que mudou a sua vida.
É necessário mais que um espetáculo para mudar a minha conduta de vida. Se quiser, posso citar alguns eventos transformadores, mas um espetáculo é muito pouco para conseguir tal feito.

 

Você teve algum padrinho no teatro? Se sim, quem?
Admiro muitas pessoas que me ensinaram a ver o teatro , mas meu mestre é o Marcio Aurelio e o meu interlocutor mais fiel é o Paulo Marcello.

 

Já saiu no meio de um espetáculo? Por quê?
Sim, por não ter tempo a perder com frivolidades que nada acrescentam a mim ou ao teatro.

 

Teatro ou cinema? Por quê?
São linguagens muito distintas, mas como ator prefiro o teatro, por me sentir muito mais pleno e por contemplar muito mais meu ofício. Cinema é a arte do diretor e muitos deles têm uma visão tão equivocada da necessidade da verossimilhança, que o próprio Aristóteles arranharia as tábuas do esquife.

 

Cite um espetáculo do qual você gostaria de ter participado. E por quê?
“Ricardo III”, de Shakespeare, e “A Vida de Galileu Galilei”, de Brecht. Porque faria melhor do que os intérpretes que vi fazendo.

 

Já assistiu mais de uma vez a um mesmo espetáculo? E por quê?
Sim, assisti a alguns espetáculos mais de uma vez, mas não me recordo quais nem o motivo.

 

Qual companhia brasileira você mais admira?
A Companhia Razões Inversas, motivo pelo qual fiz de tudo ao meu alcance para conseguir entrar e fazer parte.

 

Existe um grupo ou companhia de teatro que  você acompanhe todos os trabalhos?
Todos não, mas sempre que posso vejo os espetáculos do Galpão, dos Parlapatões e da Cia. São Jorge de Variedades.

 

Qual gênero teatral você mais aprecia?
Drama.

 

Qual lugar da plateia você costuma sentar? Por quê? Qual o pior lugar em que você já se sentou em um teatro?
Cada lugar me dá uma perspectiva diferente do espetáculo. Talvez, por superstição, costume me sentar mais ao fundo e lateral.

 

Fale sobre o melhor e o pior espaço teatral que você já foi ou já trabalhou?
Não gosto de trabalhar em espaços onde o palco fica num desnível muito grande ou muito afastado da plateia. Prefiro a proximidade de nível e estar mais próximo. Herança dos tempos em que trabalhei na rua.

 

Já assistiu a alguma peça documentada em vídeo? O que acha do formato?
Acho que não traduz a dimensão teatral do espetáculo. Desnatura o que a obra tem de fundamental: o agora em que o teatro acontece.

 

Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou?
Existem as duas coisas

 

Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos?
Fora do edifício teatral convencional, dirigido pelo Marcio Aurelio, e com todos os amigos atores se revezando entre personagens e coro.

 

Cite um cenário  surpreendente.
O cenário de “Agreste”.

 

Cite uma iluminação  surpreendente.
A iluminação só com lâmpada pares feita para o “Agreste” pelo Marcio Aurelio, numa das edições do POA em Cena.

 

Cite um ator que surpreendeu suas expectativas.
Paulo Marcello.

 

A ideia de que tudo é válido na arte cabe no teatro?
A ideia do palco como uma página em branco, onde se pode escrever, desenhar ou utilizar outras formas de grafia, me seduz enquanto artista.

 

Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro?
Acompanhar a evolução sem nunca perder o caráter artesanal.

 

O teatro é uma ação política? Por quê?
Sim, todo teatro é, por assim dizer, uma ação política. Quando defende uma postura citando comportamentos humanos ou desumanos ou quando deixa a reflexão para o público sem apontar nem responder questões. Aquele que não faz política está na realidade fazendo a política de quem vai se beneficiar com a omissão.

 

Quando a estética se destaca mais do que o texto e os atores?
É exatamente esse momento que estamos vivendo no teatro, onde estão contidas nos textos que analisam o teatro pós-moderno referências apenas aos encenadores e aos dramaturgos. Parece que os atores são como um adereço cênico nas análises dos estudiosos e acadêmicos.

 

Qual encenação lhe vem à memória agora? Alguma cena específica?
Sim, uma encenação da “Tragédia do Homem”, a bíblia magiar que nunca vi encenada.

 

Cite um diretor (a), um autor (a) e um ator/atriz que você admira.
O diretor Marcio Aurelio e o ator Paulo Marcello.

 

Qual o papel da sua vida?
O que estou tentando viver no dia a dia, mas no teatro gostaria de viver o Galileu, de Brecht.

 

O teatro está vivo?
Sim. Vivo e repleto de opções, desde aquelas que fazem o teatro retroceder 500 anos até os espetáculos que desafiam nossa compreensão e por isso nos enchem os olhos.