Papo de Teatro com Ione de Medeiros

Publicado em: 29/10/2012

Ione de Medeiros é diretora teatral, artista plástica, cenógrafa, figurinista, pianista e professora de música e teatro

Como surgiu o seu amor pelo teatro?
O meu amor pelo teatro veio através da música, que foi minha porta de entrada para o palco. Com o teatro, percebi que havia uma possibilidade de a música extrapolar sua linguagem estritamente sonora utilizando os parâmetros musicais na encenação teatral.

Lembra da primeira peça a que assistiu? 
A primeira peça que me lembro de ter assistido foi “Fausto”, uma montagem feita por alunos. Foi em Juiz de Fora, minha cidade natal; eu devia ser muito nova, talvez tivesse menos de 10 anos. O que mais me marcou foi ver o Fausto preso dentro de um círculo de giz desenhado no chão do teatro depois que ele vende sua alma para o Diabo. Fiquei impressionada como essa imagem persiste na minha memória, como a força de um símbolo visual.

Um espetáculo que mudou a sua vida foi…
A montagem de “O Último Carro”, do Grupo Opinião, com texto e direção de João das Neves, no Rio de Janeiro. Naquele momento, percebi que deveria escolher radicalmente o caminho da arte, descobrindo a força do teatro dentro de uma sociedade e o seu potencial de transformação e revisão de valores.

Um espetáculo que mudou o seu modo de ver teatro foi…
Um espetáculo que me impressionou muito, como uma possibilidade teatral bastante instigante, foi uma montagem de “A Boa Alma de Setzuan” (Bertold Brecht), dirigida pelos alemães Kurt Bildstein e George Froscher – do Teatro Livre de Munique, dentro de uma oficina do Festival de Inverno da UFMG, em Diamantina/MG.


Você teve algum padrinho no teatro? 
Sim, Rufo Herrera. Premiado compositor e bandoneonista argentino, radicado no Brasil, premiado pela sua música erudita e por suas versões de Astor Piazzolla para bandoneón e orquestra. Rufo foi o criador do Grupo Oficcina Multimédia, dentro da perspectiva de trazer para BH a música cênica. Participei da criação do Grupo com Rufo e outros integrantes e, depois, herdei dele essa forma de fazer teatro. Com o tempo, essa linguagem foi se expandindo e incorporando outros elementos expressivos, como o vídeo, que é uma das marcas das últimas montagens do grupo.


Já saiu no meio de um espetáculo? 
Sim, muitas vezes. Quando me desinteresso totalmente pela montagem e percebo equívocos que não serão solucionados no decorrer do espetáculo.


Teatro ou cinema? 
Os dois. Teatro, pelo seu potencial de comunicação direta entre o artista e o público, o que o mantém vivo até os dias de hoje. Cinema, pelas possibilidades infinitas de veicular as ideias através da tecnologia, em conjunto com as diversas áreas expressivas.


Cite um espetáculo do qual você gostaria de ter participado. E por quê? 
“Macunaíma”, com direção de Antunes Filho. Foi também uma montagem que me impressionou muito pelo seu caráter genuinamente brasileiro.


Já assistiu mais de uma vez a um mesmo espetáculo? E por quê? 
Não, mas há muitos espetáculos que gostaria de ter assistido duas vezes, como “Velhos Marinheiros” e “O Despertar da Primavera”, os dois dirigidos por
Ulysses Cruz. Também gostaria de ter assistido duas vezes às primeiras criações de Gerald Thomas. Não estou incluindo aqui espetáculos estrangeiros, que assisti em diversos festivais internacionais que aconteceram no Brasil. 


Qual dramaturgo brasileiro você mais admira? E estrangeiro?
Brasileiro, cito o
Ariano Suassuna
, pois ele tem uma linguagem clara, direta, e suas personagens revelam traços característicos da região do Nordeste e de todo o Brasil. Ele também trata de temas profundos, com ironia e leveza, características comuns ao povo brasileiro, e talvez seja isso que dá ao brasileiro a flexibilidade para lidar com situações adversas, que usualmente chamamos de jogo de cintura. Reconheço a importância de Nelson Rodrigues na dramaturgia brasileira, mas não tenho afinidade com os seus temas e a sua maneira de abordá-los. Estão surgindo novos dramaturgos, mas ainda acho cedo para ter uma opinião formada sobre eles.


Estrangeiro, cito Samuel Beckett, que mantém uma posição de destaque e, no mundo inteiro, uma nova geração de dramaturgos vem produzindo muito. Dentre eles, destaco o texto de Rodrigo García, no espetáculo “Gólgota Picnic”. Convém lembrar que as montagens do Grupo Oficcina Multimédia têm origens diversas, com exceção de “A Casa de Bernarda Alba” de Federico García Lorca. Nossa dramaturgia surge da integração de várias linguagens e múltiplas referências.


Qual companhia brasileira você mais admira?

Cito o grupo mineiro Galpão, que admiro pela sua persistência e pela ação cultural que realiza na cidade de BH, o que o torna uma referência para todos aqueles que fazem teatro em Minas Gerais e no Brasil. 


Existe um artista ou grupo de teatro que você acompanhe todos os trabalhos?
Isso acontece comigo mais na área de cinema, com diversos diretores. Os mais recentes são os Irmãos Coen, Alexander Sokurov, Neil Jordan, Peter Greenway, Lars von Trier, Cláudio Assis, Pedro Almodóvar, David Lynch, entre outros.


Qual gênero teatral você mais aprecia? 
Teatro do Absurdo e Teatro Físico.


Em qual lugar da plateia você gosta de sentar? Qual o pior lugar em que você já se sentou em um teatro?
O melhor lugar é no centro, pois deste lugar temos uma ótima visão da cena, e isso em uma montagem convencional. Em outros tipos de montagem, esse local pode variar. O pior lugar é aquele que você não tem uma boa visão da cena, e isso também depende do espaço e da proposta cênica. É relativo.


Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou? 
Uma boa peça se completa com um bom encenador, que revela as suas qualidades. No caso de uma peça ruim, isso se torna muito difícil, mas é possível você ver as qualidades de um bom encenador mesmo em uma peça ruim.


Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos?
Todos os espetáculos resultam de uma utopia do encenador, e tudo é trabalho. O bom resultado está mais relacionado com a escolha de uma equipe que se envolva tanto quanto o encenador nesta utopia. Qualquer lugar pode ser bom a partir desta premissa.


Cite um cenário surpreendente.
Houve uma época em que se dava muito espaço para o cenário. Hoje, existe uma simplificação do cenário e da luz, mas, de qualquer maneira, o que sempre me agradou é o diálogo entre o cenário e os atores, quer dizer, quando o cenário não está no palco só para enfeitar, sem nenhuma integração com a encenação. Na área da dança, uma cenografia que gosto muito é a dos espetáculos da Pina Bausch, onde os bailarinos interagem todo o tempo com o cenário.

Cite uma Iluminação surpreendente. 
Bob Wilson sempre tem uma iluminação surpreendente, mas no espetáculo a iluminação surpreende apenas por revelar a cena e se adequar ao clima, sem nenhum caráter espetacular.


Cite um ator que surpreendeu suas expectativas.
Assisti Paulo Autran
, sozinho em um palco, recitando o poema “Meus 8 anos”, de Casimiro de Abreu. E foi algo inesquecível.


O que não é teatro? 

O teatro tem suas regras. A primeira delas é a da representação. E isso cabe mesmo em um teatro realista. A simplificação desse realismo, que acontece muito na TV, trai esse princípio básico da representação. Na verdade, a realidade nunca é simples. Convém lembrar que o cinema e a TV também se utilizam da linguagem teatral valendo-se desse mesmo princípio.


A ideia de que tudo é válido na arte cabe no teatro? 
Hoje em dia, a arte incorporou e abriu espaço para um universo muito próximo e familiar. Por isto, podemos dizer que quase tudo pode ser utilizado, mas a diferença fica na maneira de como isto vai ser realizado. Por exemplo: um drama pessoal pode sair do universo íntimo e chegar ao universal. Se não chega lá, o que resta é um vale-tudo inadequado.


Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro? 
O teatro supõe um contato direto com o espectador e é sempre efêmero.  Mas o espectador deveria sempre sair do teatro levando algo consigo, que vai durar para sempre, promover transformações na sua maneira de pensar ou desencadear reflexões. A tecnologia, bem usada, pode contribuir para a eficácia desta função do teatro.


Em sua biblioteca, não podem faltar quais peças de teatro?
Mais do que peças de teatro, existem muitos escritores que são muito estimulantes, mesmo que não sejam dramaturgos. Entre eles, posso citar James Joyce, que me inspirou uma trilogia cênica, Kafka, Ferreira Gullar, Dalton Trevisan,  Anton Tchekhov, entre outros.


Cite um diretor (a), um autor (a) e um ator/atriz que você admira.
Diretor: Daniel Veronese (Argentino); Autor: Fiodor Dostoievski (Russo), e Atriz: Isabelle Huppert (Francesa)


Qual o papel da sua vida?
O de artista!

Uma pergunta para William Shakespeare, Nelson Rodrigues, Bertolt Brecht ou algum outro autor ou personalidade teatral que você admire.

É curioso perceber que, ás vezes, um artista não alcança a grandeza de toda a sua criação. Diante disso, faria uma pergunta para Franz Kafka: “Kafka, você mandou destruir toda a sua obra, como se ela não merecesse ser publicada. E se você voltasse, em 2012, e visse que sua obra é reconhecida no mundo inteiro e seu próprio nome virou um adjetivo para situações absurdas, motivado pelo seu personagem Gregor Samsa, que acorda e se vê transformado em um grande inseto? Como se sentiria?”.


O teatro está vivo?
O teatro está tão vivo que continua atraindo muitas pessoas em suas salas, motivadas, talvez, pelo desejo de um contato direto do público com os artistas. Isso pode explicar a boa vontade e tolerância do público para espetáculos teatrais que nem sempre têm a qualidade que se espera e que se deseja de obras teatrais.