Papo de Teatro com Flávio Barollo

Publicado em: 04/04/2011

Flávio Barollo é é ator, cantor, apresentador, locutor e diretor.

 

Como surgiu o seu amor pelo teatro?
Desde os 6 anos já era artista, atuando, dançando e cantando, mas somente aos 26 anos descobri o teatro, que me arrebatou de tal forma que larguei a Engenharia. Sou engenheiro civil de formação.

 

Lembra da primeira peça a que assistiu? Como foi?
A primeira peça que assisti foi no INDAC, escola de teatro que vim a cursar depois. Assisti uma trílogia grega, com Agamenon, Ifigênia em Aulis e Orestes, e aquela experiência me marcou demais!

 

Qual foi a última montagem que você viu?
A última montagem marcante que assisti foi “O Idiota”, da Cibele Forjaz, e um dos espetáculos mais incríveis que já vi.

 

Um espetáculo que mudou o seu modo de ver o teatro.
Muitos. Coincidentemente, o primeiro que me recordo foi uma versão de “O Idiota”, de Dostoiévski, chamava-se “O Zurro do Asno”, do Roberto Bacci, do grupo italiano Pontedera. Depois, “Crepúsculo”, da Velha Companhia, “Hygiene”, da Cia XIX de Teatro, “Ensaio.Hamlet”, da Cia. dos Atores, e, por último, “Gota D’Água”, com a Georgette Fadel.

 

Um espetáculo que mudou a sua vida.
Certamente, “O Pelicano”, de August Strindberg, que fiz pela Cia. Mamba de Artes. Foi um divisor de águas na minha vida.

 

Você teve algum padrinho no teatro? Se sim, quem?
Denise Weinberg, minha diretora em “O Pelicano”. Foi minha madrinha, vem me ensinando tudo de teatro, mostrando sua realidade, não me deixando percorrer caminhos equivocados, e hoje é a minha mestra e responsável por tudo que venho construindo.

 

Já saiu no meio de um espetáculo? Por quê?

Sim. Infelizmente saí de uma montagem do “Pato Selvagem” do Ibsen.

 

Teatro ou cinema? Por quê?
Os dois! Sou apaixonado pelos dois. São prazeres diferentes, formas de atuar diferentes, que me seduzem igualmente.

 

Cite um espetáculo do qual você gostaria de ter participado. E por quê?
Gostaria de ter feito “O Idiota”, da Cibele Forjaz. Tenho paixão por Dostoiévski e por este texto.

 

Já assistiu mais de uma vez a um mesmo espetáculo? E por quê?
“O Inimigo do Povo”, do Sérgio Ferrara. Gostei muito da encenação e do jogo dos atores.

 

Qual dramaturgo brasileiro você mais admira? E estrangeiro? Explique.
Gosto muito dos clássicos. Nelson Rodrigues pra mim é imbatível, alias bebeu muito na fonte do trio Ibsen, Strindberg e Tchekhov. 

 

Qual companhia brasileira você mais admira?
Cia dos Atores, Cia Livre, Vertigem, Grupo XIX de Teatro, entre outros.

 

Existe um grupo ou companhia de teatro que você acompanhe todos os trabalhos?
Assisto aos espetáculos que me chamam a atenção, sem predileções.

 

Qual gênero teatral você mais aprecia?
Tragédia.

 

Qual lugar da plateia você costuma sentar? Por quê?
Sempre sentei na frente, por causa da miopia. Agora, operado, continuo mantendo o hábito, pois gosto de estar perto, ver o olhar do ator.

 

Qual o pior lugar em que você já se sentou em um teatro?
Fiz aqueles programas musicais em Nova York, assistindo na última fileira, numa cadeira em que não cabiam nem minhas pernas, e que nem binóculo resolvia.

 

Fale sobre o melhor e o pior espaço teatral que você já foi ou já trabalhou?
O Sesc Anchieta realmente é maravilhoso, em todos os aspectos. Existem muitos espaços em São Paulo ainda sem muita infraestrutura. Já vi pessoas se acidentando em alguns deles.

 

Já assistiu a alguma peça documentada em vídeo? O que acha do formato?
Na época eu que estava em cartaz, não consegui assistir a “BR-3”, do Teatro da Vertigem, pude assistir apenas no documentário feito pelo Evaldo Mocarzel.

 

Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou?
Se o encenador se equivoca, a peça fica ruim.

 

Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos?
Meu único sonho é que o teatro sobreviva. E poder ter grandes amigos em cena, com grandes textos, grandes encenações e experimentação constante.

 

Cite um cenário surpreendente.
Os cenários da Daniela Thomas são incríveis. “Avenida Dropsie”.

 

Cite uma iluminação surpreendente.
A luz da Alessandra Domingues para “O Idiota” foi muito boa.

 

Cite um ator que surpreendeu suas expectativas.
O Caco Ciocler em “Imperador e Galileu”, dirigido pelo Sérgio Ferrara.

 

O que não é teatro?
Um lugar onde não tenha atores ao vivo.

 

Que texto você foi ler depois de ter assistido a sua encenação?
Não tinha lido ainda “A Gaivota”, antes de assistir ao espetáculo do Enrique Diaz.

 

A ideia de que tudo é válido na arte cabe no teatro?
Experimentações são importantes, desde que coerentes.
 

Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro?
O teatro ganha força contra a tecnologia no quesito ao vivo, na troca real com a plateia. É neste caminho que devemos focar e que talvez faça o teatro sobreviver.

 

O teatro é uma ação política? Por quê?
Não exclusivamente. O teatro é uma ação transformadora, que pode ter vários níveis, inclusive da consciência política.

 

Quando a estética se destaca mais do que o texto e os atores?
Particularmente gosto de ver o ator em cena, a alma humana. Se a estética conseguir explodir junto com o ator, temos possivelmente uma obra de arte.

 

Qual encenação lhe vem à memória agora? Alguma cena específica?
Muitas cenas passaram pela minha cabeça pensando em responder a esta pergunta. E agora?

 

Em sua biblioteca não podem faltar quais peças de teatro?
Os clássicos.

 

Cite um diretor (a), um autor (a) e um ator/atriz que você admira.
Cibele Forjaz, Nelson Rodrigues e Denise Weinberg.

 

Qual o papel da sua vida?
Há tempo atrás foi Romeu, que fiz num musical infantil. Mas depois envelheci e o deixei de lado. Acho que o Frederik, de “O Pelicano”, de August Strindberg, tem muito a ver comigo. Mas já abre espaço para o próximo.

 

Uma pergunta para William Shakespeare, Nelson Rodrigues, Bertold Brecht ou algum outro autor ou personalidade teatral que você admire.
Para Shakespeare: “Você é de verdade?”. Para Strindberg: “Precisa de ajuda?”. Para Nelson: “Tem como ajudar o Strindberg?”

 

O teatro está vivo?
Moribundo.

 

Foto: Ronaldo Gutierrez