Papo de Teatro com Flávia Garrafa

Publicado em: 25/10/2010

Flávia Garrafa é atriz e trabalha em teatro, cinema e televisão. Formada em psicologia pela USP e em interpretação teatral pelo The Lee Strasberg Theatre Intitute.

 

Como surgiu o seu amor pelo teatro?
Eu tenho uma sensação (romântica eu sei!) de que já nasci apaixonada pelo teatro. Fazia balé quando pequena, mas era gordinha e desajeitada e todo mundo falava “nossa, ela é ruinzinha, mas faz umas caras tão boas… vamos colocar ela na frente” (risos). Fazia “teatrinho de criança” em todos os lugares possíveis. Na festa de Natal, embaixo do pé de caqui do meu sítio, no aniversário da minha avó. Tinha uma plateia, ali estava eu. Sabe que alguns tios meus demoraram muito para ir me assistir no teatro? Acho que estavam cansados de tanto ser minha plateia de infância.
Mas acho que, quando fui ao circo pela primeira vez, com os meus pais, é que tudo “se juntou” dentro de mim. Ainda não sabia, mas aquela emoção que eu estava sentindo era de pertencer a um lugar: ao palco. ( Não, não tem nada a ver com circo… sou desajeitada como disse…malabares nem pensar!)

 

Lembra da primeira peça a que assistiu? Como foi?
Foi “Meno Male”. Fui com os meus pais e depois fomos jantar, programa típico de paulistanos. Era nova. Lembro de ter adorado, de ter rido muito. E lembro do “glamour” que era estar no teatro. Nessa época, já queria e sabia que seria atriz, estava absolutamente encantada, vendo o lugar e pensando: “Ai, quando chegar a minha vez…”

 

Qual foi a última montagem que você viu?
Acabei de assistir a “Os 39 Degraus.” Só tinha amigo no elenco e o diretor é o meu diretor querido, Alexandre Reinecke. Mas gostei de verdade! Mesmo!

 

Um espetáculo que mudou o seu modo de ver o teatro.
Muitos espetáculos mudaram e mudam o meu modo de ver teatro. Até mesmo os que não gosto muito. Mas “Melodrama” e “Ensaio. Hamlet”, eu adorei a linguagem. Me fizeram ver que o teatro não precisa ser chato nem hermético para ser inovador.

 

Um espetáculo que mudou a sua vida.
“Café com Queijo”, do grupo Lume. Uma beleza de pesquisa de atores, de método, de montagem… Mas, principalmente, uma prova de que a honestidade na arte e na vida é um caminho que admiro. Eles falam da velhice com uma delicadeza que me fez repensar a vida e sua finitude. Enfim, só de lembrar agora me arrepio toda.

 

Você teve algum padrinho no teatro? Se sim, quem?
Eu tive alguns padrinhos. Tive a minha primeira professora de teatro que me tirou do grupo da escola e me levou para o teatro profissional: Linei Hirsch. Depois a Suia Legaspe (que conheci por meio da Linei), que me apresentou para um monte de gente bacana, confiando no meu taco sem saber se eu tinha um…

 

Já saiu no meio de um espetáculo? Por quê?
Não! Nunca! Acho falta de respeito com os atores que estão lá. Só saio se estiver passando mal.

 

Teatro ou cinema? Por quê?
Teatro. Por quê? Porque é muito bom fazer teatro. O todo dia. A arte de fazer de novo como se fosse a primeira vez. O contato direto com o público. O não poder parar de jeito nenhum. O tentar a cada dia, achar mais, e mais, e mais verdade.
Cinema é legal. Fiz pouco. Tenho pouco a dizer. Adoro assistir. Cinema é imortal. Quando eu fizer um monte de cinema me faz de novo essa pergunta?

 

Cite um espetáculo do qual você gostaria de ter participado. E por quê?
“Domésticas”, de Renata Mello. Porque eu adorei. Tudo marcadinho, coreografado, lindo! Com humor. Um universo interessantíssimo e grandes personagens femininas.

 

Já assistiu mais de uma vez a um mesmo espetáculo? E por quê?
Já assisti alguns mais de uma vez. Para entender, aprender, sei lá. Tem vezes que eu gosto tanto, que quero ver como funciona aquele espetáculo. Entender a diferença instigante que tem de um dia para o outro, a química que o público e os atores produzem.

 

Qual dramaturgo brasileiro você mais admira? E estrangeiro? Explique.
Nossa, gosto de muitos… Brasileiros temos os mais “clássicos”( se é que assim os podemos chamar): Nelson Rodrigues, Plínio Marcos, Gianfrancesco Guarnieri, dos quais gosto pela ousadia nos temas e perspicácia de diálogos. Mas vale citar alguns que gosto demais porque trazem, na sua dramaturgia, uma honestidade na visão de vida. E são eles muito distintos: Mario Bortolloto – Situações simples, almas desconexas que se ligam sempre em conflitos humanos absolutamente pertinentes.
Gero Camilo – Texto poético, hilário e quase triste.
Claudia Vasconcellos – (acabei de ler algumas coisas dela e amei!) Ela tem inteligência e comunicabilidade. Além de boas ideias e diálogos rápidos e afiados.
Vera Karam (gaúcha, ótima, morreu cedo) – Tragicomédias. Humor afiado navegando num mar extremamente trágico.
Ufa! Tem mais um monte, mas estou me sentindo uma crítica… Gente é só a minha opinião, que esbarra no meu gosto, que esbarra na minha história, enfim, que é muito pessoal.
Ai, ainda tem os estrangeiros. Shakespeare – Nenhum dramaturgo tem tanto alcance na essência humana.
Ionesco – Adoro o absurdo. Até hoje é o absurdo que faz mais sentido.

 

Qual companhia brasileira você mais admira?
Cia. dos Atores, Grupo Lume,  Galpão, La Mínima, Parlapatões…
Gosto daqueles que trabalham para desenvolver uma linguagem, testar limites, experimentar o novo e usar e abusar do já estabelecido.

 

Existe um grupo ou companhia de teatro que  você acompanhe todos os trabalhos?
Não. Eu gosto de espetáculos e não de companhias. Mas existem algumas que a linguagem me inspira. Não sou daquelas que diz “não perco por nada”. Até porque quando estou em cartaz não posso assistir nada e ninguém.

 

Qual gênero teatral você mais aprecia?
Gosto de todos. Gosto do bom teatro. Do teatro honesto e sem pretensão. Gosto da comédia em especial, por acreditar no poder de crítica e reflexão que ela traz. Mas não da comédia do riso fácil. Gosto do teatro que comunica com inteligência.

 

Qual lugar da plateia você costuma sentar? Por quê? Qual o pior lugar em que você já se sentou em um teatro?
Na fileira E. Bem no meio. Gosto de achar que a peça está sendo feita para mim (risos). O pior lugar que eu já sentei foi lá atrás, em um teatro enorme. Parecia o show da Madona que vi no Morumbi há muito tempo. Só via uns bonequinhos e escutava a voz no microfone. Enfim, me irritei um pouco.

 

Fale sobre o melhor e o pior espaço teatral que você já foi ou já trabalhou?
Adorava o Cultura Artística. Acho que foi o melhor teatro em que trabalhei. No Culturinha, a sala de baixo. “Toc Toc” estreou lá e fomos muito felizes com a casa lotada todos os dias até que aconteceu o trágico incêndio. Era um teatro como poucos. Tinha acústica, palco bom, lugares ótimos, história de grandes atores e espetáculo que por lá passaram. Nossa, agora me deu uma tristeza… E o pior lugar? Deixa pra lá…

 

Já assistiu a alguma peça documentada em vídeo? O que acha do formato?
Engraçado , há pouco dias assisti a uma peça gravada. Mas com o diretor do meu lado me explicando. Não é a mesma coisa.
Teatro em vídeo não é teatro. Teatro gravado não funciona como teatro. A magia do teatro é ser ao vivo. Por isso que nunca nada vai substituí-lo.

 

Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou?
Ah, eu acho que o clichê “existe gosto para tudo” é o melhor”. Acredito na experimentação. Todo mundo é capaz e deve errar. O erro faz parte do nosso crescimento, ajuda a nos posicionarmos sobre quem somos como artista. É só errando que vamos saber o que não queremos mais fazer, e, assim, traçar a nossa identidade como artista.

 

Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos?
O espetáculo dos meus sonhos teria uma coxia agradável (elenco que se dá bem e se diverte é fundamental), muito público e faria com que as pessoas saíssem do teatro pensando sobre a sua vida e quem sabe transformando um pouquinho do mundo para melhor. (Utópica!)

 

Cite um cenário  surpreendente.
O cenário de “Aldeotas” era tão simples e tão funcional. Só um tapete e um “teto” branco. Lindo. Bem cuidado. Fazia brilhar a luz, o texto, os atores. Depois disso acho um desperdício e um exagero tudo que é muito rebuscado em termos de cenografia.

 

Cite uma iluminação  surpreendente.

O vermelho que Gerald Thomas fez em “Um Circo de Rins e Fígados”. Nunca vi um vermelho tão profundo e impactante. Foi a primeira vez que uma iluminação cênica me fez chorar.

 

Cite um ator que surpreendeu suas expectativas.
Norival Rizzo em “Oração para um Pé de Chinelo”, de Plínio Marcos, direção de Alexandre Reinecke. Era uma mistura de humor com lirismo, um tragicômico com uma verdade sem fim. Quase Chaplin. O nosso Chaplin. Depois eu o vi em outros trabalhos e sempre me surpreendo.

 

O que não é teatro?
Não é teatro tudo que não tem fé cênica. Mentirinha não é teatro. Teatro é verdade. Uma verdade de mentira.

 

Que texto você foi ler depois de ter assistido a sua encenação?
A “Alma Boa de Setsuan”de Brecht. Vi a montagem com a Denise Fraga, dirigida pelo Marco Antonio Braz, e, no dia seguinte, fui ler o texto para tentar entender como eles conseguiram deixar aquilo tão comunicável. A plateia lotada riu e se emocionou muito, inclusive eu.

 

A ideia de que tudo é válido na arte cabe no teatro?
Caber, cabe. Agora se eu vou gostar, não sei. Eu só acho que a gente tem que estudar, assistir a peças.. sei lá… Acho que tem gente que confunde qualquer coisa com teatro.

 

Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro?
Na minha opinião, o teatro é insubstituível. Não adianta gravar, dizer que é ao vivo, colocar pirotecnia, internet, celular, “iwhatever.” Ver os atores viverem aquela história ao vivo, naquele momento, é insubstituível! O teatro tem passado, presente e muito futuro.

 

O teatro é uma ação política? Por quê?
É também uma ação política, porque é questionador e transformador. Mas o teatro vai além disso. Ele pode ser muito mais ou muito menos. Depende sempre de quem faz e de quem vê.

 

Quando a estética se destaca mais do que o texto e os atores?
Estamos num tempo em que a estética se destaca mais, mesmo. Acho um perigo. E uma pena. Mas acho que não vinga. Acho que quando isso acontece caminhamos para um “antiteatro”. E todo mundo percebe. Aí morre.

 

Qual encenação lhe vem à memória agora? Alguma cena específica?
“Medéia”, com direção de Antunes Filho. Na hora em que ela vai matar os seus filhos. Eu já conhecia o texto (claro!). Sabia o que ia acontecer mas a cena era tão bem feita que meu coração disparou. Estava completamente absorta na emoção do momento. Incrível.

 

Em sua biblioteca não podem faltar quais peças de teatro?
Não pode faltar Shakespeare. E todas as peças que eu já fiz. Tenho esse costume de guardar todas, absolutamente todas as que já fiz, tenha eu gostado ou não. É quase um TOC. (risos)

 

Cite um diretor (a), um autor (a) e um ator/atriz que você admira.
Nossa um de cada? Só um? Diretor tenho que citar dois.
Diretor: Alexandre Reinecke, pela maestria com que escala e lida com seus elencos e pela persistência em todos os projetos; e Jairo Mattos, pela extrema sensibilidade e conhecimento com que rege tudo.
Autor: Shakespeare (repetitiva, eu sei…)
Atriz: Denise Weinberg , é como poucas… Talentosa, forte e ética!

 

Qual o papel da sua vida?
Nunca fiz como atriz e tenho muita vontade de fazer a Catarina de a “Megera Domada”, a Beatriz de “Muito Barulho por Nada” e a Desdêmona de “Otelo”. Desculpem, eu adoro mesmo Shakespeare.

 

Uma pergunta para William Shakespeare, Nelson Rodrigues, Bertold Brecht ou algum outro autor ou personalidade teatral que você admire. Shakespeare: “O que você acha da frase ‘autor bom é autor morto?’
Ou, em outras palavras: “Como você se sente quando adaptamos ou fazemos uma ‘releitura’ de sua obra? Tem frases que você gostaria que ninguém mudasse?”

 

O teatro está vivo?

Muito vivo! Aliás, vai ser ruim de alguém matar o teatro…