Papo de Teatro com Fabio Brandi Torres

Publicado em: 22/08/2011

Fabio Brandi Torres é dramaturgo, diretor, produtor e tradutor

 

 Como surgiu o seu amor pelo teatro?

Surgiu pelo texto, pela palavra escrita, antes de ver uma peça encenada. Com uns 12 anos, comprei uma edição com algumas peças do Shakespeare, de uma coleção da Abril. Um pouco depois, uma professora de português me pediu pra organizar um espetáculo com a classe. Comecei a adaptar “A Megera Domada” com uma amiga, mas a gente logo viu que não tinha a menor condição e desistimos. Aí, inventamos uns esquetes sem pé nem cabeça e apresentamos com um ou dois ensaios. Caos total, lógico.

 

Lembra da primeira peça a que assistiu? Como foi?

Fui ver teatro bem tarde, ninguém em casa tinha o hábito e morava no interior, onde não havia muitas opções. Acho que a primeira vez foi um grupo amador, montando Millôr Fernandes. Lembro que a prima de um amigo fazia e eu comecei a ir sempre, para tentar entrar para o grupo, mas logo mudei para São Paulo. Aqui, comecei a ir com freqüência. A primeira de que me lembro foi “Xandu Quaresma”, com a Cia. Estável de Repertório, que tinha um esquema bem organizado de associação, tinha até carteirinha e jornal. Fiquei sócio e passei a acompanhar os espetáculos e os ensaios abertos, que para mim eram uma coisa extraordinária.

 

Um espetáculo que mudou o seu modo de ver o teatro.

Uma montagem de “Macbeth”, no final dos anos 80, com Carlos Palma, onde hoje é o Ágora. 

 

Um espetáculo que mudou a sua vida.

O primeiro de que participei, “Desgraças de uma Criança”, com direção de Elias Andreato, que teve origem em uma oficina, onde eu fazia assistência de direção. Literalmente mudou minha vida, começando a me tirar da publicidade e levar para o teatro.

 

Você teve algum padrinho no teatro? Se sim, quem?

Em dramaturgia, a primeira pessoa foi Aimar Labaki, que viu uma peça minha em um festival e me chamou pra conversar. Essa conversa foi a minha primeira aula na matéria e me deu o direcionamento na carreira.

 

Já saiu no meio de um espetáculo? Por quê?

Eu já estive no palco e sei que é horrível você estar lá em cima e ver as pessoas saindo, por isso, tento me segurar. Mas tem vezes que não dá, especialmente quando a outra opção é dormir na poltrona.  Aí, é melhor sair.

 

Teatro ou cinema? Por quê?

O cinema foi a primeira paixão. E quando me lembro das vezes em que fiquei profundamente emocionado com uma obra, na maior parte das vezes, era cinema.

 

Cite um espetáculo do qual você gostaria de ter participado. E por quê?

Qualquer um produzido pela Lord Chamberlain’s Men / King’s Men, pra poder conhecer o modo de produção da época. E o dramaturgo residente, claro.

 

Já assistiu mais de uma vez a um mesmo espetáculo? E por quê?

Fora peças que dirigi – e tem umas que já vi umas cem vezes, sem exagero – não é muito comum, mas teve aquele “Macbeth”, no final dos anos 80, três vezes, e poucos casos mais, como “Fragmentos de Um Discurso Amoroso”, “Paraíso Zona Norte”, “Você Vai Ver o Que Você Vai Ver”, “Copenhaguen” e “Ensaio.Hamlet”. E tem outras que eu veria de novo com o maior prazer, como “Romeu e Julieta” (Galpão), “Prego na Testa”, “Inzôonia”, “A Vida é Cheia de Som e Fúria”, “The Woman in Black”, “Concerto de Ispinho e Fulô”, “Shakespeare’s Villains”, “A Falta que nos Move”, “Sobre Meninos, Mendigos e Poetas” e muitas outras. A razão é essa, prazer.

 

Qual dramaturgo brasileiro você mais admira? E estrangeiro? Explique.

Jorge Andrade e, tirando Shakespeare, estou começando a descobrir uns contemporâneos (e colaboradores) dele, como Fletcher e Middleton, muito bons.

 

Qual companhia brasileira você mais admira?

Acho que toda companhia que consegue ficar junta, ainda que em volta de um núcleo, produzindo com regularidade, já merece admiração.

 

Existe um artista ou grupo de teatro do qual você acompanhe todos os trabalhos?

Infelizmente, não, mas por falha minha,  não dos artistas ou grupos. Existem muitos que eu gostaria de acompanhar, mas não consigo ir ao teatro com a frequência que gostaria.

 

Qual gênero teatral você mais aprecia?

Pensando de uma forma bem simplista, onde só sobraram dois gêneros de teatro, o bom e o ruim, aprecio mais o primeiro, apesar do segundo, às vezes, ter coisas ótimas.

 

Em qual lugar da platéia você gosta de sentar? Por quê? Qual o pior lugar em que você já se sentou em um teatro?

A uma distância segura do palco, no meio, onde os atores não possam me alcançar. (O trauma se explica: já fui acorrentado em peça dos Parlapatões) O pior foi na última fileira de um balcão que tinha uma inclinação absurda e o palco parecia um pontinho distante. Mas antes de começar a peça, fiz amizade com um cara, que assim que as luzes se apagaram, me puxou pra uns lugares que estavam vagos na primeira fila. O que foi ótimo, porque a peça era com a Juliette Binoche.

 

Fale sobre o melhor e o pior espaço teatral que você já foi ou já trabalhou?

Já me apresentei em espaço bem deteriorados, com a fiação exposta, cortinas rasgadas, pó pra todo lado, mas acho que o pior mesmo é quando o espaço é novo, foi construído pra ser usado como teatro, mas não foi pensado por quem é da área e o resultado fica mais próximo de um auditório para palestras. O melhor é o oposto disso.

 

Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou? 

Como é uma questão de gosto, pra mim, tem muita peça ruim e muito encenador equivocado. Mas como no teatro o poder está mais com o último, tem encenador que pode salvar uma peça ruim, mas não tem peça boa que possa salvar um encenador equivocado. 

 

Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos?

Ela aconteceria em um Brasil onde o teatro fosse uma realidade próxima do público, com atores que vivessem – e bem – da bilheteria.

 

Cite um cenário surpreendente.

O da montagem de “Titus Andronicus”, que uma companhia romena apresentou no Sérgio Cardoso. Era praticamente só um pano enorme, que ganhava vida com os atores.

 

Cite uma iluminação surpreendente.

Iluminação é uma coisa muito delicada, se ela chamar muito a atenção, pode ser porque está deslocada da peça ou o resto do espetáculo não está tão interessante. Bom, isso tudo pra justificar que não me vem nenhuma à cabeça.

 

Cite um ator que surpreendeu suas expectativas.

Poderia inventar uma justificativa como na pergunta acima, mas também não me lembro de nenhum em caso em que eu esperasse muito pouco de alguém e tenha sido surpreendido.

 

O que não é teatro?

No teatro, é tudo uma questão de convenção. Se a convenção for a de que o que quer que seja é teatro e houver alguma coerência, vai ser teatro.

 

A idéia de que tudo é válido na arte cabe no teatro?

Se houver coerência, sim.

 

Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro?

Ao longo dos séculos, a tecnologia que foi aparecendo foi sendo incorporada ao teatro. É só pensar na eletricidade, por exemplo. O futuro nessa era não depende se vamos ter cenários ou mesmo atores holográficos, mas se vamos ter criatividade para estabelecer uma conexão com o público, que o motive a sair da sua casa real ou do seu ambiente virtual, para viver uma experiência no teatro.

 

Em sua biblioteca não podem faltar quais peças de teatro?

Shakespeare, Shaw, Martins Pena, Jorge Andrade, Ibsen, e ultimamente John Fletcher e Thomas Middleton, mas quanto mais variedade, melhor. E quanto mais peças forem editadas, o que é fundamental, melhor ainda.

 

Cite um diretor (a), um autor (a) e um ator/atriz que você admira.

Admiro vários, não teria como citar só um em cada área.

 

Qual o papel da sua vida?

O que eu estou desempenhando agora, escrevendo e produzindo.

 

Uma pergunta para William Shakespeare, Nelson Rodrigues, Bertold Brecht ou algum outro autor ou personalidade teatral que você admire. (Por favor, explicite para quem é a pergunta)

William, você pode me dar umas dicas? 

 

O teatro está vivo?

Para o teatro estar vivo, o principal é a conexão com o público. Sempre que ela existir, o teatro vai estar vivo.