Papo de Teatro com Fabiano Moreira

Publicado em: 27/06/2011

Fabiano Moreira é Diretor de Produções

 

 

Como surgiu o seu amor pelo teatro?

O teatro surgiu na minha vida em 2004, quando,  retornando de uma temporada de três anos no Guarujá, fui convidado a trabalhar no Teatro Fábrica São Paulo, gerido por uma companhia que recentemente tinha sido contemplada pela Lei de Fomento. A partir  de então fiquei fascinado por esta arte.

 

Lembra da primeira peça a que assistiu? Como foi?

Sim, a primeira peça de teatro que eu assisti foi “Pequenos Burgueses”, de Máximo Gorki, interpretada pela companhia de teatro Fábrica São Paulo, sob a direção de Roberto Rosa. A experiência foi fantástica, onde além de conhecer o teatro, tive a oportunidade de acompanhar o processo de criação e os ensaios do grupo.

 

Um espetáculo que mudou o seu modo de ver o teatro.

Não há um espetáculo em especial, todavia, o que mais foi importante para gerar um bom conceito sobre o teatro, foi ver o modo de reflexão sobre a cena. Tive a oportunidade de acompanhar o C.A.T (Centro de Aperfeiçoamento Teatral) promovido pela Coopeartiva Paulista de Teatro, e lá tive contato com grandes nomes do teatro, como o diretor João das Neves, Chiquinho Medeiros, Luís Mármora , entre outros.  A Mostra Latino Americana de Teatro de Grupos – onde desenvolvo o trabalho de registro áudio-visual em parceria com o Luiz Gustavo (diretor do programa “Ensaio Aberto”) também é um grande ponto de referência para a minha formação artística.

 

Um espetáculo que mudou a sua vida.

Não creio que um espetáculo em particular tenha condições de mudar uma vida, entretanto, o teatro, de modo geral e bem aplicado pode, e muito, contribuir para a formação intelectual de um indivíduo e por isso é tão importante quanto educação, saúde e lazer.  

 

Já saiu no meio de um espetáculo? Por quê?

Não, por mais que uma peça não seja agradável o suficiente para te manter entretido, deve-se haver o respeito aos profissionais que estão envolvidos e acreditam no que fazem. 

 

Teatro ou cinema? Por quê?

Teatro. O contato direto com o ser humano é fundamental para a troca de conhecimentos e, neste caso, só o teatro tem esta capacidade. Além disso, a reflexão sobre a cena é bem mais extensa. No cinema, geralmente, você vê o filme, comenta e fica por isso mesmo, já no teatro a reflexão pode durar por muito mais tempo. 

Como exemplo, posso citar o meu filho de 3 anos. Levei-o algumas vezes ao teatro e também o levei ao cinema, o resultado é que o filme “Os Enrolados ”, 3D e tal, não é tão comentado por ele, já o teatro… Até hoje ele comenta alguns personagens, como o Janjão do espetáculo “As incríveis Histórias de Mariazinha e o seu Amigo Sol”, dirigido pela Pamela Duncan, ou o Macaco (Caco como ele costuma falar) do espetáculo “O Macaco Juiz”, do grupo Luz e Ribalta. 

 

Já assistiu mais de uma vez a um mesmo espetáculo? E por quê?

Sim, já trabalhei em diversas montagens e geralmente vejo várias vezes.

 

Qual dramaturgo brasileiro você mais admira? E estrangeiro? 

Não tenho nenhum em especial, gosto muito da dramaturgia coletiva (desenvolvida em processo colaborativo), mas temos grandes dramaturgos dignos de admiração. Posso citar a Marici Salomão, com um grande trabalho junto ao SESI, Alberto Guzik, Gabriela Rabello que recentemente escreveu “O Grito” a partir de sua tese sobre Mário de Andrade, entre muitos. Já em nível internacional não tem nenhuma referência que me agrada.

 

Qual companhia brasileira você mais admira?

Gosto muito da Fraternal Companhia de Artes e Malas Artes, admiro o trabalho e a pesquisa sobre a comédia popular brasileira e a dinâmica deste grupo que, recentemente, com o apoio da Lei de Fomento, construiu um palco itinerante, montado na carroceria de um caminhão para levar o teatro a pessoas que – talvez – não tem acesso a esta arte.

 

Existe um artista ou grupo de teatro do qual você acompanhe todos os trabalhos?

Sim – ossos do ofício – tenho trabalhado com alguns grupos e neste caso tenho acompanhado todos os trabalhos.  

 

Qual gênero teatral você mais aprecia?

Gosto de teatro, independente do gênero.

 

Em qual lugar da plateia você gosta de sentar? Por quê? Qual o pior lugar em que você já se sentou em um teatro?

Hoje, o teatro está em muitos lugares, em parques, praças, ruas, espaços convencionais e não convencionais, não tem um lugar na pateia que eu consiga avaliar, todavia, sentar em um parque (no chão) para ver o teatro é, sem dúvida, muito bom.

 

Fale sobre o melhor e o pior espaço teatral que você já foi ou já trabalhou?

Acho que os teatros públicos (administrados pelo governo), não todos evidentemente, estão bem deteriorados. Falta investimento. Recentemente fui gravar um espetáculo no Teatro Ruth Escobar e me deparei com um teatro “jogado às traças”, pontas de pregos na beira do palco, mal cheiro, entre outras particularidades que não convém indicar. 

 

Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou? 

Tem peça ruim sim e não é culpa do encenador. O teatro necessita de pesquisa, tempo de trabalho, amadurecimento, tanto do ator quanto do grupo. O equivoco, na maioria das vezes, é pela falta elementos fundamentais – citados acima – para a construção da obra.

 

Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos?

Algumas questões acima, você me perguntou, qual é a peça que mudou a minha vida, não soube responder… O teatro é uma arte que tem poder de transformação – talvez não da vida – mais de como a uma vida interfere na sociedade, visando isto. O espetáculo dos meus sonhos é aquele que tem a capacidade de mudar uma sociedade, romper as fronteiras do que está oculto e levantar questões, que venha servir de parâmetro para o crescimento de todos.

 

Cite um cenário surpreendente.

Assisti há pouco tempo uma peça de um grupo evangélico “O Jardim do Inimigo”, do grupo Geová Nissin, e me surpreendi com a cenografia, criada pelo cenógrafo J.C Serroni, que soube aproveitar muito bem o palco da Igreja Bola de Neve (Antigo Olímpia).

 

Cite uma iluminação surpreendente.

Durante a VI Mostra Latino Americana de Teatro de Grupo realizada no Centro Cultural São Paulo, de 26 de abril a 1 de maio de 2011,  apresentou-se um grupo da Guatemala (Sotzil) onde, diante de figurinos trazidos da cultura maia, o trabalho de iluminação acrescido de velas e chamas provocadas pelos atores durante a peça, proporcionou imagens fantásticas registradas pelas lentes da fotógrafa Tainá Azeredo. E, neste caso, devo admitir que o trabalho de iluminação deste grupo foi surpreendente.

 

Cite um ator que surpreendeu suas expectativas.

Temos, em São Paulo, muitos bons atores e é difícil citar um surpreendente, entretanto, no começo do ano, fui assistir “Ópera dos Vivos”, da Companhia do Latão, e me surpreendi com a peça, não com um ator somente, mas com o trabalho do grupo em geral. 

 

O que não é teatro?

Acho que a melhor pergunta é o que não se pode interpretar pelo teatro. Neste caso a resposta é nada, o teatro é a arte que representa a vida e sendo assim, tudo se pode interpretar pelo teatro.

 

A idéia de que tudo é válido na arte cabe no teatro?

A ideia de que tudo é válido na arte – em minha opinião – deve ser muito bem entendida, antes de se aplicar em qualquer que seja a finalidade. O teatro – como eu disse anteriormente – deve ser pensado, refletido, pesquisado e este tipo de pensamento ou atitude pode trazer resultados bem negativos na construção da cena.

 

Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro?

O teatro é uma arte milenar e, em sua essência, não necessita de tecnologia para existir. Contudo, a era da tecnologia possibilita novas formas de produção e de promoção do teatro. E o uso da tecnologia e cada vez mais frequente em espetáculos teatrais.

 

Cite um diretor (a), um autor (a) e um ator/atriz que você admira.

São vários:

Diretores: Ednaldo Freire, Sérgio de Carvalho, o saudoso José Renato, Antunes Filho, João das Neves, Gabriela Rabelo, Pamela Duncan, entre outros.

Atores / Atrizes: Luiz Amorim, Theodora Ribeiro, Aiman Hammoud, Ney Piacentini, o saudoso Paulo Autran,  entre muitos.

 

Uma pergunta para William Shakespeare, Nelson Rodrigues, Bertold Brecht ou algum outro autor ou personalidade teatral que você admire. (Por favor, explicite para quem é a pergunta)

Para todos os autores de teatro: Como você vê a sua obra contribuir para a formação individual do ser humano em uma sociedade capitalista que tem o lucro como principal filosofia de vida?  

 

O teatro está vivo?

Sim, o teatro é uma arte viva e, sem dúvida, é muito importante para o desenvolvimento do indivíduo na sociedade.

 

Fotos: Divulgação