Papo de Teatro com Carolina Bianchi

Publicado em: 07/03/2011

Carolina Bianchi é atriz.

 

Como surgiu o seu amor pelo teatro?
Quando eu era criança. Adorava pegar roupas antigas que minha mãe guardava no armário e criar situações em que eu representava adultos… Meus pais me colocaram numa escola de teatro quando eu tinha 11 anos. Adorei.

 

Lembra da primeira peça a que assistiu? Como foi?
Foi uma montagem de um livro infantil do Ziraldo, “Flicts”, sobre uma cor que tem muitos conflitos por não ser exatamente uma cor. Fiz minha mãe me levar umas sete vezes.

 

Qual foi a última montagem que você viu?
“A Casa”, texto de Richard Maxwell, dirigida por Roberto Alvim, no Club Noir. Absolutamente imperdível.
Um espetáculo que mudou o seu modo de ver o teatro.
“Super Night Shot”, com o grupo britânico-alemão Gobsquad juntamente com uma galera do Brasil, o público assistia a uma gravação feita pelos atores/performers, que era realizada uma hora antes do começo do espetáculo, nas proximidades do teatro.

 

Um espetáculo que mudou a sua vida.
É complicado dizer nesses termos, mas posso dizer que o espetáculo “Melodrama”, realizado pela Cia. dos Atores, foi fundamental para fazer brotar em mim alguns parâmetros que acabaram definindo certas escolhas estéticas e temáticas que venho buscando na minha pesquisa hoje.

 

Você teve algum padrinho no teatro? Se sim, quem?
Não. Mas tenho companheiros fundamentais na minha trajetória.

 

Já saiu no meio de um espetáculo? Por quê?
Sim. Quando me sinto terrivelmente constrangida, pelo fato do trabalho ser muito ruim.
 

Teatro ou cinema? Por quê?
Cinema. Porque foi responsável por algumas das imagens mais impressionantes que já vi na vida.

 

Cite um espetáculo do qual você gostaria de ter participado. E por quê?
“Endstation Amerika”, versão para “Um Bonde Chamado Desejo”, do diretor alemão Frank Castorf, quando vi achei absolutamente libertador, em relação a muitos conceitos teatrais já desgastados, existe alguma coisa ali naquela destruição toda (o cenário inteiro quebrava) que me interessa profundamente.

 

Já assistiu mais de uma vez a um mesmo espetáculo? E por quê?
Já, trabalhos de amigos muito queridos, que eu tenha acompanhado de alguma maneira. Fico curiosa para ver as mudanças que ocorrem ao longo das apresentações.

 

Qual dramaturgo brasileiro você mais admira? E estrangeiro? Explique.
Estrangeiro, sem sombra de dúvida, Anton Tchecov. Ah, claro, Samuel Beckett também. Brasileiro, acho que Plínio Marcos e Nelson Rodrigues.

 

Qual companhia brasileira você mais admira?
Teatro da Vertigem.

 

Existe um grupo ou companhia de teatro que você acompanhe todos os trabalhos?
Cia. dos Atores.
 

 

Qual gênero teatral você mais aprecia?
Eu aprecio todos, até ficção científica, se for possível…

 

Qual lugar da plateia você costuma sentar? Por quê? Qual o pior lugar em que você já se sentou em um teatro?
Costumo sentar mais perto do palco. Acho que o pior lugar que eu já sentei foi bem atrás de uma coluna.

 

Já assistiu a alguma peça documentada em vídeo? O que acha do formato?
Já. Acho que é sempre ruim. Aquilo que estamos vendo não foi pensado para se ver desse jeito.

 

Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou?
 Acho que não é apenas a culpa do encenador se a peça é ruim, acho que pode ser uma soma de escolhas equivocadas.

 

Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos?
Acho que o espetáculo do sonho é o que eu consigo realizar com as condições que desejo.
Acho que a cada dois meses eu tenho um novo espetáculo dos meus sonhos na minha cabeça…

 

Cite um cenário surpreendente.
“Avenida Dropsie”, da Sutil Cia. e “Vida”, da Cia. Brasileira.

 

Cite uma iluminação surpreendente.
“Quartett”, dirigido pelo Bob Wilson, que passou pelo Sesc Pinheiros, em 2009, nos dias 12, 13, 15 e 16 de setembro.
 

 

Cite um ator que surpreendeu suas expectativas.
Amanda Lyra, completamente hilária em “Êxtase”, de Mike Leigh

 

O que não é teatro?
Já não sei mais…
 

 

Que texto você foi ler depois de ter assistido a sua encenação?
“Pterodátilos”, de Nicky Silver, após ver uma montagem na universidade que eu estudava, em Porto Alegre.

 

A ideia de que tudo é válido na arte cabe no teatro?
Cabe. Mas no que isso vai dar…  eu quero saber.

 

Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro?
Talvez olhar para alguns mecanismos bastante puros do teatro, e operá-los se utilizando de tecnologias e elementos performativos. Aceitar a precariedade do teatro. E não só tentar maquiá-la.
 

 

O teatro é uma ação política? Por quê?
Completamente. Estamos uns diante dos outros. Trocando ideias.

 

Quando a estética se destaca mais do que o texto e os atores?
Não acho ruim a estética ter um destaque importante. Se a proposta for a sobreposição da estética… Em alguns casos isso acontece por um desejo artístico. Estamos passando por um momento onde o apelo visual é extremo. Acho importante o teatro estar nessa também. Acho que atores, texto e estética não precisam competir por espaço. Enfim, cada proposta é uma proposta.

 

Qual encenação lhe vem à memória agora? Alguma cena específica?
A morte da Ofélia em “Ensaio. Hamlet”, da Cia. dos Atores.
 

 

Em sua biblioteca não podem faltar quais peças de teatro?
Dos russos. Todos. E alguns autores contemporâneos como Marco Antonio de La Parra, Nicky Silver, Jean-Luc Lagarce.

 

Cite um diretor (a), um autor (a) e um ator/atriz que você admira.
Acho que atualmente eu admiro alguns encontros, os grupos Tablado de Arruar, Teatro da Vertigem, Espanca!, Club Noir. Gosto muito também do que o Michel Melamed escreve.

 

Qual o papel da sua vida?
Os que eu ainda vou inventar nas próximas peças.

 

Uma pergunta para William Shakespeare, Nelson Rodrigues, Bertold Brecht ou algum outro autor ou personalidade teatral que você admire.
 Eu perguntaria se Shakespeare escreveu tudo sozinho. E convidaria o Brecht pra tomar uma cerveja.

 

O teatro está vivo?
Está. É só ver quanta gente está fazendo isso nessa cidade e no mundo.