Papo de Teatro com Aurora de Campos

Publicado em: 13/12/2010

 

 

Aurora dos Campos é cenógrafa

Como surgiu o seu amor pelo teatro?
Acho que pela possibilidade de inventar realidades.

Lembra da primeira peça a que assistiu? Como foi?

Uma das primeiras foi “A Família Monstro”.  No final, a minha irmã ganhou uma fitinha cassete com a trilha sonora e passamos bons momentos dançando as coreografias da peça.

Qual foi a última montagem que você viu?

“O Matador de Santas”, texto de Jô Bilac e direção de Guilherme Leme, recomendo.

Um espetáculo que mudou o seu modo de ver o teatro.

“A Volta ao Dia em Oitenta Mundos”, da Cia. Brasileira de Teatro, baseado em um roteiro de Julio Cortázar, assisti no festival de Curitiba 2003, estava no início da faculdade, fiquei bastante entusiasmada depois de assisti-lo.

Um espetáculo que mudou a sua vida.

“A Forma das Coisas”, direção do Guilherme Leme, pelo qual meu cenário foi indicado ao Prêmio Shell de Teatro 2008, sem dúvida mudou a minha vida; a partir dessa peça muitas portas se abriram.

Você teve algum padrinho no teatro? Se sim, quem?

O Afonso Tostes foi muito importante para mim, ele me indicou para fazer “A Forma das Coisas” e se ofereceu para me orientar no que fosse necessário, e assim o fez: foi ótimo.

Já saiu no meio de um espetáculo? Por quê?

Não. O pior espetáculo que vi teria que atravessar a cena para ir embora. Alguns à minha volta dormiram. Eu fiquei lá colecionando aquela angústia.

Teatro ou cinema? Por quê?

Os dois, acho que um serve de “refresco” para o outro, tanto para trabalhar quanto para assistir.

Cite um espetáculo do qual você gostaria de ter participado. E por quê?

Geralmente fico satisfeita assistindo. Vale filme? Tenho vontade de trabalhar num filme do Woody Allen.

Já assistiu mais de uma vez a um mesmo espetáculo? E por quê?

Já operei a luz de alguns espetáculos, acompanhando a temporada inteira. É legal ver o espetáculo várias vezes. Gostei muito de ter operado a luz do espetáculo: “A Última Gravação de Krapp” e “Ato Sem Palavras”, duas excelentes peças curtas do Beckett, com direção da Isabel Cavalcanti e Sérgio Britto atuando.

Qual dramaturgo brasileiro você mais admira? E estrangeiro? Explique.

Dos jovens dramaturgos brasileiros vou citar três: o Pedro Brício, a Daniela Pereira de Carvalho e o Jô Bilac. Dos autores estrangeiros que conheço o meu preferido é Anton Tchekov.

Qual companhia brasileira você mais admira?

Gosto de várias, mas tenho afinidade especial pela Cia.dos Atores. Tive a oportunidade de trabalhar com eles no espetáculo “Devassa, Segundo a Caixa de Pandora, Lulu”, com direção de Nehle Franke, e me encantei ainda mais, admiro a maneira séria e ao mesmo tempo despojada como trabalham.

Existe um grupo ou companhia de teatro que você acompanhe todos os trabalhos?

Procuro acompanhar os da Cia. dos Atores.

Qual gênero teatral você mais aprecia?

Aprecio uma peça bem feita, com cuidado e clareza, o gênero pode ser drama, comédia, tragédia ou “misturinha”.

Qual lugar da plateia você costuma sentar? Por quê?

Costumo sentar mais para o fundo ou no meio, pois gosto de ter uma visão panorâmica da cena e também observar as reações do público.

Fale sobre o melhor e o pior espaço teatral que você já foi ou já trabalhou?

Sempre penso os cenários em função da situação espacial. Então, um espaço que a princípio parece ruim (que poderia ser o pior espaço) muitas vezes leva o cenário para um caminho diverso e o que parecia um problema passa a ajudar na solução. 

Já assistiu a alguma peça documentada em vídeo? O que acha do formato?

Acho muito importante como registro.

Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou?

Ambos.

Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos?

Com amigos da área que tenho afinidade, uma boa ideia e uma produção confortável para que tudo flua bem.

Cite um cenário surpreendente.

Os cenários do grupo argentino Fuerza Bruta, especialmente a cena em que desce do teto uma piscina de plástico espesso e os atores dançam na água por cima das nossas cabeças.

Cite uma iluminação surpreendente.

A iluminação da peça “O Perfeito Cozinheiro das Almas desse Mundo”, com direção de Jefferson Miranda e luz de Tomás Ribas.  Incrível e delicada, sem nenhum refletor no espaço, apenas lâmpadas e luminárias e uma luz que entrava através das janelas (a partir de refletores que estavam posicionados em um prédio do outro lado da rua).

Cite um ator que surpreendeu suas expectativas.

Felipe Rocha.

O que não é teatro?

O que não é.

Que texto você foi ler depois de ter assistido a sua encenação?

Nenhum ainda.

A ideia de que tudo é válido na arte cabe no teatro?

Não, não concordo com essa premissa nem na arte nem no teatro.

Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro?

Em cena: decidir usá-la ou não, avaliando o que ela realmente pode acrescentar de relevante. Para pesquisas: genial, só ajuda.

O teatro é uma ação política? Por quê?

Na medida em que estabelece uma comunicação direta com o público acho que pode ser considerado sim.

Quando a estética se destaca mais do que o texto e os atores?

Quando o espetáculo está desequilibrado.

Qual encenação lhe vem à memória agora? Alguma cena específica?

“Pterodáctilos”, de Nick Silver, com direção do Felipe Hirsch. As cenas em que a personagem da Mariana Lima entra com o rosto enrolado cada vez com um material: papel filme, gase, pomada, como se tivesse sofrido cirurgias plásticas, muito divertido.

Em sua biblioteca não podem faltar quais peças de teatro?

Tantas quantas eu puder ler.

Cite um diretor (a), um autor (a) e um ator/atriz que você admira.

Admiro tantos que prefiro não citar só um de cada.

Qual o papel da sua vida?

Esse que estou vivendo.

Uma pergunta para William Shakespeare, Nelson Rodrigues, Bertold Brecht ou algum outro autor ou personalidade teatral que você admire.

Oi, Nelson, você quer jantar aqui em casa no sábado? Vamos fazer uma comida
especial.

O teatro está vivo?

Sim, vivo e múltiplo.