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Papo de Teatro com Ana Luísa Lacombe

Publicado em: 21/03/2011

Ana Luísa Lacombe é atriz

 

Como surgiu o seu amor pelo teatro?
Desde sempre. Meus pais sempre me levaram ao teatro desde pequena. Vi todas as montagens do Tablado e do Grupo Navegando, no Rio de Janeiro.  Fazia peças de teatro na família, com os primos, fiz cursos de teatro com Ilo Krugli e Maria Clara Machado. Sempre gostei, sempre busquei.

 

Lembra da primeira peça a que assistiu? Como foi?
Não me lembro da primeira. Como sempre vi não consegui registrar esta memória da primeira vez. Mas me lembro de cenas inteiras de espetáculos do Tablado que vi.  Lembro-me de falas e timbres, de trilhas, de emoções…

 

Qual foi a última montagem que você viu?
Foi “Alma Imoral”, com Clarice Niskier. Magistral! Ela, o texto! Simples, profundo, divertido e lindo!

 

Um espetáculo que mudou o seu modo de ver o teatro.
“A Tempestade”, dirigida pelo Paulo Reis, no Parque Lage, no Rio de Janeiro, na década de 80.

 

Um espetáculo que mudou a sua vida.
“Escola de Mulheres”, de Molière, dirigido por Domingos de Oliveira e estrelado por Jorge Dória. Eu estava no elenco e foi com ele que vim morar em São Paulo e minha vida mudou.

 

Você teve algum padrinho no teatro? Se sim, quem?
Não. Muita gente que me inspirou, me ensinou, iluminou. Mas construí meu percurso sozinha.

 

Já saiu no meio de um espetáculo? Por quê?
Já. Vendo amigos queridos e talentosos em produções equivocadas. Constrangi-me e preferi ir embora.

 

Teatro ou cinema? Por quê?
Teatro. Sempre. Relaciono-me com o público. Preciso ver a plateia, suar a camisa, repetir, repetir, repetir, buscar o virtuosismo, sem nunca alcançar, eu sei, mas buscar…

 

Cite um espetáculo do qual você gostaria de ter participado. E por quê?
Qualquer boa montagem de Shakespeare ou Nelson Rodrigues. Nunca fiz nenhum desses dois mestres e adoraria ter a chance de falar seus textos.

 

Já assistiu mais de uma vez a um mesmo espetáculo? E por quê?
Sim. Para ver uma bela interpretação. Sempre que volto é por causa do ator.

 

Qual dramaturgo brasileiro você mais admira? E estrangeiro? Explique.
Brasileiro, Nelson Rodrigues. Lugar comum? Talvez… Mas acho o texto dele maravilhoso. Tem um ritmo, uma precisão e personalidade que eu adoraria ter a oportunidade de interpretar. Ainda vou fazer um espetáculo com texto dele. Do meu jeito. Sozinha. Narrando.
Estrangeiro… Ando transitando mais na literatura e tentando fazer a ponte entre ela e o teatro. Quero trazer o Isaac Bashevis Singer para o teatro. Tem sido meu autor predileto e “tenho vontade” dos textos dele.

 

Qual companhia brasileira você mais admira?
Difícil esta pergunta… Admiro sinceramente quem se mantém fiel às suas ideias, quem consegue criar uma estrutura de trabalho, quem tem profissionalismo, organização e não deixa, em nenhum momento, de ser artista. Admiro diversas companhias e grupos teatrais nos quais identifico essas características. Isso não é proselitismo.

 

Existe um grupo ou companhia de teatro que  você acompanhe todos os trabalhos?
Tento acompanhar o trabalho dos artistas que são meus parceiros: Caixa de Imagens, Meninas do Conto, Núcleo de Teatro Trecos e Cacarecos, Cia. Megamini, Cia. La Mínima… Acompanho, também, sempre que posso, o Grupo Folias D’Arte, Grupo Tapa e a Cia. dos Atores (RJ).

 

Qual gênero teatral você mais aprecia?
Não sou muito afeita a comédias. Gosto de espetáculos mais densos. Gosto de bons textos, bons atores e uma boa direção. Grandes produções não me impressionam. Gosto de talento.

 

Qual lugar da plateia você costuma sentar? Por quê? Qual o pior lugar em que você já se sentou em um teatro?
Da quinta fila para trás, ao centro. Não gosto de sentar na primeira fila. Fica perto demais, perdemos a noção do todo, a profundidade do espaço cênico.

 

Fale sobre o melhor e o pior espaço teatral que você já foi ou já trabalhou?
Vou parecer suspeita ao falar, mas estou amando trabalhar no Tucarena. O espaço é perfeito para as minhas três montagens e toda equipe do teatro é muito legal. Espero poder usufruir mais vezes deste espaço.
O pior… Nem sei… Passamos por tanto sufoco quando viajamos por este Brasil. Mas nenhuma dificuldade técnica é pior do que ser tratado com desprezo e desconsideração. Isto é que é difícil de lidar. Nós que trabalhamos com teatro para crianças sofremos às vezes discriminação e agressão por parte de administradores de teatro e produtores de espetáculos adultos. Mesmo com toda trajetória que tenho e toda experiência eventualmente ainda me surpreendo com essas situações. No momento, porém, não tenho do que reclamar.

 

Já assistiu a alguma peça documentada em vídeo? O que acha do formato?
Acho importante documentar as montagens em vídeo. Sabemos que é apenas um documento. Não é a peça. Mas a montagem não se perde para todo o sempre. Adoraria ter a chance de ver um vídeo da Cacilda Becker interpretando suas grandes personagens.

 

Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou?
Essa pergunta dá uma tese. Existe peça ruim porque o encenador se equivocou, porque o texto é ruim, porque o elenco é fraco, porque é longa, por que é esteticamente feia… E tem a questão do gosto também. O que para mim não serve, pode servir para você.

 

Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos?
Não tenho “o espetáculo dos meus sonhos”. Tenho meus próximos sonhos. Quero montar um texto do Isaac Bashevis Singer, um da Marina Colasanti, Maria Clara Machado…

 

Cite um ator que surpreendeu suas expectativas.
Denise Stoklos, Clarice Niskier, Renata Zhaneta, Otavio Martins. Atores que falaram seus textos com uma propriedade que me fez ser público novamente. Parei de prestar atenção na produção e me interessei pela arte.

 

O que não é teatro?
Muita coisa não é. Mais fácil dizer o que é: teatro é o ator em cena. Dominando seu espaço, seu discurso, jogando com o público e com os outros atores (se houver outros), sabendo do seu corpo e de sua voz.

 

Que texto você foi ler depois de ter assistido a sua encenação?
Li para fazer a encenação de meus espetáculos dezenas livros relacionados aos temas das histórias que narro. Leio literatura, não tenho lido dramaturgia. Meu foco é levar a literatura para o palco.

 

A ideia de que tudo é válido na arte cabe no teatro?
Cabe. Sempre cabe. Quem sou eu para dizer o que não vale. O público tem que querer ver o que você está propondo. Teatro pressupõe plateia. Faço teatro para o outro. Se o público estiver a fim de ver o que você está propondo, está valendo a pena.

 

Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro?
Continuar sendo mais uma das formas de o homem se expressar. Mais uma das artes, que terá que compartilhar seu espaço com as outras artes que estão surgindo. Se mesclar com elas, dialogar com elas. Mas o teatro não acaba. Ele tem um ingrediente que as outras mídias não têm: a presença de todos os envolvidos naquele momento artístico num mesmo espaço, no mesmo momento. O teatro tem este privilégio de ser um momento único.

 

O teatro é uma ação política? Por quê?
É se o artista tomar esta missão para si. Para mim é. Mesmo fazendo teatro para crianças estou pensando nelas e nas reflexões que quero propor com aquela narrativa.

 

Quando a estética se destaca mais do que o texto e os atores?
Tenho um pouco de preguiça disso. Gosto de atores e texto. Quando tem tudo melhor ainda.

 

Qual encenação lhe vem à memória agora? Alguma cena específica?
“Calendário da Pedra”, de Denise Stoklos. Assisti duas vezes. Perfeito. Me fez rir, chorar, admirar. Uma das grandes artistas deste País, sem dúvida.

 

Em sua biblioteca não podem faltar quais peças de teatro?
Em minha biblioteca não pode faltar literatura: Machado de Assis, Dostoiévski, Isaac Bashevis Singer, Amos Oz, Tchecov, Katherine Mansfield…

 

Cite um diretor (a), um autor (a) e um ator/atriz que você admira.
Enrique Diaz, I.B Singer, Denise Stoklos.

 

Qual o papel da sua vida?
Não almejo mais papéis e sim textos. Quero fazer um texto do Singer.

 

Uma pergunta para William Shakespeare, Nelson Rodrigues, Bertold Brecht ou algum outro autor ou personalidade teatral que você admire.

Para Nelson:
Li uma apresentação sua num livro de seu irmão, Mario Filho, sobre Portinari. Senti em seu texto uma ternura e poesia…  Este Nelson afetivo e terno está contido em quais personagens de sua obra?

 

O teatro está vivo?
Sempre. São Paulo é um caldeirão de montagens e criações.
Mente quem diz que está à morte.