Papo de Teatro com Alexandre Reinecke

Publicado em: 24/01/2011

Alexandre Reinecke é diretor.

 

Como surgiu o seu amor pelo teatro?
Na verdade, foi surgindo. Começou aos 15 anos, em um curso profissionalizante em Campinas, quando meu interesse era ser um galã da Globo…  Mas, no decorrer da vida, o bicho do teatro foi me pegando cada vez mais. E se consolidou mesmo, quando da minha incursão na direção. Agora não tem mais jeito!

 

Lembra da primeira peça que assistiu? Como foi?
Minha mãe sempre me levou ao teatro infantil desde muito pequeno, foi a maior incentivadora de minha carreira. Foi ela, inclusive, quem encontrou aquele primeiro curso. Ela era ligada ao CPC da UNE e grande amiga de Paulo Pontes e Oduvaldo Vianna Filho.  Bibi Ferreira me pegou no colo, quando Paulo estava escrevendo “Gota D’Água”, que, para mim, é a obra-prima do teatro brasileiro. E, claro, foi ela também quem me levou à primeira peça adulta. Era “Piaf”, com a Bibi Ferreira. Fomos ao camarim e minha mãe disse à Bibi que eu estava querendo fazer teatro. Bibi, com aqueles olhos fortes, disse: “Teatro é voz, o resto se aprende. Solta a voz garoto”. Eu, envergonhado, perguntei: “O que a senhora quer que eu fale?” Ela respondeu: “Você tem voz, vai em frente!” – e aqui estou eu.
 

Qual foi a última montagem que você viu?
Vejo muito teatro. A última que assisti foi “In On It”. Genial!
 

Um espetáculo que mudou o seu modo de ver o teatro.
Não sei dizer um, apenas. Cito aqui alguns que me influenciaram.
Na comédia, sem dúvida, “Sua Excelência, o Candidato”, que acabou com o preconceito bobo e empáfia de todo iniciante com relação à comédia.
“Electra Com Creta” e a “Trilogia Kafka”, de Gerald Thomas.
“Paraíso Zona Norte” e “Nelson 2 Rodrigues”, de Antunes Filho.

 

Um espetáculo que mudou a sua vida.
Nenhum mudou minha vida, mas os citados acima me encheram os olhos para continuar.
 

Você teve algum padrinho no teatro? Se sim, quem?
Padrinho mesmo, Paulo Autran, de quem fui assistente em 2001 e que, com certeza, consolidou meu desejo de dirigir.
 

Já saiu no meio de um espetáculo? Por quê?
Já, quando era um imaturo, porque a peça estava me desagradando demais. Não faço mais isso… Sei o quanto é difícil e devemos respeitar quem quer que esteja em cima do palco.
 

Teatro ou cinema? Por quê?
Teatro, porque é o que sei fazer… Ainda chego ao cinema, porque é um sonho atual.
 

Cite um espetáculo do qual você gostaria de ter participado. E por quê?
De todos que me encheram os olhos. Sempre aprendo muito assistindo. Se ainda fosse ator, com certeza de “Os 39 Degraus”, que é um presente para qualquer ator.
 

Já assistiu mais de uma vez a um mesmo espetáculo? E por quê?
Só de amigos, porque eles pediram. Não gosto de ver duas vezes um mesmo espetáculo.
 

Qual dramaturgo brasileiro você mais admira? E estrangeiro? Explique.
Sem dúvida, Nelson Rodrigues, pois acho que sua obra rasga a sociedade brasileira e a expõe sem firulas, além de achar sua dramaturgia divertida e um prato cheio para qualquer diretor.
Estrangeiro, talvez Yasmina Reza, que consegue discutir a sociedade contemporânea com extrema grandeza.
 

Qual companhia brasileira você mais admira?
Cia. dos Atores, CPT, Galpão, Cemitério de Automóveis.
 

Existe um grupo ou companhia de teatro que você acompanhe todos os trabalhos?
Todas acima, quase todos os trabalhos
 

Qual gênero teatral você mais aprecia?
Todos, com tanto que seja bem feito.
 

Qual lugar da plateia você costuma sentar? Por quê? Qual o pior lugar em que você já se sentou em um teatro?
Gosto de sentar no corredor, para não ter gente dos meus dois lados, pois me mexo muito, tenho as pernas compridas e dor nas costas, quando fico muito tempo sentado.
O pior lugar é aquele que não tem espaço para as pernas e com gente grande dos dois lados… Enlouqueço.
 

Fale sobre o melhor e o pior espaço teatral que você já foi ou já trabalhou?
Difícil essa, hein?! Quase todos têm seu lado bom e ruim.
 

Já assistiu a alguma peça documentada em vídeo? O que acha do formato?
Muitas. Teatro não foi feito para ser filmado, simplesmente por ser a arte do ator, onde cada espetáculo é um espetáculo.
 

Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou?
Existe muita peça ruim, eu mesmo já dirigi algumas.
 

Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos?
“Macbeth”, com grandes atores, no Globe Theatre, dirigida por mim… (risos)
 

Cite um cenário surpreendente.
Quase todos de Daniela Thomas e todos do Sloboda.
 

Cite uma iluminação surpreendente.
Agora você me pegou.  São tantas que me surpreenderam. Luz é tão importante num espetáculo. Não lembro de uma especifica. Atualmente, adoro a feita para “Os 39 Degraus”, a daqui e a de Nova York.
 

Cite um ator que surpreendeu suas expectativas.
Norival Rizzo, sempre me surpreende. Acho o melhor ator do Brasil, disparado.
 

O que não é teatro?
Stand Up.  Apesar de eu adorar.
 

Que texto você foi ler depois de ter assistido a sua encenação?
“Macbeth”, dirigido pelo Antunes Filho, e sempre Nelson Rodrigues.
 

A ideia de que tudo é válido na arte cabe no teatro?
Sim!!! O teatro é a única profissão onde podemos brincar de casinha por toda a vida… E quando somos criança tudo pode.
 

Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro?
Continuar sendo o que é, incluindo a tecnologia, quando necessária.
 

O teatro é uma ação política? Por quê?
Pode e deve ser sempre que a política se mostra uma merda, como a de nosso País.
 

Quando a estética se destaca mais do que o texto e os atores?
Quando o diretor quer aparecer mais que tudo.

Qual encenação lhe vem à memória agora? Alguma cena específica?
“In On It” e “As Centenárias”, com Andréa Beltrão e Marieta Severo, dirigida por Aderbal Freire-Filho.
 

Em sua biblioteca não podem faltar quais peças de teatro?
A obra completa do Nelson Rodrigues.
 

Cite um diretor (a), um autor (a) e um ator/atriz que você admira.
Aderbal Freire-Filho, o diretor que quero ser quando crescer.
 

Qual o papel da sua vida?
Dirigir sempre.
 

Uma pergunta para William Shakespeare, Nelson Rodrigues, Bertold Brecht ou algum outro autor ou personalidade teatral que você admire.
Nelson, por que todo mundo acha que te entende mais que todo mundo?
 

O teatro está vivo?
Sempre! É a única arte ao vivo.