Papo com Paroni | Tema delicadamente criminoso – III (*)

Publicado em: 03/08/2015

Mauricio Paroni de Castro, especial para a SP Escola de Teatro
 
 
Esta é a terceira e última parte de um artigo longo sobre teatro estendido ao cinema, que aconteceu em minha vida após curar-me, em 2004, de grave linfoma. A morte quase aconteceu também, mas no lugar dela apareceram as figuras contadas a seguir. (**)
 
 
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Dirigi duas peças — e me diverti em criticá-las — especialmente para o filme “Crime delicado”. “Farsas libertinas”, logo no início do filme, traz embutido o próprio final deste: um voo libertário sobre a prisão da ausência da perna e da abertura do que o cinto de castidade encerra; “Leonor de Mendonça”, de Gonçalves Dias, o melhor texto clássico produzido em língua portuguesa. Não poderia faltar numa homenagem emocional ao nosso teatro, como é esse filme. Uma razão lógico-narrativa foi a principal motivação da escolha dos trechos eleitos: o ciúme do protagonista acusador de adultério. Adaptei a escritura dramatúrgica para a linguagem cinematográfica e fui detalhista na preparação da ação teatral. Beto transformou o todo em cinema. A mesma razão — ciúme — determinou a escolha do “Woyzek” de Georg Büchner, com direção de Cibele Forjaz.  Sofri  para escrever a crítica correspondente, pois se tratava de uma colega. Se me diverti malhando a mim mesmo, vi que jamais poderia ser um crítico na vida real. Uma coisa é acabar com um espetáculo que se vê — o que nem era o caso. Outra é escrever isso publicamente em poucas linhas de um jornal.
 
 
Havia, ainda, outra possibilidade, riquíssima, trazida por Marco Ricca, que era “A gaivota”, de Tchecov. Existencial, teatro em sua forma mais  perfeita, era uma certeza sobre a qual se trabalhou e se escreveu por um mês, pelo menos. Beto e Marco acordaram-se em diluir tudo nos diálogos. Coisa difícil, de gente abnegada, gesto de nobreza de legionário por parte do Ricca, que, por sinal, parece-se incrivelmente com um centurião dos tempos do início da Urbe. Durante as discussões sobre o tema, observava-o sorrir enquanto defendia suas idéias. Comparava-o às estátuas que admirei por anos de passeios em ruínas romanas na Itália. Combinamos de um dia sairmos fantasiados de toga por aí… risonhas digressões que davam oxigênio às sisudas discussões naquele apartamento. Acredito que a herança tchecoviana esteja, com força, na incomunicabilidade de Antonio Martins. Exemplo entre tantos: a cena em que Antonio se ajoelha ao pé de Inês e implora o seu amor. Tinha tudo para ser patético-romântica. Mas, graças aos diálogos de Ricca, ao enquadramento e à sua interpretação teatral, há nela a precisão desengonçadora dos desencontros de universos afetivos que não vi em qualquer montagem do dramaturgo russo.
 
 
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Gostaria de lembrar o que chamei de “misterioso mecanismo do Sinédrio”.  É um mecanismo antigo, mediterrâneo e religioso, no sentido em que Borges consagrou. O primeiro núcleo de roteiro do qual participei — Marco, Beto e Marçal — inadvertidamente, escrevia por meio das pessoas que eram, mas também por meio do “outro de si” daquelas mesmas pessoas. 
 
 
O Sinédrio servia-se despudoradamente da contradição entre as diferentes linguagens empregadas, em vez de operar à ocidental, por teses cartesianas. O cabalista Beto foi o responsável, porque a gasolina intelectual dele é de pura intuição pascaliana, que trabalha por círculos concêntricos de poder e de idéias. O Sinédrio operava à hebreia, origem da imensa e antiga cultura-mãe do mediterrâneo, mãe do Brasil, esquecida porque distante no tempo e na geografia. Não se mencione estória exclusiva de África: obrigados brutalmente a virem para cá, os africanos se fundiram e se fortaleceram depois com outra cultura-mãe massacrada — a dos índios —, vítimas da lógica pestilenta que rege a dominação entre diferenças temidas e removidas na cegueira. Até isso está nesse filme: o México originário entrou através de um de seus protagonistas, Felipe Ehremberg — trazido por Marçal — coroava o mecanismo concêntrico mediterrâneo. 
 
 
Chamado por Beto, fui aceito com alegria por Ricca, escrevi as críticas, virei “teólogo” das centenas de conjecturas nascidas para tentar imprimir no negativo o romance de Sérgio Sant’Anna, que mistura pelo menos cinco linguagens artísticas diferentes (poesia, prosa, teatro, critica, artes plásticas, cinema). Sugeri o “rábula” Chico: Francisco Carvalho Filho, que escreveu a cena do julgamento, o acerto de contas com a realidade objetiva e legal de um suposto crime. Sentava-se, fumava suas cigarrilhas, conhecia um mundo novo e invariavelmente voltava com uma cena melhor que a outra. 
 
 
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Foram os dias do Sinédrio a dar-me a certeza de que venceria o gravíssimo linfoma que trazia em meu mediastino. Estou feliz por ter sobrevivido para contar a história daquela estória de intenso amor ao Cinema, à Arte, ao Humano, no sentido empregado por Erasmo de Rotterdam em seu “Elogio da loucura”. Humano, sem separações ou remoções de qualquer gênero; Amor, no sentido da Compaixão Universal que o Budismo elucida tão bem. “Crime delicado” é um filme para depois, não é “processo de vanguarda”. Será bom vê-lo com os anos. De certa forma o fizemos por — e não para — nós mesmos. Beto e Sérgio lembram Kantor como ele certamente gostaria: a obra de arte se desenrola diante do público e não somente para o público. Não é pouco. Estou muito orgulhoso de ter feito alguma coisa a partir da densidade da literatura de Sérgio Sant’Anna, narrador por excelência de uma das quintessências da vida: a própria. A única que podemos conhecer.
 
 
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(*) Reescritura de “Crime delicado ou A vida é mais que a estética”, publicado no site Cronopios, em 28/01/2006 
(**) O filme que surgiu em 2005 pode ser visto aqui – https://www.youtube.com/watch?v=IJ5IY-T5fHs 

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