Papo com Paroni | Stand up – and down (*)

Publicado em: 06/07/2015

Maurício Paroni de Castro, especial para a SP Escola de Teatro
 


O ator Leo Bassi, na peça “A Revelação”

O stand up – se produzido e fabricado esteticamente sob ditames do modismo – tende a banalizar o riso e a monopolizar o talento dos atores. Em vênia dos que assim o fazem, está o imperativo lógico-histórico segundo o qual o ator se sobrepõe quando a dramaturgia escrita decai. Essa foi a razão máxima do ingresso oficial da commedia dell´arte na cultura das elites nacionais das cortes europeias, durante os séculos XVII e XVIII. No interstício entre Molière e Goldoni cristalizou-se e sepultou-se a sua forma num gênero.

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Tal forma de contar piadas em público imita a televisão e o cinema. Termina por relegar ao segundo plano a comunicação direta do teatro, sem que as pessoas percebam o defraudamento. Em consequência, a intrínseca natureza social do riso jaz aprisionada nas masmorras das citações e referências a formas que nada têm a ver com a tradição do espetáculo ao vivo. Este, em última instância, é o que mantém e manterá o teatro – justamente – vivo.

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Teatro é coisa de antes da sociedade industrial; mesmo na contemporaneidade, isso jamais pode ser negado, não digo historicamente, mas tecnicamente. Hoje, atores que cuidam adequadamente do tempo cômico rareiam. Mais ainda os que transformam a coisa num gesto anarquista consciente. Apesar de serem poucos, dá-nos esperança o fato que neles reste operante o eterno ímpeto imortal e destruidor da derrisão; há exemplos famosos: é bastante útil observar a atitude em Leo Bassi. https://www.youtube.com/watch?v=4l4hJ3V3aKM (**). Ali, as assertivas do filósofo francês Henry Bergson (1859-1941) sobre o riso nutrem o saboroso caldo da civilidade espetacular.

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Infelizmente, essas reflexões são quimeras teóricas quase inalcançáveis para os nossos atores: com raríssimas exceções – entre as quais esta instituição -, toleramos a inexistência quase total de escolas para quem não pode pagar aprendizado teatral – onde poderia revigorar-se a raiz profunda da comicidade. Esta só existe, como a boa cozinha, na extrema necessidade de sobrevivência moral, existencial e corporal. As chamadas políticas (?) de chamada “inclusão” existentes preveem o teatro não como estética, mas como ideologia política. O dano já pode ser constatado no presente; grassa uma arte cômica paupérrima de conteúdo e forma, afogada numa insossa sede de matéria vazia. O cômico clássico poderá sobreviver se pesarmos o valor que se dá, na sociedade contemporânea, à miséria do outro em relação ao que se possui, ao que se é ao que se aparenta ser.

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Aparência é o que temos de sobra. O que nos falta é gente que possa equacionar e gramaticar esse substrato cultural. É de se lamentar que a precariedade a que se relega o nosso status profissional obrigue os atores a recorrerem a stand ups, monólogos burros para remediar bilheterias, besteiróis, locuções comerciais, reclames, pecinhas preconceituosas, peçonas de denúncias “corretas” e teatro infantilizado (aquele opróbrio cênico que se diz “para crianças”). Estes últimos merecem toda a catilinária feroz que se puder criar – destruíram a memória e prática das vozes de rádio, responsáveis pelo saber imprescindível de falar em cena sem afetação “teatral”.

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(*) Reescritura do artigo publicado  em 2009 no site Cronopios, do saudoso Pipol, com o nome de ” Influenza solitária de palco”

(**) Veja-se também: https://www.youtube.com/watch?v=QhY3Ecbss-U
https://www.youtube.com/watch?v=5T7biLfdWo0
https://www.youtube.com/watch?v=7myDIPLSvxI

 

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