Papo com Paroni | Ensaio e não ensaio (II): Ator e não ator (*)

Publicado em: 01/07/2015

Maurício Paroni de Castro, especial para a SP Escola de Teatro

Quando se trabalha com a direção de atores, servir-se dos limites da representação e da realidade traz a uma tensão particularmente definidora: a tensão entre aqueles que se consideram profissionais e aqueles que os mesmos profissionais consideram amadores. Tensão, não inimizade, é importante frisar. Dentre estes, há os que se consideram os “profissionais” um modelo estético a ser seguido e aqueles que simplesmente não consideram o problema. Estes são os não-atores.

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Acredito que a arte esteja mais próxima dos primeiros e dos terceiros. Trabalhei em alto nível com as duas categorias e me dei muito mal com os “amadores”. Ou com aqueles “profissionais” que procuram falar com a voz empostada pelo que acham que são intenções estudadas na leitura de mesa. Gritam em alto e bom som mesmo o maior segredo de estado. O teatro, pugnam tais luminares do palco, confere-lhes poderes de viver situações extremas com um conforto que enrubesceria James Bond. Exibem sem economia a garganta-megafone-policial-de-passeata, alheios a qualquer característica psicológica ou social daquilo que pensam representar. Não prezam o signo, mas o estilo. Tenho calafrios quando desconfio descrever muito mais profissionais do que gostaria. Alguns, treinados com sinal invertido num improvável Grotowski de oitava mão, têm animais os mais diversos como modelo estético.

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O que pode definir os limites e os possíveis contornos desse tipo de tensão teatral é a proximidade ou o distanciamento entre o ator e o ser humano. Shakespeare e a grande dramaturgia que se seguiu se pautaram sempre por isso: o Humanismo do Renascimento é, ainda, a linha-mestra da nossa arte. Atenção: refiro-me ao corpus idealis, e não ao culto raso e fundamentalista de gabinete dos textos.

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O dilema que gostaria de definir aqui é especial: o corpo e a mente do ator são precisamente o corpo de um ser humano, que, naquele momento de trabalho, é ator. O pianista tem o piano como instrumento. O ator tem somente (!) a si mesmo: sua mente, seu corpus organicus, sua biografia, suas relações, sua existência presente. Não se trata da mimese da realidade sugerida por Aristóteles. Trata-se daquilo que chamo de credibilidade da representação – uma linha de prumo que deve guiar toda e qualquer indicação de direção durante qualquer trabalho. Nesse sentido, endosso o que vi de Strehler: a luta por um teatro humano. Não foi por acaso ou por ideologia que ele viveu e criou o seu teatro como um serviço público.

Eu sei, não deveria qualificar esteticamente um espetáculo de bom ou ruim. Faço, já fiz e gostei de tudo o que foi teatro (**). Julgamento estético não é e nunca foi função do diretor. Seria função dos críticos – se deles o exigissem os seus editores.
Pragmaticamente, qualifico os espetáculos, ao exercer uma função técnica de diretor, em universo crível ou falência da representação do mesmo. Creio procurar uma verdade existencial no que exerço; decorre disso que tento livrar o ator de suas autoimposições e naturais fetichismos estéticos para fazê-lo partir do ser humano que é na direção de um papel crível, sugerido pelo texto ou pelo procedimento criativo empregado.  O mesmo se dá com o “não ator”: tento livrá-lo de uma auto estetização. Os dois procedimentos se assemelham muito mais do que se possa supor. O resultado estético é o mesmo patamar de representação do mundo em que vivem atores profissionais e não atores.

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No engodo, na estilização, na ideologia vazia – vale dizer, na mediocridade – trafega um bom dinheiro de subvenção ou de renúncia fiscal, de poder, de carreira. Nesse pântano, profissionais de verdade são bem poucos, se entendidos não como gente obrigada a dar cursos fajutos, fazer bicos, publicidade, mas como gente que ganha a vida com o teatro em que acredita. Nem entendidos como profissionais os que têm o hobby do palco. Há massagistas, advogados, médicos, comerciantes, ninfo-homo-erotomanes que fazem “teatro profissional” nas horas vagas e discriminam artistas sutis na palavra e no gesto (para citar Hamlet). Muitos têm boa qualidade, mas não é disso que se trata neste artigo.

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A maioria de nós é condenada pela nossa sociedade e política cultural a morrer de fome, ou a viver de permutas escassas, heranças, promiscuidades variadas, defesa de sortidas colorações ideológicas. Essa existência dramática, que nos enriqueceria humanamente, que daria muito mais potência à nossa arte, fica escondida sob estilo e a mediocridade da falta de técnica e cultura teatral.

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Fortuitamente, alguma forma cênica traz consciência a esse drama submerso emerge diante do público.  Para evitar esse defeito crônico, provoco sistemáticas indagações existenciais durante o período de criação. De vez em quando, quem ensaia comigo vive sérias crises. Sempre me perguntei o porquê disso: acho que aí está uma boa fonte de angústias esteticamente construtivas.

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(*) Revisao de artigo publicado no site Cronopios.com, editado pelo saudoso Pipol, em17/03/2009 como “O desenho angustioso do limite”.

(**) De teatro épico-político de “Opla, Siam Vivi” (Opla estamos vivos, a partir de Ernst Toller, prêmio de melhor direção de 1993 em Milão) a teatro minimalista de “Gigantes da Montanha, antes” (a partir de uma cena do texto homônimo de Pirandello).
 

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