Palco SP | Resenhando Cenografia

Publicado em: 13/03/2013

Um jovem estava sentado, com um pequeno caderno apoiado no colo. Nas mãos, um lápis passeava, decidido, riscando o papel. De vez em quando, levantava a mão e observava o desenho. Por um momento, era possível perceber as formas – retas, uma estrutura de metal, em dois níveis. Em seguida, levantava a cabeça e olhava para frente. E tudo ficou claro. Ele desenhava o que via – o teatro no 1º andar da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco. Em alguns minutos, cinco figuras ocupariam o centro da sala para dar início ao Palco SP – Encontro Internacional sobre o Ensino da Cenografia, iniciado ontem (11), na Sede Roosevelt. 

 

De repente, o coordenador dos cursos de Cenografia e Figurino e Técnicas de Palco, J.C. Serroni, adentra o espaço e discursa: “Boa noite. Este é um momento de festa para a cenografia brasileira. Reunimos importantes profissionais do mundo todo para debater sobre o ensino cenográfico contemporâneo e as áreas que dialogam diretamente, como iluminação, figurino, técnicas de palco e sonoplastia”. E a mesa recebeu os cenógrafos Daniela Thomas, Simone Mina, André Cortez e José de Anchieta. Enquanto os convidados eram chamados para a Roda de Conversa, o desenhista fechou seu caderno, guardou o lápis e observava, atento. 

 

Nos momentos que se seguiram, os artistas debateram os conceitos de cenografia, processos de trabalho e repensaram a posição do cenógrafo, em seus desdobramentos na contemporaneidade. Simone iniciou declarando que o trabalho cenográfico é “a máxima capacidade de materializar um pensamento no palco e que dialoga com o público”. Daniela concordou e disse que “o cenógrafo possui a habilidade de manipular signos e simbologias”. “Tudo o que existe carrega uma história e, quando deslocamos objetos e coisas, elas ganham outros sentidos e são re-significadas no novo espaço”, afirmou. 

 

Da esquerda para direita, J.C Serroni, Daniela Thomas, André Cortez, Simone Mina e José de Anchieta (Foto: Arquivo SP Escola de Teatro)

 

Outro ponto abordado foi a transformação que o teatro, e, por conseguinte, a cenografia, vem passando. “Ao ver alguns trabalhos, fico impressionado com a evolução de materiais e técnicas empregados na criação de um cenário. São soluções que não se imaginava há 15, 20 anos”, disse Anchieta. Simone elencou o intercâmbio entre diversas áreas e a cenografia. “Hoje, percebo que houve uma ruptura de linguagens. É possível transitar entre moda, arquitetura, cenografia, cinema, e reuni-las no palco”.

 

Diante disso, Serroni levantou a questão de como se dá, então, a relação do cenógrafo com o cenotécnico: entre o que cria e o que executa. “Geralmente chamadas de ‘áreas técnicas’, têm sido discutido que é preciso reconhecer os profissionais que ‘põem a mão na massa’ como agentes criadores também”, definiu. Cortez concordou e disse: “É preciso que haja uma forte parceria. Não existem mais essas formas restritas. Os dois artistas devem participar de todos os processos, juntamente com o diretor, os atores, o dramaturgo. Ao mesmo tempo em que se filosofa, se bate num prego”, brincou.

 

Ao final, Serroni pediu um “conselho” aos convidados para dar aos aprendizes e presentes. Daniela defendeu que o artista deve estar em total disposição para o trabalho, que é maior do que ele. “Em tempos nos quais as pessoas estão exaustivamente conectadas no mundo virtual, o trabalho de vocês dá o privilégio de criar contatos imediatos entre seres humanos. Isso é uma raridade e vocês têm essa chance”, declarou. Anchieta chamou atenção para o estudo teórico e repertório. “Estudem grandes artistas, a história da cenografia e do teatro no mundo e no Brasil. Leiam, leiam e leiam.”, repetiu. Já Cortez incentivou-os a estarem abertos para experiências profissionais e pessoais. “Aproveitem as oportunidades, experimentem e percebam os detalhes. Às vezes surgem problemas aparentemente grandes, e que você soluciona de maneira simples”. Mina concordou com os convidados e acrescentou: “Teatro é relacionamento, o que significa convivência e amizade. Sejam inquietos, estudem e façam amigos”, encerrou.

 

Texto: Leandro Nunes

 

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