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Os Verdes: Personagens para o último gole de água 

por Ivam Cabral, diretor-executivo da SP Escola Superior de Teatro

Talvez o mundo não acabe de uma vez.

Talvez ele termine aos poucos, num copo vazio sobre a mesa. Num rio que desaparece. Numa palavra esquecida. Numa memória que já não sabemos se é nossa. Talvez o colapso seja menos um acontecimento e mais uma lenta erosão daquilo que nos fazia reconhecer uns aos outros.

Foi por esse território que caminharam os estudantes do Módulo Verde da SP Escola Superior de Teatro – Faculdade das Artes do Palco.

Sob a inspiração das reflexões de Vandana Shiva, os experimentos deste semestre não procuraram apenas imaginar futuros distópicos. Procuraram imaginar pessoas dentro deles. Porque todo desastre ambiental é também um drama humano. Toda crise climática produz personagens. E todo personagem é, antes de tudo, alguém tentando respirar.

Em um abrigo subterrâneo, a confiança tornou-se tão escassa quanto a água. Em uma cidade que quase não conhece a chuva, a memória transformou-se em campo de batalha. Em um mundo convertido em mangue, a verdade precisou emergir das águas turvas do esquecimento. Em uma casa cercada por oceanos impróprios para o consumo, a sede passou a disputar espaço com a ética.

Mais adiante, reinos fantásticos descobriram que rios também podem morrer sufocados pela lógica do lucro. Povos que aprenderam a viver sob o mar enfrentaram a repetição das velhas desigualdades humanas. Comunidades inteiras viram sua sobrevivência depender das mãos de um único governante. E, por fim, uma entidade ancestral ergueu-se das águas para lembrar que a natureza nunca foi apenas paisagem, mas personagem da própria história.

Em todos esses trabalhos, a água apareceu como matéria e metáfora. Às vezes, ausência. Às vezes, poder. Às vezes, memória. Às vezes, conflito. Mas sempre vida.

E talvez aí resida a beleza secreta desse conjunto de experimentos. Nenhum deles parecia interessado em descrever o fim do mundo. O que estava em jogo era outra coisa: descobrir quais vínculos permanecem quando tudo o mais desaparece.

Como respirar quando mergulhamos no colapso? Talvez respirando juntos. O que a arte faz com o fôlego do mundo? Talvez o devolva a nós, um pouco mais lento, um pouco mais consciente. E como fazer emergir um recomeço? Os estudantes parecem sugerir que não será por meio de heróis solitários nem de soluções milagrosas. O recomeço nasce quando alguém decide cuidar da memória, dividir a água, questionar o poder, proteger a comunidade e imaginar futuros que ainda não existem.

No fundo, foi isso que vimos ao longo deste semestre: oito histórias diferentes tentando responder à mesma pergunta.

O que ainda pode florescer depois da tempestade?

Em Zona de Convergência, o Núcleo 1 nos conduz a um território de fronteira, onde a ameaça não vem apenas da guerra que devasta o mundo exterior, mas também das relações que se estabelecem dentro de um abrigo subterrâneo. Isolados da superfície, cinco sobreviventes dependem de um casal enigmático, El Niño e La Niña, para garantir aquilo que se tornou o bem mais precioso: a água. Sob a direção de Hércules Guará e Tiago De Paula, o espetáculo constrói uma atmosfera em que proteção e perigo passam a habitar o mesmo espaço.

A dramaturgia de Blendon Cássio e Thais Vaz investiga os limites entre confiança, dependência e sobrevivência. Em cena, Gabriela Bezerra, Guilherme Corrêa, João Pedro Celli, Laryssa Dreher, Paola Romero, Rafaela Araújo e Victor Leal dão vida a personagens atravessados pelo medo, pela escassez e pela incerteza. Os universos visuais concebidos por Amanda Leite de Farias e Iessa de Pinho dialogam com as atmosferas luminosas de Iris Valões e Taipan Bittencourt, enquanto Emílio Negreiros cria uma paisagem sonora capaz de ampliar a tensão e o mistério. A contribuição de Karina Scott, nas técnicas de palco, integra os múltiplos elementos dessa criação coletiva.

Mais do que uma narrativa sobre um futuro distópico, Zona de Convergência parece refletir sobre aquilo que emerge quando os pactos de convivência começam a ruir. Entre água, sangue e segredos, o espetáculo sugere que, muitas vezes, os maiores perigos não estão do lado de fora dos abrigos que construímos, mas nas verdades que insistimos em esconder dentro deles.

A tensão em Zona de Convergência nunca abandona o espectador. Basta uma única imagem para colocar toda a narrativa em movimento. O espetáculo constrói uma engrenagem dramática interessante, em que cada escolha parece carregar consequências irreversíveis. O grupo demonstra grande entrosamento, sustentando uma escuta coletiva que fortalece a encenação, enquanto as soluções cênicas revelam inventividade e inteligência, transformando a limitação do espaço em potência dramatúrgica. O abrigo deixa de ser apenas um lugar físico para se tornar um laboratório das relações humanas. Afinal, quando a escassez se instala, não é apenas a água que passa a ser disputada. Também a confiança, a solidariedade e a própria ideia de comunidade entram em risco.

Foto: Clara Silva

Em Maré Alta, o Núcleo 2 constrói uma fábula sobre memória, pertencimento e poder em um mundo marcado pela escassez. Em uma cidade onde a chuva cai apenas uma vez por ano, a água tornou-se tão rara quanto as lembranças que sustentam a identidade de um povo. Sob a direção de Bernardo Dahlke e Mateus Pavão, a narrativa acompanha o retorno da milionária Zuri Nefertiti, cuja promessa de salvação esconde uma disputa muito mais profunda: o controle da memória coletiva.

A dramaturgia de Aislan Salomão e Arthur Ferrera encontra nos intérpretes BIAS, Dante Preto, Helora Rio, Lia Kilsztajn, Nando Felix, Nathan Simões, Pedro Pacifici e Rute Gonçalves a potência para refletir sobre herança, resistência e futuro. Os universos visuais concebidos por Fran Meirelles, Nabi Pacheco e Taline Bonazzi dialogam com as atmosferas luminosas de Thainara Santos e Thiago Yuta, enquanto Lutiano Nascimento cria uma paisagem sonora que amplia o caráter mítico e ancestral da encenação. A contribuição de Giulia Padovan e João Portela, nas técnicas de palco, integra os múltiplos elementos dessa criação coletiva.

Mais do que uma disputa por um artefato sagrado, Maré Alta parece nos lembrar que toda comunidade é também uma construção de memórias compartilhadas. Quando o esquecimento avança tão rapidamente quanto a escassez, preservar as histórias de um povo torna-se um ato de sobrevivência. E talvez seja justamente nessa disputa entre lembrar e apagar que se decide o futuro de qualquer sociedade.

Em Maré Alta, tempo e memória não são apenas temas, mas a matéria sensível de toda a encenação. Há uma poesia discreta que atravessa o espetáculo e se manifesta em imagens e frases de grande delicadeza. Entre elas, uma permanece reverberando muito depois do fim: “Tem pessoas que afogam memórias”. A sentença parece condensar toda a experiência proposta pelo trabalho, lembrando que esquecer pode ser também um gesto político, uma forma de apagar histórias, identidades e pertencimentos. Os intérpretes constroem um trabalho de rara integração, sustentando com inteireza a dimensão afetiva da narrativa, enquanto a trilha sonora amplia a atmosfera mítica e conduz o espectador por essa travessia entre passado e futuro. Ao final, compreendemos que a água e a memória compartilham uma mesma natureza. Ambas precisam continuar correndo. Quando são represadas, apropriadas ou interrompidas, deixam de alimentar não apenas a vida. Deixam também de alimentar aquilo que somos.

Foto: Clara Silva

Em Guaiamundo, o Núcleo 3 imagina um planeta inteiramente transformado em mangue, onde passado e futuro se entrelaçam em um território de águas turvas, mistérios e disputas. Durante o Festival do Caranguejo, um ritual que reúne toda a comunidade, antigas certezas começam a ruir quando seus habitantes descobrem que viveram sob uma forma silenciosa de manipulação. Sob a direção de Débora Silvério, Gabriel Zenteno e Màrianá Porto, a cena investiga os limites entre memória, poder e liberdade.

A dramaturgia de Valéria Antunes, em diálogo com o dramaturgismo de Dani Costa Russo, encontra nos intérpretes Diego Henrique S. da Cunha, Felipe Roscoe, Gisele Turkie Rinaldi, Humberto Bersani, Laura Felix, Thaís Gazzola e Zaque a força para dar corpo a personagens atravessados por revelações, conflitos e desejos de transformação. Os universos visuais concebidos por Ana Beatriz Rodrigues Trucharte, Emilien Wachs e Joseane Alves do Santos dialogam com as atmosferas luminosas de Iuri Silva Rodrigues, Júlia Anastácia e Sophia Navarro, enquanto Lea Arafah Simon Wasem e Raphael Santana de Jesus constroem uma paisagem sonora que amplia a dimensão mítica da narrativa. A contribuição de Ana Caroline Barboza da Silva e Gabrielly Livás, nas técnicas de palco, integra os diversos elementos dessa criação coletiva.

Mais do que uma história sobre um mundo pós-apocalíptico, Guaiamundo parece refletir sobre as formas pelas quais a verdade pode ser ocultada e recuperada. Entre profecias, segredos e disputas por poder, o espetáculo sugere que a sobrevivência não depende apenas da preservação da vida, mas também da coragem de enfrentar aquilo que fomos levados a esquecer.

A peça traz uma compreensão profundamente poética da memória. Ela não pertence apenas às pessoas, mas atravessa gerações, paisagens e espécies. A avó, mesmo ausente, continua sustentando a lembrança de um mundo inteiro, como se sua morte não pudesse interromper aquilo que ela guardava. O trabalho parece sugerir que algumas existências permanecem vivas justamente porque carregam a memória coletiva. Essa delicadeza se prolonga em imagens que nunca chegam a se materializar completamente, mas habitam a imaginação do público: o pássaro branco, mencionado como uma lembrança distante, ou o guará vermelho, cuja presença não acontece. São ausências que ganham corpo pela força da narrativa. Talvez seja esse um dos maiores méritos do trabalho: compreender que o teatro não precisa mostrar tudo. Há imagens que se tornam mais poderosas justamente porque permanecem invisíveis, existindo apenas na memória compartilhada entre quem conta e quem escuta.

Foto: Clara Silva

Em Um Copo para Oito, o Núcleo 4 nos apresenta um futuro em que a água deixou de ser um recurso para se tornar um destino. Cercados por um oceano impróprio para o consumo e por chuvas incessantes que não oferecem alívio, um grupo de sobreviventes habita uma casa sobre palafitas, sustentando-se por um sistema cada vez mais precário de reaproveitamento da própria água corporal. Sob a direção de Andressa Andreatto, Emma Araujo e Vitor Camargo, o espetáculo transforma a escassez em lente para investigar os limites da convivência humana.

A dramaturgia de Gustavo Nolla, em diálogo com o dramaturgismo de Henrik Macedo, encontra nos intérpretes Beth Toledo, Isabella Miranda, Kaue Batista, Lucas Inácio, Mariana Lopes, Monique Ramos, Nicole Ghobrial e Rapha Borges a potência para dar forma a personagens atravessados pela sede, pelo medo e pela exaustão. Os universos visuais concebidos por Leonardo Inocêncio e Nuria Karnakis dialogam com as atmosferas luminosas de Débora Pereira, Gabriel Diniz e Miguel Alterthum Kulaif, enquanto João Laender e José Pedro constroem paisagens sonoras que ampliam a sensação de isolamento e instabilidade. A contribuição de Ana Mi e Leticia Neumitz A., nas técnicas de palco, integra os diversos elementos dessa criação coletiva.

Mais do que uma narrativa distópica, Um Copo para Oito parece refletir sobre aquilo que acontece quando a sobrevivência passa a disputar espaço com a ética. Diante da chegada de estrangeiros e da ameaça constante da escassez, o espetáculo expõe perguntas sem respostas fáceis: quem merece ser acolhido? O que estamos dispostos a sacrificar para continuar vivos? E em que momento a sede deixa de ser física para se tornar moral?

Existe em Um Copo para Oito uma inversão particularmente inteligente. Enquanto a maior parte dos experimentos imagina um mundo marcado pela ausência de água, aqui, ela está por toda parte. Chove sem cessar, o oceano cerca os personagens e a cena é atravessada por sua presença constante. O problema deixa de ser apenas a falta e passa a ser também o excesso, lembrando que a crise climática raramente se manifesta por um único extremo. Essa escolha dramatúrgica confere originalidade ao espetáculo e amplia sua força simbólica. O elenco sustenta com consistência a crescente tensão da narrativa, enquanto a paisagem sonora, especialmente os ecos e as transmissões de rádio, cria uma atmosfera de isolamento que acompanha o espectador até o fim. E então surge um gesto de rara delicadeza: o recurso do metateatro desloca a narrativa para outro plano e nos lembra que talvez não estivéssemos apenas observando aqueles personagens, mas também a nós mesmos. Como a água que invade a cena, a reflexão transborda seus limites e alcança o público, convidando-nos a reconhecer que toda distopia começa muito antes de se tornar realidade.

Foto: Clara Silva

Em Rios de Refrigerante, o Núcleo 5 constrói uma fábula satírica sobre consumo, poder e destruição ambiental. Em um mundo dividido entre os reinos de Límpida e Fétida, a contaminação dos rios interrompe uma celebração ancestral e desencadeia uma investigação que colocará em xeque as estruturas que sustentam aquela sociedade. Sob a direção de João Carlos Alves Júnior, Kleberton Moura dos Anjos e Milena Santos Chaves Martins, o espetáculo transforma questões urgentes do presente em uma narrativa marcada pelo humor, pela fantasia e pela crítica social.

A dramaturgia de Carlos Eduardo Souza Santos, em diálogo com o dramaturgismo de Manoel Gonçalves de Sousa Filho, encontra nos intérpretes Alissa Vianna Andrade, Bruno Adnet Santos, Debora Santana de Miranda, Lucas Fidalgo Knoeller, Matheus Wey Fernandes, Nathiele Balbino de França e Sabrina Florentino Queiroz a energia necessária para habitar um universo povoado por personagens extravagantes e conflitos aparentemente absurdos. Os universos visuais concebidos por Danyella Tin Carlini Kohn, Marina Bezerra Ribeiro Rosa e Paulo Henrique P. Honório dialogam com as atmosferas luminosas de Cecília Fico Vieira Rocha, Larissa Luisa Campos Reis e Matheus de Paula Ramos, enquanto Carolina Ribeiro Moraes e Maria Fernanda P. do Rio e Souza criam paisagens sonoras que ampliam o caráter lúdico e inquietante da encenação. A contribuição de Lui Carrer, Mirela Cristielly Ap. da Silveira e Rafaela Correia do Nascimento B. dos Santos, nas técnicas de palco, integra os diversos elementos dessa criação coletiva.

Mais do que uma aventura fantástica, Rios de Refrigerante parece refletir sobre a forma como interesses econômicos podem transformar recursos essenciais em mercadorias e esconder os impactos dessa transformação. Entre rios contaminados, bebidas milagrosas e segredos cuidadosamente guardados, o espetáculo nos lembra que, muitas vezes, aquilo que parece abundante é justamente o que corre maior risco de desaparecer.

Rios de Refrigerante tem uma qualidade preciosa: a capacidade de divertir sem perder a contundência. O espetáculo compreende que a sátira pode ser uma forma sofisticada de pensamento e constrói uma narrativa envolvente, sustentada por um elenco afinado e disponível para o jogo cênico. A equipe de criação também demonstra grande inventividade, compondo um universo visual rico em detalhes e soluções expressivas. Entre elas, destaca-se a inventiva gravata da apresentadore de televisão, um pequeno achado de figurino que sintetiza, com humor e inteligência, o tom crítico da encenação. São escolhas como essa que revelam um olhar atento para a linguagem teatral, em que cada elemento contribui para ampliar o sentido da obra. Ao final, percebemos que o riso produzido pelo trabalho nunca é gratuito. Ele diverte, mas também desarma o espectador para que a crítica possa alcançar lugares mais profundos.

Foto: Clara Silva

Em Abaixo, o Núcleo 6 imagina uma humanidade que, após tornar a superfície da Terra inabitável, foi obrigada a reinventar a própria existência nas profundezas dos mares. Nesse universo híbrido, onde seres humanos carregam traços de animais marinhos e a sobrevivência depende do trabalho coletivo, uma crise no abastecimento de água doce ameaça desestabilizar toda a cidade de São Coraulo. Sob a direção de Akira Tomonari, Lola Masci e Rafael Tadeu, o espetáculo constrói uma narrativa que articula fantasia, política e reflexão social.

A dramaturgia de Hérllon De Abreu Ataliba e Rafaela Dilly Kich encontra nos intérpretes Bianca Fidenis, Débora Lima, Fellipe Sótnas, Grazzy Lopez, Guto Tavares, Joaquim Francisco e Thays Portela a potência para dar vida a personagens atravessados por dilemas éticos, disputas de poder e desejos de transformação. Os universos visuais concebidos por Iris Rubira e Rosaura Piva dialogam com as atmosferas luminosas de Manu Nahas e Michelly Rodrigues, enquanto Diana Leocata cria uma paisagem sonora que amplia a dimensão fantástica e inquietante da encenação. A contribuição de Anís Reis, Guilherme Marcondes e Tom Tramoia, nas técnicas de palco, integra os diversos elementos dessa criação coletiva.

Mais do que uma aventura ambientada em um futuro distante, Abaixo parece refletir sobre questões profundamente contemporâneas. Ao acompanhar personagens que enfrentam a escassez, a desinformação e a concentração de poder, o espetáculo nos lembra que toda sociedade é construída sobre escolhas coletivas. E que, mesmo nos lugares mais profundos e improváveis, a busca por justiça continua sendo uma forma de respirar.

Abaixo tem um prazer evidente na invenção de mundos. O trabalho constrói um universo submerso que não se limita a servir de cenário para a narrativa, mas estabelece suas próprias regras, mitologias e modos de vida. As caracterizações são inventivas e contribuem para dar consistência a essa humanidade híbrida, enquanto a visualidade sustenta uma atmosfera de estranhamento que nunca perde sua dimensão poética. O núcleo de atuantes demonstra grande presença cênica, habitando esse imaginário com naturalidade e convicção. A dramaturgia também oferece boas surpresas ao longo do percurso, evitando soluções previsíveis e ampliando continuamente o universo ficcional. O resultado é uma criação que convida o espectador a mergulhar em outra realidade para, paradoxalmente, enxergar com mais clareza os dilemas da nossa própria.

Foto: Clara Silva

Em Mandachuva, o Núcleo 7 imagina uma sociedade em que a água potável se tornou tão rara que sua produção depende de uma única máquina e de um único homem. Em uma pequena vila do ano de 2127, a sobrevivência coletiva está concentrada nas mãos de Minalbo, operador da misteriosa Luzia, tecnologia capaz de extrair água da matéria orgânica. Sob a direção de Gabriela Garcia, Isabela Gsil e Mavi Rossi, o espetáculo constrói uma reflexão sobre poder, dependência e os mecanismos que sustentam as hierarquias sociais.

A dramaturgia de Bruno Fidalgo, em diálogo com os dramaturgismos de Flávia Thaína e Tatá Nagamachi, encontra nos intérpretes Estevan Garcia, Gusttavo Baricocchi, Lúcia Diniz, Mariana Grazina, Rayane Trindade, Renan Rochac e Rosiane Noventa a potência para explorar, com humor e criticidade, as tensões que emergem quando recursos essenciais se tornam instrumentos de controle. Os universos visuais concebidos por Andrea Amorim, Raphael Mota e Solange Fonseca dialogam com as atmosferas luminosas de Felipe Espinoza e Matheus Leone, enquanto Henry Orellana e Octávio Daemon constroem paisagens sonoras que ampliam a dimensão simbólica da narrativa. A contribuição de Kelvin Tranquilo, nas técnicas de palco, integra os diversos elementos dessa criação coletiva.

Mais do que uma fábula sobre escassez, Mandachuva parece investigar a fragilidade das estruturas de poder quando elas deixam de servir ao bem comum. À medida que a disputa pelo controle de Luzia se intensifica, o espetáculo nos convida a refletir sobre quem administra os recursos vitais, quem se beneficia deles e quais são as consequências quando a sobrevivência de muitos depende das decisões de poucos.

Em Mandachuva, chama atenção a solidez da construção coletiva. As caracterizações são criativas e ajudam a definir uma comunidade marcada pela escassez e pelas relações de poder, enquanto a visualidade encontra soluções simples e expressivas para dar forma àquele universo. O núcleo de atuantes sustenta a tensão da narrativa, permitindo que a dramaturgia revele algumas de suas melhores sacadas sem perder o ritmo da encenação. Percebe-se uma equipe afinada, em que as diferentes áreas dialogam com fluidez e constroem uma experiência coesa. Ao final, permanece a sensação de que a obra compreende uma verdade fundamental: toda tecnologia capaz de garantir a vida também pode se transformar em instrumento de dominação, dependendo de quem a controla e de como escolhemos nos organizar em torno dela.

Foto: Clara Silva

Em Munhâm, o Núcleo 8 parte de uma imagem poderosa: depois que uma tempestade solar provoca o colapso das tecnologias, a humanidade se vê novamente diante de questões fundamentais de sobrevivência. Em Baixa da Égua, a água potável torna-se o bem mais disputado, revelando conflitos, desigualdades e formas de exploração que pareciam adormecidas. Sob a direção de Allan Lobato Nabeiro, Daniel Prata e Guilherme Santos Silva, o espetáculo articula humor, fantasia e crítica social para investigar os efeitos da escassez sobre a vida coletiva.

A dramaturgia de Bruna Geordanna e Maria Irmany Ribeiro, em diálogo com o dramaturgismo de Dani Costa Russo, encontra nos intérpretes Ana Laura Araújo, Brendo Batalha Maia, Ellen Vitalino, Mateus Dornelles, Symy Ren e Thais Lume a potência para construir uma narrativa que oscila entre o riso e a inquietação. Os universos visuais concebidos por Letycia Sidonio, Mariana S. Pinheiro e Vinícius de Carvalho Róveri dialogam com as atmosferas luminosas de Filipe Batista e Nelson Batista, enquanto Elvis Henrique Mendes Pereira e Rafaela Pimenta criam paisagens sonoras que ampliam a dimensão mítica da encenação. A contribuição de Lívia Farias Alves e Lúcia Rosa da Silva, nas técnicas de palco, integra os diversos elementos dessa criação coletiva.

Mais do que uma fábula sobre a falta de água, Munhâm parece refletir sobre a sede de poder que atravessa a história humana. Ao fazer surgir uma entidade do rio para confrontar os habitantes da cidade, o espetáculo nos lembra que a natureza não é apenas cenário das ações humanas, mas também presença viva, memória e força capaz de questionar os caminhos que escolhemos seguir.

Munhâm é um desses trabalhos que já nascem maduros. Talvez por isso o experimento se destaque como um dos mais consistentes deste Módulo Verde. A visualidade é particularmente bonita, criando imagens que transitam entre o fantástico e o popular sem perder sua força simbólica. As caracterizações são cuidadosas e expressivas, contribuindo para a construção de um universo próprio, enquanto os intérpretes demonstram segurança e presença, sustentando com precisão as diferentes tonalidades da narrativa. Soma-se a isso uma dramaturgia bem estruturada, capaz de articular humor, crítica social e elementos míticos sem dispersar seu foco. O resultado encontra equilíbrio entre forma e conteúdo, entre invenção e clareza. Munhâm alcança algo precioso: transforma uma discussão urgente sobre escassez e poder em uma experiência teatral envolvente, sensível e profundamente humana, com humor e vitalidade.

Foto: Clara Silva

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