Os processos criativos do Coletivo Volante

Publicado em: 26/08/2020

Este texto faz parte de uma série de publicações que reúne artigos, entrevistas e depoimento sobre grupos de teatro do Brasil.

Espetáculo “Volante”. Foto de Rayane Góes

Nesse texto da série de entrevistas com importantes coletivos teatrais de todo o Brasil, entrevistamos os artistas do Coletivo Volante, de Maceió. Confira:

SP ESCOLA DE TEATRO – Quais são os principais processos criativos do grupo?

COLETIVO VOLANTE – Os processos de criação são diversos, mas partem principalmente de uma inquietação, que pode ser pessoal ou coletiva. Temos processos de construção de espetáculos e temos processos que são de criação em diálogo com o audiovisual e editorial de revista. “Volante” foi o nosso primeiro espetáculo, um solo de Bruno Alves, feito para espaços alternativos, que deu origem ao coletivo. Teve estreia em Maceió no dia 19 de março de 2015. O processo de criação se deu ao longo de doze meses em diálogos com artistas da música de Maceió. Narra a jornada de um homem em busca da felicidade. “Incelença”, nosso segundo espetáculo, também para espaços alternativos, estreou no dia 07 de julho de 2017. Nessa montagem são trazidas à cena as narrativas de mães que perderam os filhos para a ação violenta do estado. Jovens estes, negros e periféricos. Nesse entremeio de construção de espetáculos teatrais, demos origem a um projeto chamado “Texto Ex Machina”, que nasceu da inquietação de fazer leituras de textos teatrais de exercícios do nosso coletivo, transformados em narrativas para o audiovisual. Uma websérie da qual realizamos duas temporadas em 2015 e 2016. Todos os episódios eram gravados em nossa casa em diálogo com artistas de diversas companhias e coletivos do nosso estado. São disponibilizados em nosso canal de Youtube e em nossa página do Facebook. Outro processo criativo do nosso coletivo foi a construção de uma revista digital para falar de artes cênicas. A Revista #Textão conta com a colaboração de artistas de diversos estados e países. É disponibilizada gratuitamente em nosso blog e conta com compartilhamento de processos em artes cênicas. Assumimos o editorial e a diagramação.

Espetáculo “Incelença”. Foto: Jul Souza

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SP ESCOLA DE TEATRO – Como funciona a elaboração dramatúrgica, a criação plástica e sonora, e a composição da cena como um todo? 

COLETIVO VOLANTE – Em nossos processos de construção de dramaturgias sempre se dão a colaboratividade, onde as funções são horizontalizadas. Todas as pessoas envolvidas são construtoras. Constroem em conjunto a cenografia, costuramos o figurino, fazemos a produção, divulgação, dentre outras necessidades. É certo que nesse caminho da colaboratividade alguns dos integrantes assumem e assinam a concepção das dramaturgias diversas que vão se identificando, mas é sempre um processo de troca constante, geralmente algumas funções não são determinadas ao início do processo. As pessoas vão revelando interesse por elas e assumem a concepção. Em “Incelença”, por exemplo, ao longo dos oito meses de construção, fomos entendendo que Gessyca Geyza era a pessoa que melhor poderia dirigir o espetáculo. Em “Volante”, não existe uma direção nos primeiros três anos de espetáculo, mas uma provocadora teatral, a atriz Nathaly Pereira. Depois dos três anos, foi a vez de Nivaldo Vasconcelos assumir a direção oficial do espetáculo e trazer novas possibilidades de narrativa para ele. Em nossa sala de ensaio buscamos um texto que seja a partir das nossas vivências, portanto, a memória de cada participante é importante nessa construção. São as nossas questões em cena, as nossas questões transformadas em questões coletivas. Nada aqui chega pronto, tudo vai se descobrindo ao longo dos meses que passamos juntos. É um texto em constante processo de mutação, mesmo depois da estreia. Bruno Alves assina os textos dos dois espetáculos, textos esses que são construídos em sala de ensaio, através do encontro, do atrito entre as pessoas envolvidas. Tudo vai se costurando constantemente. Nenhum dos textos consideramos finalizados, pois eles se atualizam constantemente, se modificam, são fluidos e mutáveis, o tempo todo.

Desses dois espetáculos, podemos dizer que nosso processo de criação vai se continuando num lugar de colaboração, de atores e atrizes construtores, de construção artesanal de cada coisa que envolve a cena. Em “Incelença” e “Volante”, todos os figurinos e cenografia, foram concebidos em coletivo e costurados a mão. Podemos também dizer que a precariedade nos leva a muitos desses lugares, e quando falamos precariedade nos referimos às questões de investimento mesmo, a falta de editais em Alagoas e cada vez mais a não ação da Secretaria Nacional de Cultural. É em grande parte um investimento do coletivo, nós levantamos os espetáculos e projetos dentro das nossas possibilidades, pois se não temos, por exemplo, condições de pagar pautas no teatro, nós vamos construindo nossas narrativas em espaços alternativos. Se não podemos pagar um figurinista, nós vamos estudando e construindo esse figurino. Essa poderia ser inicialmente uma questão, mas hoje ela se torna parte do coletivo, da nossa forma de linguagem, então, o “não ter alguma coisa” não é um problema para nós, mas uma possibilidade de redescoberta e criação. Este não ter um cenógrafo ou uma iluminadora, por exemplo, nos coloca num lugar de experimentação de possibilidades e em coletivo vamos costurando aquilo que a direção do espetáculo vai desenhando na encenação. É importante reafirmar que dentro do coletivo temos um cineasta, o Nivaldo Vasconcelos, que criou o “Texto Ex Machina” e a Revista “Textão. Nivaldo é também a pessoa responsável por toda arte gráfica do coletivo e com sua visão de cineasta nos ajuda com questões de construção de iluminação e nos traz referências de imagens para a elaboração de cenas e narrativas.

Espetáculo “Incelença”. Foto: Thiago Vasconcelos

SP ESCOLA DE TEATRO – Conseguiriam elencar algumas referências estéticas (sejam literárias, teatrais etc.) que foram ou são importantes ao grupo? 

COLETIVO VOLANTE –  Nosso coletivo tem em sua formação oficial três pessoas: Bruno Alves, Rayane Góes e Nivaldo Vasconcelos. No entanto, em todos os processos contamos com atores e atrizes de outros grupos e companhias do estado. Nosso coletivo é um espaço de troca e presença de olhares diferentes, o que nos faz encontrar novas possibilidades de diálogos e narrativas. Portanto, cada pessoa que vem traz a sua própria experiência e leitura de mundo. Essa pergunta, particularmente, é uma pergunta com uma resposta em desconstrução, ou melhor dizendo, em processo de decolonização. Poderia citar os teóricos europeus, mas neste momento de pandemia que vivemos, temos nos debruçado sobre a temática decolonial e procurando cada vez mais referências que nos aproximem de uma outra forma de criação. É certo que todas as leituras de clássicos e pensadores do teatro são importantes em nossa formação, mas cada vez mais nos perguntamos quem são essas pessoas, qual a cor delas, qual o lugar de onde falam… Geralmente nos deparamos com homens brancos/europeus/heterossexuais. Estamos em busca de experiências que são silenciadas e apagadas e nesse processo talvez a gente beba desses todos para depois desconstruir tudo que nos foi ensinado dentro de uma ambiente acadêmico. Essa pergunta nos faz pensar que mulheres nos inspiram, que possibilidades corporais nos afetam, que LGBTQIA+ nos atravessam, que nordeste é esse que é visto e reproduzido na TV e no cinema… Porém, dentre as referências estéticas que já vivenciamos, nós vamos misturando tudo que as pessoas que fazem parte do processo trazem para a roda. Cada processo pede uma referência distinta. Por exemplo, em “Volante” partimos da referência da cultura popular alagoana com os folguedos como: Reisado, Guerreiro e Coco de Roda, como também do estudo do Tarô e da carta do “Louco”. E a presença de músicos eruditos.
Como referências literárias, nesse espetáculo específico, teríamos várias para esse processo, mas se destacam a leitura de “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto. “Volante” é um espetáculo que parte de um tom armorial e que vai sendo desconstruído ao longo dos projetos e afetamentos que sucedem o coletivo. Como estética de teatro, “Volante” está próximo do teatro de rua.

Em “Texto Ex Machina” entregamos a concepção e direção audiovisual a Nivaldo Vasconcelos e vemos os exercícios de texto teatral sendo reconstruídos a partir da linguagem do audiovisual e de suas referências. Em “Incelença” partimos do canto popular das carpideiras (aquelas que choram a morte de alguém) e construímos uma estética dentro de espaços alternativos como porões, salas, terreiros de candomblé, dentre outros. Nessa construção, notícias de jornais e histórias pessoais de perdas de familiares é que criam a dramaturgia. Na construção corporal desse espetáculo, atravessamos por várias referências, desde a dança dos orixás, dança dos ventos, palhaçaria, jogos teatrais e dança Maculelê, mas ao final vemos uma desconstrução de tudo que vivemos. É um processo de antropofagia e regurgitamento. Nada fica como é anteriormente, tudo vai se modificando e ganhando novas metáforas. Então, não temos uma linha de pesquisa corporal, por exemplo, pois cada processo vai pedir uma linha de pesquisa ou várias e assim nos debruçamos sobre elas, convidando pessoas que vivenciam em suas pesquisas.

Foto: Nivaldo Vasconcelos

SP ESCOLA DE TEATRO  Como o coletivo tem se estruturado para enfrentar a pandemia?

COLETIVO VOLANTE – Primeiro a gente parou. A gente parou de verdade. Passamos quatro meses sem pensar em nada, porque a primeira necessidade era a sobrevivência. Manter-se vivo. Não se contaminar pelo vírus. Não contaminar ninguém. Enquanto coletivo, tínhamos a possibilidade de nos mantermos parados, porque questões financeiras estavam garantidas (dois de nós damos aula em escolas e isso está nos garantindo uma seguridade financeira ao longo desses meses). Então a nossa luta era estar junto aos que não tinham e cobrar que as autoridades locais criassem editais de emergência para muitos de nossos conhecidos que estavam passando necessidade. Então a sobrevivência ao vírus e a fome foi nossa pauta. Não tínhamos condições de pensar em construção de alguma coisa, pois estávamos/estamos entendendo a gravidade do contexto. Assistir a lives, assistir aos outros artistas que estão em construção e criando provocações nas redes sociais, buscar tempo para leituras, fazer cursos online, foi a nossa forma de se alimentar e se manter são neste momento pandêmico. É certo que nesse processo muitas ansiedades de construir alguma coisa surgiram, mas preferimos dar tempo ao tempo, entender o mistério e a gravidade disso que nos cerca. Não queríamos a pressa e ansiedade como propulsora de alguma criação. Não parte de nós construir algo pela pressa, pressão ou ansiedade. E como temos uma garantia de suporte financeiro, isso nos fez ter o privilégio de parar. No entanto, chegando julho, começamos a retomar desejos e conversar as nossas inquietações. Tínhamos toda uma programação para comemorar em 2020 os seis anos do coletivo e isso está se reconfigurando nesse momento. Agora pensamos na retomada da terceira temporada de “Texto Ex Machina”, um projeto que nasceu e foi construído dentro de casa em 2015 e 2016, que retornará com um diálogo mais íntimo com o espaço da casa que habitamos e as redes sociais que habitamos também. Até novembro pretendemos estrear três solos/experimentos feitos para a plataforma do Instagram, mas até lá, estamos estudando, entendendo, pesquisando formas e meios de criar essas narrativas online e sobreviver a todo esse contexto pandêmico e político.

“Texto Ex Machina” pode-se assistir aqui:

Primeira Temporada

Segunda temporada

 




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