por Ivam Cabral, diretor-executivo da SP Escola Superior de Teatro
É tão bonito quando uma escola decide não ensinar respostas, mas sustentar perguntas.
Durante este semestre, os estudantes da SP Escola Superior de Teatro – Faculdade das Artes do Palco mergulharam em uma questão que atravessa o nosso tempo como uma corrente subterrânea: o que acontece quando o mundo perde o ar?
A poética das mudanças climáticas e dos futuros distópicos poderia facilmente conduzir ao desespero. Mas os oito experimentos do Módulo Azul escolheram outro caminho. Em vez de imaginar o fim, perguntaram pelo recomeço.
Em um trabalho, a esperança sobrevive nas profundezas da Terra. Em outro, ela reaparece na recuperação da sensibilidade perdida. Há quem procure novas palavras para reinventar o mundo e quem transforme a ausência de um rio em memorial. Há aqueles que interrogam as máquinas, aqueles que escrevem manuais para o colapso, aqueles que encontram na ancestralidade a tecnologia mais sofisticada de todas. E há ainda quem transforme a própria lógica do mercado em baile grotesco, onde a água vale mais do que a vida.
Embora distintos em suas formas, todos os núcleos pareciam caminhar em direção ao mesmo lugar. Falavam de escassez, mas investigavam pertencimento. Falavam de catástrofes, mas procuravam comunidade. Falavam de futuros devastados, mas insistiam em resgatar aquilo que ainda pode ser salvo: a memória, a imaginação, a linguagem, o afeto e a capacidade de agir coletivamente.
Talvez por isso a presença de Vandana Shiva tenha atravessado silenciosamente todo o percurso. Não como uma resposta pronta, mas como um convite para compreender que a crise da água é também uma crise da relação. Uma crise do modo como habitamos o mundo, os territórios e uns aos outros.
As três perguntas que orientaram o semestre permaneceram ecoando em cada criação. Como respirar quando estamos imersos no colapso? O que a arte faz com o fôlego do mundo? Como fazer emergir um recomeço?
Os estudantes não responderam. Fizeram algo mais importante. Transformaram essas perguntas em experiência.
E talvez seja exatamente essa a tarefa da arte em tempos difíceis: não nos ensinar a escapar do desastre, mas ampliar nossa capacidade de atravessá-lo juntos.
Porque, no fim das contas, o futuro continua sendo uma ficção. Mas o modo como escolhemos imaginá-lo já é uma forma de transformá-lo.
Núcleo 1: Revide 2040
Em Revide 2040, o Núcleo 1 transforma uma inquietação contemporânea em experiência cênica: o que acontece quando a lógica do individualismo esgota não apenas os recursos do planeta, mas também nossa capacidade de viver em comum? Sob a direção de Marina (Nina) Felice, os artistas Amanda Dias Duarte, Helena Paixão, Luan Antonio de Barros e Talitha Nakamura conduzem o público por um futuro devastado, onde a esperança resiste nas profundezas da Terra.
A dramaturgia criada por Cas Anders e Everton Aguiar encontra ressonância nos espaços imaginados por Anna Bianca Paiva e Flora Farah, na luz concebida por Gaê e nas paisagens sonoras de DJ Giulia e Widger. Juntos, esses criadores constroem um universo em que a memória se torna ferramenta de sobrevivência e a coletividade, uma forma de insurgência.
Mais do que narrar um mundo pós-apocalíptico, Revide 2040 nos convida a refletir sobre o presente. Em tempos de vigilância, escassez e fragmentação social, a busca pela Comunidade Vagalume surge como metáfora de uma pergunta fundamental: ainda somos capazes de imaginar futuros construídos a partir da partilha, do cuidado e da experiência do comum?

Núcleo 2: Correnteza
Em Correnteza, o Núcleo 2 parte de uma imagem inquietante: um ser humano que já não consegue sentir. Em um planeta sufocado pelo plástico e pelos resíduos de sua própria história, a peça imagina um futuro em que a crise ambiental se confunde com uma crise da sensibilidade. Sob a direção de Lucas Ronconi, os intérpretes Breno Carregosa, Fellipe Marcelino, John Jordan, Lígia Gurgel e Luciana Conceição conduzem uma travessia que é, ao mesmo tempo, íntima e coletiva.
A dramaturgia concebida por Adhan Freitas e Maré Mariotti transforma a memória em força motriz de uma jornada de reconexão com a própria humanidade. Os universos visuais criados por Daniela Monaco, Eduardo Martins e Isabelle Trajano, as atmosferas luminosas de Damaris Belchior e Julia Zavanelli, e as paisagens sonoras de Sofia Formis e Werick Rocha contribuem para a construção de uma experiência em que matéria, afeto e lembrança se entrelaçam. A presença de Malek Qrâneo, nas técnicas de palco, integra essa engrenagem criativa que sustenta a cena.
Mais do que uma narrativa sobre o fim do mundo, Correnteza parece perguntar o que se perde quando deixamos de nos emocionar diante dele. Entre destroços e recordações, o espetáculo sugere que talvez a humanidade não resida apenas em nossa capacidade de sobreviver, mas sobretudo em nossa disposição de sentir, lembrar e transformar.
Há ainda em Correnteza uma camada de rara delicadeza poética. Em meio aos resíduos, ao plástico e à devastação, surgem frases que permanecem ecoando para além da cena, como a bela constatação de que “há coisas que se conhecem melhor na saudade”. O trabalho parece compreender que a catástrofe ambiental não produz apenas escassez material. Ela produz também desertos afetivos. O choro que já não consegue derramar lágrimas, a secura que invade os corpos e o medo silencioso da solidão quando tudo termina tornam-se imagens recorrentes dessa travessia. Talvez por isso a obra toque com tanta força. Porque nos lembra que o oposto da destruição não é apenas a sobrevivência, mas a capacidade de permanecer sensível. E que, no fim, a água que falta no mundo talvez seja a mesma que falta aos olhos quando desaprendemos a sentir. A roda formada no desfecho não encerra a história; ela a recomeça. Como um rio que volta a encontrar seu leito, os corpos se reconhecem novamente, e a cena oferece ao público uma imagem de rara beleza: a de que ainda é possível reconstruir o comum.

Núcleo 3: Mosreteverre
Em Mosreteverre, o Núcleo 3 imagina um futuro em que a escassez de água já não é apenas uma ameaça, mas uma realidade consolidada. Diante do colapso ambiental e da negligência dos poderes instituídos, uma comunidade encontra na linguagem uma possibilidade de resistência. Sob a direção de Fabricio Pinheiro e Pedro Henrique, os intérpretes Brenda França, Édipo Queiroz, Ester Fello, Matheus Guilherme e Sofia Agrelli dão corpo a uma narrativa em que as palavras voltam a ser ferramentas de transformação do mundo.
A dramaturgia de Kauan Ribeiro parte da recuperação de um dialeto ancestral, criado para escapar ao controle e reinventar a realidade. Os espaços concebidos por Duane Mota, Gabriela Gomes Bazilio e Vitor Candido dialogam com as atmosferas luminosas de Isadora Escher e Laura Dias, enquanto Augusto Milaré, Isaque Oliveira e Luan Bueno constroem uma paisagem sonora que amplia a dimensão poética da cena. A contribuição de Emanoelle Bonadio, nas técnicas de palco, integra os múltiplos elementos que sustentam essa criação coletiva.
Mais do que uma história sobre sobrevivência, Mosreteverre nos lembra que toda revolução começa pela imaginação. Ao recuperar uma língua esquecida, a comunidade retratada no espetáculo reivindica algo fundamental: o direito de nomear o mundo de outra maneira. E talvez seja justamente aí que resida a possibilidade de mudar seu destino.
A potência de Mosreteverre é rara. Trata-se de um dos momentos mais marcantes desta abertura de experimentos, porque consegue reunir uma dramaturgia de qualidade a uma encenação vibrante e profundamente performativa. O apocalipse imaginado pelos criadores não se manifesta apenas como tema, mas como experiência compartilhada. Os atores se entregam integralmente ao jogo proposto, sustentando uma presença que atravessa a cena do início ao fim. A musicalidade é envolvente, os ritmos se encadeiam com precisão e as imagens criadas permanecem na memória do espectador. Há momentos particularmente inspirados, como a história da avó condenada a trabalhar sem descanso, o uso criativo e crítico das latinhas descartáveis ou a impressionante composição visual em que vento, tempestade e tecidos brancos flamejantes transformam a cena em paisagem viva. Tudo isso faz com que a linguagem, tema central do espetáculo, deixe de ser apenas assunto para se tornar acontecimento. Em Mosreteverre, as palavras não apenas descrevem um mundo em transformação: elas parecem ter o poder de recriá-lo diante dos nossos olhos.

Núcleo 4: Procura-se Rio
Em Procura-se Rio, o Núcleo 4 transforma a ausência em matéria de cena. A partir da forma de um memorial, o espetáculo nos convida a lamentar o desaparecimento de algo que, durante séculos, pareceu inesgotável: a própria água que sustenta a vida. Sob a direção de Caio Caldas e Lucca Strabelli, os intérpretes Caetano Furquim, Julia Sétlim, Lilith Melo e Thamires da Silva conduzem uma investigação poética sobre perda, memória e responsabilidade coletiva.
A dramaturgia criada por Ariane Pedroso e Thiago Marchetto parte de uma pergunta simples e devastadora: onde foi parar o rio? Em vez de oferecer respostas imediatas, a obra constrói um espaço de escuta e reflexão. Os universos visuais concebidos por Isabella Mauro e Vanusa Lima dialogam com as atmosferas luminosas de Finnick Fernandes e Ximi, enquanto Bruno Ras e Clarice Treml criam paisagens sonoras que evocam presenças, rastros e silêncios. A contribuição de Renato de Maria e Taiy Barros, nas técnicas de palco, integra a arquitetura sensível dessa criação.
Mais do que narrar um desastre ambiental, Procura-se Rio nos confronta com a estranha experiência de sentir falta daquilo que julgávamos permanente. Entre elegia e denúncia, o espetáculo nos lembra que os desaparecimentos da natureza nunca são apenas ecológicos. São também desaparecimentos de memórias, modos de vida e futuros possíveis.
Mas talvez a imagem mais bonita de Procura-se Rio seja justamente aquela que nunca abandona completamente a esperança: a de um rio que desapareceu da superfície, mas continua correndo silenciosamente pelas entranhas da terra. Um rio que já foi imponente e formoso, e que agora segue seu percurso em solidão, como quem resiste ao esquecimento. Em meio à investigação sobre seu paradeiro, ouvimos uma frase que atravessa a cena como uma declaração de amor: “todo mundo precisa de um rio bem pertinho”. E compreendemos que não se trata apenas da água, mas de algo mais profundo, ligado à memória, ao pertencimento e ao afeto. Entre a melancolia da perda e a persistência do que insiste em florescer, o espetáculo nos convida a olhar para os rios não como recursos, mas como companheiros de existência, presenças que ajudam a contar quem somos.

Núcleo 5: Tenho Sede, Preciso Pensar
Em Tenho Sede, Preciso Pensar, o Núcleo 5 nos transporta para um futuro em que a sobrevivência humana depende de uma inteligência artificial chamada Cérebro. Em um mundo que já não oferece condições para a vida como a conhecemos, resta uma estação habitável mantida por uma tecnologia que protege, organiza e controla seus habitantes. Sob a direção de Bruno Vieira, a criação investiga os limites entre dependência e autonomia, segurança e liberdade.
A dramaturgia de Sophia Gobbi encontra nos intérpretes Gabi Flores, Laura Rodrigo, Lucas Angelo, Lucas Sagawa e Raul Madeira a possibilidade de refletir, com humor e inquietação, sobre os vínculos entre humanidade e máquina. Os universos visuais concebidos por Heloísa Lobo, Maria Fonseca e Mel Luz dialogam com as atmosferas luminosas de Isabel Violante e Yasmin Florentino, enquanto Rafaela Grandi e Samara Souza constroem paisagens sonoras que ampliam a dimensão distópica da narrativa. A contribuição de Dodô Costa, nas técnicas de palco, integra os diversos elementos dessa engrenagem criativa.
Mais do que imaginar um futuro tecnológico, Tenho Sede, Preciso Pensar parece lançar uma pergunta sobre o presente: o que acontece quando delegamos às máquinas não apenas nossas tarefas, mas também nossas escolhas? Entre a sede e o pensamento, o trabalho sugere que a verdadeira sobrevivência talvez dependa menos da inteligência artificial e mais da nossa capacidade de preservar aquilo que nos torna humanos.
Tenho Sede, Preciso Pensar talvez seja um dos experimentos em que os diversos eixos da pesquisa pedagógica alcançam sua síntese mais consistente. A escassez da água, a dependência tecnológica, a crise ambiental e os impasses éticos do presente encontram uma forma dramatúrgica precisa e inquietante. Mas o que permanece na memória é o lamento constante do próprio Cérebro, a máquina que sustenta aquela sociedade. Enquanto os seres humanos buscam sobreviver, ouvimos também o pedido de socorro daquele sistema criado para protegê-los. A inteligência artificial que organiza a vida coletiva revela sua fragilidade ao repetir, quase como uma oração desesperada, que lhe falta água para continuar funcionando. Há algo de profundamente humano nessa máquina que sofre. E talvez resida aí a maior ironia do trabalho. No futuro imaginado, não são apenas as pessoas que têm sede. As máquinas também. Como se o colapso tivesse alcançado um estágio em que já não fosse possível distinguir com clareza quem cuida de quem. Entre a tecnologia e a vulnerabilidade, o trabalho constrói uma poderosa reflexão sobre dependência, abandono e sobrevivência. Quando todas as linhas de criação respiram na mesma direção, o teatro alcança uma potência difícil de explicar. É justamente isso que acontece aqui, fazendo de Tenho Sede, Preciso Pensar um dos grandes momentos desta abertura de processos.

Núcleo 6: Manual (Teórico) de Sobrevivência para Depois do Fim do Mundo
Em Manual (Teórico) de Sobrevivência para Depois do Fim do Mundo, o Núcleo 6 parte de uma provocação tão inquietante quanto familiar: e se o fim do mundo já estivesse em ensaio? A partir da figura de um cientista que apresenta ao público um suposto guia para enfrentar o colapso iminente, o espetáculo investiga os limites da inventividade humana diante da escassez de água e do esgotamento dos recursos naturais. Sob a direção de Água Nicoladelli e Jorge Augusto, a cena transforma a catástrofe em campo de reflexão e imaginação.
A dramaturgia de Agatha Selva encontra nos intérpretes Allycia Machaca, Antônio Elton, Davi Leocadio, Luz Sampaio, Natalie Medeiros, Sofia Virgilio e Warner Borges um terreno fértil para articular humor, crítica e desconcerto. Os universos visuais concebidos por Gabriel Moraes, Isadora Serradura Gutierres, Lara Teixeira e Niki Cavalcante dialogam com a iluminação de Lívia Nunes e as paisagens sonoras criadas por Gabriel Leão, MD Gonçalves e Yuri Naufel. A presença de Erika Noguchi, nas técnicas de palco, integra os diversos elementos que sustentam essa criação coletiva.
Mais do que oferecer respostas para um futuro incerto, Manual (Teórico) de Sobrevivência para Depois do Fim do Mundo parece questionar a própria lógica que nos trouxe até aqui. Entre ciência, natureza e sobrevivência, o espetáculo sugere que talvez a grande pergunta não seja como salvar a humanidade, mas como reaprender a coexistir com aquilo que ainda resta do mundo vivo.
Existe ainda em Manual (Teórico) de Sobrevivência para Depois do Fim do Mundo uma impressionante convergência entre as diferentes linhas de estudo que estruturam o processo formativo. Elementos da encenação parecem dialogar de maneira orgânica entre si. A visualidade é inventiva e poderosa, a sonoridade cria atmosferas que ampliam a experiência do espectador, e o elenco sustenta a cena com entrega e precisão. Tudo parece funcionar como parte de um mesmo organismo. Nesse sentido, o espetáculo encontra uma bela zona de encontro entre ciência e humanidade, entre racionalidade e imaginação, entre aquilo que acreditamos dominar e aquilo que continua escapando ao nosso controle. Não há oposição simplista entre o humano e o conhecimento científico. Pelo contrário: ambos aparecem como tentativas complementares de compreender um mundo em transformação. Talvez por isso a obra produza uma sensação tão particular. Ao mesmo tempo em que observa o colapso, ela celebra a capacidade humana de formular perguntas, criar hipóteses e continuar sonhando, mesmo quando as respostas parecem insuficientes.

Núcleo 7: Raíz que Nos Une
Em Raíz que Nos Une, o Núcleo 7 imagina um futuro em que a promessa de fuga fracassou. Depois de devastarem a Terra e tentarem abandoná-la, os privilegiados observam do espaço aqueles que permaneceram. O que encontram, porém, não é um mundo em ruínas, mas comunidades capazes de reconstruir a vida a partir da diversidade, da memória e da força coletiva. Sob a direção de Evandro Pires e Juruá, o espetáculo propõe uma inversão poderosa: o futuro não pertence aos que escaparam, mas aos que aprenderam a permanecer.
A dramaturgia de Malu Gonzaga e Vitória Ricardo encontra nos intérpretes Franco Cortez, Hugo, Paris de Araujo, Rodrigo Axé, Talita Halliday e Yuri Komatsu a possibilidade de refletir, com sensibilidade e humor, sobre pertencimento, resistência e reconstrução. Os universos visuais concebidos por Arthur Dinniz, Karin Florian e Tarsila Cury dialogam com a iluminação de Joyce Luz e as paisagens sonoras criadas por Azre Maria Tarântula e Talita Miranda. A contribuição de Anderson Felipe Alves e Andrea Hirdch, nas técnicas de palco, integra os múltiplos elementos dessa criação coletiva.
Mais do que uma narrativa sobre o amanhã, Raíz que Nos Une nos convida a reconsiderar o presente. Ao valorizar saberes ancestrais, tecnologias comunitárias e formas compartilhadas de existência, o espetáculo sugere que a verdadeira inovação talvez não esteja na conquista de novos mundos, mas na capacidade de restaurar os vínculos que nos ligam a este.
Tem muita poesia em Raíz que Nos Une. Em vez de anunciar a esperança como discurso, o espetáculo a faz nascer em pequenos gestos. As sementes que atravessam a narrativa tornam-se uma poderosa metáfora de futuro: guardam a promessa de um tempo que ainda não existe, mas que começa a ser cultivado agora. A relação construída com o público também merece destaque. Não há barreiras rígidas entre quem observa e quem age; o jogo cênico convida todos a compartilhar aquela experiência de reconstrução. Soma-se a isso uma bela coralidade, desenhada em círculos que evocam comunidade, ritual e continuidade da vida. São imagens simples, mas profundamente significativas. Ao final, percebemos que Raíz que Nos Une não deposita sua confiança em grandes heróis ou tecnologias extraordinárias. Ela a deposita nas sementes, nos corpos reunidos e na capacidade humana de continuar plantando futuros mesmo quando a paisagem parece devastada.

Núcleo 8: Bet Briga com Galões no Baile
Em Bet Briga com Galões no Baile, o Núcleo 8 transforma a festa em alegoria de um mundo à beira do colapso. Em meio ao calor extremo, à escassez de água e à lógica voraz das apostas, a celebração se converte em mercado, e a sobrevivência passa a depender da quantidade de Aquafluidos acumulada. Sob a direção de Henrique Zamith e Natane Figueredo, o espetáculo cria um universo em que diversão, consumo e violência se confundem de maneira inquietante.
A dramaturgia de Juliana Abreu, com dramaturgismo de Thiago Marchetto encontra nos intérpretes Bruno Meng, Gabriella Lopes, Mariana Aguera, Manuel Maria, Mika Santana, Riz Kokoll e Rogério Horvat a potência crítica da linguagem bufonesca. Os universos visuais concebidos por Cami Myczkowski, Sabrina Pasquini e Sofia Santoros dialogam com as atmosferas luminosas criadas por Giovanni Matarazzo, Joyce Luz e Theo Piazzi, enquanto Índigo e Ivan Teixeira constroem uma paisagem sonora que amplifica a vertigem desse baile distópico. A contribuição de Júpiter Isis, nas técnicas de palco, integra os múltiplos elementos dessa criação coletiva.
Mais do que uma sátira sobre o futuro, Bet Briga com Galões no Baile parece falar diretamente ao presente. Ao transformar água em moeda e corpos em investimento, o espetáculo expõe as contradições de uma sociedade que converte tudo em mercadoria. Entre a euforia da festa e a iminência do desastre, a obra nos convida a refletir sobre aquilo que estamos dispostos a apostar para continuar vivendo.
Existe em Bet Briga com Galões no Baile uma coragem artística que merece destaque. Talvez seja o trabalho em que a performatividade apareça de maneira mais explícita e contundente, contaminando a relação entre cena e público, entre jogo e realidade. O trabalho não se contenta em representar um mundo em colapso. Antes, nos arrasta para dentro dele. Suas ideias são altamente criativas e, na mesma medida, temerárias. Há um risco permanente atravessando a encenação, como se tudo pudesse sair do controle a qualquer instante. Essa sensação de instabilidade não é um defeito, mas parte essencial da experiência proposta. O baile transforma-se em arena, a diversão em mecanismo de disputa, e a própria lógica do espetáculo parece reproduzir a vertigem de uma sociedade que já não distingue entretenimento de violência. Talvez por isso a obra produza um impacto tão singular. Ela compreende que, em tempos extremos, a arte também precisa se permitir algum grau de excesso, desobediência e perigo. E é justamente nessa aposta radical que encontra sua força.


