Oficina Olhares: “Chamou SatyriTrans, mas eu podia chamar a família brasileira toda!”, por Manfrin Manfrin

Publicado em: 07/12/2021

por Manfrin Manfrin*, participante da oficina Olhares, especial para SP Escola de Teatro

SatyriTrans! Eu não poderia ter terminado a noite de sábado com maior alegria e experiência de aprendizado, daquelas que fazem você pular da poltrona do sofá. Destacando para quem está lendo e não sabe, eu sou uma pessoa trans em transição feminina. E sim, eu disse de fato sofá! Digo sofá, porque o sofá me lembra a TV. A TV me lembra o rádio. O rádio me lembra das Divas dos anos 80. E de modo geral a estética anos 80 era celebrada com orgulho nas músicas e figurinos pela célebre mestra de cerimônias, dama da noite, diva da Praça Roosevelt, grande atriz e figura pública paulista Márcia Dailyn. A artista da casa, Satyros, foi a MC (Mestra de Cerimônia) da HouseSatyros.

Faço essa brincadeira em referência às houses, espaços de abrigos LGBTQIA+ que desde os anos 80 vem se formando nos EUA, Europa e Américas por corpos divergentes em geral, mas em sua maioria por pessoas negras e trans que, muitas vezes expulsas ou negadas, se juntavam e montavam sua real e sincera família. Foi assim que me senti ali. Recém chegada a uma velha família que me esperava. E a Mama, vulgo Marcinha, fez essa recepção e tour íntimo com muita alegria, vivência e sorriso. Como ela mesmo disse sobre si, rindo e chorando ao mesmo tempo, essa foi a anja/demônia que guiou a histórica noite do 1º SatyriTrans no Festival Satyrianas em sua edição de 2021. Márcia abriu e fechou o rolê interpretando duas vozes de mulheres de poder e revolução, e no final das contas ambas as letras deitavam sobre a mesma cama crítica: o tempo e suas revoluções, sejam em relações pessoais, passionais ou sociais.

SatyriTrans foi daqueles eventos travas que não são um grito, não. São mais que bocas de tracajaras. São vocalizes potentes, dizendo que estamos vivas e louvemos com sorrisos. Como já dizia Ventura Profana:

“Eu não vou morrer. Viva! Viva!”

Como o sorriso é uma revolução, a noite foi de gargalhadas satyricas. Além disso, vimos convidadas trazerem falas importantes sobre crises e microguerras sindicais. Vitórias e conquistas que a priori parecem simples. Mas que, pensando de fato, são as maiores revoluções possíveis de uma geração de travestis brasileiras em uma época onde sonhar não era nem um sonho.

Entre as presenças mais célebres da noite estiveram as duas convidadas do Coletivo Tem Sentimento, que narraram experiências de vulnerabilidade social extrema a ponto de necessitarem estar em situação de morar na rua durante um período. Agora, através da arte, estão reconstruindo a sua carreira. Elas não estavam ali só para contar suas histórias, não mesmo, porque as gatas vieram e deram o nome demais.

Laurah Cruz veio com todo o poder de sua cigana. Cantando e nos jantando em cima da brisa calma de sua voz, mas com força de tornado. Dizendo, “estou calma”. “Vejam como sou bela e poderia matar todos vocês com minha voz”. “Mas hoje não, hoje eu apenas canto e com o fundo do meu coração transformo vida, encruzilhada e poder em arte”. A garota tem uma voz de força e uma consciência vocal esplêndida. Brinca com as notas e vocalizes nos deixando todes transloucades. Além de todo esse poder, a cantora esbanja simpatia e segurança de futuro certo de sucesso. Asé mulher que o mundo é seu!

Então, sua companheira e amiga, Dani Amorim. Uma timidez antes de começar a música até fez minha branquitude pensar, iiiih ela não vai sustentar. Mas a garota muito delicadamente com belíssimo espacate feito me bate de luva de pelica na cara e traz uma consciência corporal digna das grandes bailarinas. Uma suavidade e interpretação em cada gesto digna de uma novela completa. Os pés da bailarina compridos e ponteiros apontam para um futuro-travesti de beleza e sucesso na dança.

Além disso, tivemos também duas grandes atrizes, belíssimas mulheres, potentes intérpretes Julia Francez e Fabia Mirassos. Por meio de suas presenças, paixões e alegrias de irmã da família sorriam e cantavam com leveza e graça. Presentes. Amantes e mais uma vez belas como as damas dos anos 80. Mirassos trouxe também uma poesia-protesto-lei-estatuto travesti da advogada travesti Maria Léo Araruna, Travesti. Travesti, travesti. E digo travesti na mesma linha de novo se precisar. Leiam Maria Léo Araruna, eu não irei dizer nada sobre ela. Ela diz melhor. Travesti.

Só digo que se esta noite ficou gravada, o vídeo deveria passar na Sessão da Tarde ou naquelas sessões de domingo, com a família toda na televisão brasileira. Porque aquela noite foi familiar, alegre e de muito aprendizado. Posso dizer sem dúvidas que amei estar viva e estar naquele local. A revolução é transfeminista!

Se eu fosse fazer um único comentário é: ou chamem de noite SatyriTravas, ou chamem também homens trans para essa família. A HouseSatyros só tem a ganhar!

* Manfrin Manfrin é mestra em Artes Cênicas pela USP na área de Teoria e Prática do Teatro. É dramaturga, performer, atriz, diretora, arteducadora e pedagoga de gênero. É formada em Artes Cênicas e Interpretação Teatral pela UnB e Direção Teatral pela UFBA. Defendeu este ano sua pesquisa de mestrado intitulada “Práxis Queer da cena: Percurso de corpos travestigêneres e trans não Binários nas artes cênicas contemporâneas brasileiras” sob orientação do estudioso de Teatro e Gênero Prof. Dr. Ferdinando Martins, professor da USP. É autora das obras autobiográficas “fRuTaS&tRaNs-GRESSÃO. Histórias para Tangerinas e Cavalas-Marinhos.”(2018); “COCO!” (2019); “FURA! ou um objeto de penetração!” (2020) e “Cartas Para(Ti)” (2021)




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