O verdadeiro Rei Leão do palco

Publicado em: 22/07/2013

Por Mauricio Paroni de Castro*, especial para o portal da SP Escola de Teatro

Leone di Sommi. Nunca é demais lembrar o idealizador do ator enquanto profissional de várias gramáticas e gêneros do teatro – o commico dell’ arte já existia enquanto  profissional, mas somente de seu gênero. Culto judeu do século 16, Sommi dirigia e produzia os espetáculos da corte dos Gonzagas, em Mântua, na Itália. Na época, os espetáculos de qualidade eram frutos do capricho de cortesãos diletantes, feitos para príncipes, prelados ou nascentes alto-burgueses.

O ator moderno foi codificado por ele, que estabeleceu o trabalho técnico diário, que possibilitava uma arte dramática repetível no palco. A profissionalização do oficio reproduzia a visão do ser humano enquanto personalidade definidora do que hoje é normalíssimo para nós: as aspirações individuais, que chamamos de “projeto de vida”. O impacto disso na sociedade da época equivale à invenção do cinema no século 20. Havia um imenso número de analfabetos, pessoas sequiosas de aprender tudo o que era linguagem individual, de sair da estreita visão de mundo, patrocinada pelas das corporações de ofício medievais.

O livro “Quattro dialoghi in materia di rappresentazioni sceniche”, de 1590, profissionalizaram o artesanato da atuação, da dramaturgia e da organização cênica como as conhecemos hoje. Nele, estão compiladas as primeiras indicações de treinamento sistemático dos seus elementos constitutivos. Leone di Sommi criou uma técnica pré-industrial de para uma dicção precisa (no sentido de ser apropriada à figura da personagem, e não somente à palavra literária), para os movimentos do corpo, para as roupas e para a aparência das personagens a serem representadas. O realismo cênico era o objetivo perseguido: havia prescrições para cenografias plausíveis, ainda que sempre em ambientes externos. A quarta parede não era concebível. As manifestações não deixavam de ser intimistas, mas o ciclo da arte como mimese da realidade somente iria se exaurir com o binômio Tchekhov-Stanislavski.

* Mauricio Paroni de Castro é coordenador projeto “Chá e Cadernos”, na SP Escola de Teatro