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O teatro e a voz de Antunes Filho

Publicado em: 31/05/2010

Antunes Filho inicia o último dia do fórum SP Escola de Teatro – Encontros Notáveis, no dia 28 de maio, sexta-feira, citando a alegria de retornar ao palco, à coxia e aos camarins do Teatro Aliança Francesa, décadas depois de encenar,no mesmo espaço,  grandes espetáculos como “A Cozinha”, “Blecaute” e “Megera Domada”. “Tô contentão”, conta o diretor.

 

Antunes é conhecido, desde o começo da década de 80, como um dos diretores/encenadores mais importantes do Brasil; um dos poucos a integrar o restrito grupo internacional de diretores que renova a cena mundial teatral. Desde 1982, comanda o CPT – Centro de Pesquisa Teatral, uma ampliação do Grupo de Teatro Macunaíma, proposto para atividades no campo da formação de atores, de técnicos e de outros criadores cênicos; além de promover a continuidade das pesquisas estéticas e das novas perspectivas teatrais do Grupo Macunaíma.

 

O método criativo de Antunes Filho lhe rendeu a fama de tirano e autoritário, segundo Jefferson Del Rios, mediador do fórum, entretanto, o diretor subverte, propondo um bate-papo, ao lado de dois jovens atores do CPT, Lee Thalor e Erick Gallani, para provar o contrário “Eu dormia nas palestras dos diretores. Não gosto dessa retórica de palestra, então podem fazer perguntas que eu respondo. Se não souber ou tiver esquecido, podem perguntar para os atores aqui” diz, voltando-se para o lado.

 

Em seguida, Antunes enfatiza que é imprescindível um aprendizado especial para trabalhar com atores, pois fazer teatro não é como fazer um desenho animado onde o personagem é objeto. É preciso que o ator tenha o máximo de liberdade para compor seu personagem e que tenha consciência do que faz. “Faço meu trabalho numa relação direta com os atores. Mas processo colaborativo? Mentira, sempre tem um líder, tem que ter”, afirma.   

Então, dá plateia lotada do Teatro Aliança surge uma pergunta:  “O que é imprescindível na formação do ator?”. “Talento”, responde Antunes, sem nem pestanejar. E complementa que olhos e ouvidos atentos na poesia, literatura, música, cinema, filosofia e artes plásticas são fundamentais para a carreira teatral.  “Sempre adorei Bergman, além dos filmes de aventura e bang-bang (…) Nada é mais bonito nessa vida que um ator interpretando”, reflete em voz alta.

 

Sobre o processo de criação textual do dramaturgo, Antunes é categórico: “Mais fácil ser um campeão de tênis no Brasil do que um bom dramaturgo. Ser autor de teatro é quase impossível”, afirma e conclui que para escrever para o teatro “ tem que ser no bafo, no lápis e na caneta. É preciso haver entrega; ser visceral.”

Ainda durante o bate-papo descontraído, Antunes reflete sobre o papel essencial da palavra no teatro e a dificuldade de tornar um texto vivo. “O processo de entendimento do texto é fundamental, não pode haver nem falta do conhecimento do texto, nem da complexidade humana. O homem está com saudade do homem”, afirma.  “A experiência de vida é fundamental para o personagem. O papel do ator é alcançar o nível do texto, não rebaixá-lo ao seu nível” complementa Lee Thalor, ator que, atualmente, protagoniza o espetáculo Policarpo Quaresma em cartaz no Teatro Anchieta.

 

Da palavra para a voz, Antunes demonstra novamente sua simpatia, ao convidar a aprendiz do Curso de Atuação da SP Escola de Teatro, Vânia Della Torre Ballo, para subir ao palco e servir de exemplo em uma aula de respiração, projeção e posicionamento vocal. E, enquanto situava sua nova assistente, o diretor comenta que, para fazer do seu corpo uma caixa de ressonância, é preciso manter o corpo relaxado, respirar pela boca e não pelo nariz.

 

Uma das faces mais marcantes no trabalho de Antunes Filho é a técnica vocal vinculada à técnica corpórea; corpo e voz, numa só pulsação desejante.  “Não dá para fazer voz sem corpo. Corpo e voz  são uma coisa só”,  leciona o encenador que, após ter estudado detalhadamente as falas de atores estrangeiros, como os tibetanos, japoneses, russos e poloneses, entendeu que a voz deve ser trabalhada com naturalidade e sensibilidade, nunca automatizada pelo raciocínio.

 

Para fazer teatro é preciso ser sincero, deixar as besteiras de lado e ir para o coração. Fazer teatro é voar e sobrevoar. Não há problema em arriscar.  Afinal, “o teatro é apenas um meio, não é um fim”.

 

Confira Antunes em cena com dois espetáculos no Sesc Consolação. Lamartine Babo e Policarpo Quaresma.