O QUE ESTÁ ACONTECENDO?

Publicado em: 21/05/2014

 

* por Marici Salomão, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

 

Você acorda com o buzinaço na Rua do Paraíso e sabe que vai enfrentar a falta d’água.

 

Come seu pãozinho caro demais pra um país pobre e veste uma de suas roupas com marca de ferro, que você detesta.

 

O trânsito é uma cobra enorme e lenta que aos poucos engole o seu já médio bom humor diário.

 

De repente, pessoas começam a descer dos ônibus, que param, e você entende que a cidade está vivendo um boicote de proporções imensas (só não sabe ainda que será um boicote de proporções inimagináveis).

 

Você não aguenta mais ouvir a tal rádio italiana, nem pensa em colocar um CD da Speak Up.

 

Você sabe que está no caos. Você é o caos. Você contribui para o caos. Você não criou o caos, mas agora é também responsável por ele.

 

Você começa a achar que está deprimida.

 

O que está acontecendo?

 

Você viveu 50 anos acreditando em respeito, justiça, zelo para com o próximo, discrição, trabalho honesto, e depara com a consciência do pesadelo.

 

Você faz coisas boas, mas duvida neste momento que tudo isso esteja valendo a pena.

 

Você olha para os rostos das pessoas nas ruas andando como que perdidas. Zumbis?

 

Você não pode acreditar que são seres expulsos dos ônibus, e que caminham sem nenhuma reação.

 

Você acha que acordou no Hades e foi a última a saber.

 

Você voltou de viagem há poucos dias e não havia um telefone disponível no novo terminal 3.

 

Nem táxi nem telefone. Apenas uma fila enorme de brasileiros e estrangeiros esperando pela condução.

 

Você ouviu que os táxis não chegavam ao novo terminal porque o trânsito estava péssimo.

 

Você finalmente chegou ao seu prédio, que mais uma vez estava sem luz.

 

Você se perguntou como pode morar num bairro de classe média sem que ninguém consiga responder porque a energia está caindo toda vez que chove (isso vai completar 3 meses).

 

Você subiu os seis lances de escada morrendo de sono e cansaço, e deixou suas malas na portaria.

 

Você está desamparada. Sua mãe e sua avó já não estão mais aqui. E seu velho pai está de braço quebrado.

 

Você está misturando pensamentos da vida pública e da vida privada e não sabe como sair desse emaranhado ridículo.

 

Então você pensa no homem que morreu atingido por um vaso sanitário.

 

Pensa nos dentistas que pegaram fogo por não terem dinheiro no momento do assalto.

 

Nada, você não está fazendo nada por ninguém, por nada. 

 

Tenta sair do mal-estar, num esforço enorme para se concentrar em coisas boas.

 

Você sorri a si mesma, diz que possui asas, asas de anjo, e que ajudará pessoas e animais, que lutará por mudanças, que doará sua vida para que não arrastem mais no asfalto criancinhas penduradas em carros roubados.

 

Pensa que sua consciência e coragem vencerão sua ingenuidade. Que irá para a fogueira em nome do bem comum.

 

Neste momento, então, você acorda.

 

O suor diz que estava num pesadelo.

 

Você respira profundamente, ouve o buzinaço na Rua do Paraíso e sabe que vai enfrentar a falta d’água…